30 de set de 2010

Leonard & Etta

Lejzor Czyz era um judeu polonês que ao desembarcar em Chicago em 1928 tem seu nome trocado para Leonard Chess.
Depois de tentar a sorte com clubes noturnos em Chicago – o mais famoso foi o Macomba Lounge - resolveu investir suas economias em uma gravadora. Compra então parte da Aristocrat Records, especializada em pop negro e jazz, aos poucos vai assumindo o controle total da empresa, guinando sua orientação para o blues.
Gênero que ajuda a sair da fase rural/acústica e ingressar na era urbana/elétrica gravando Howlin´ Wolf e Muddy Waters, John Lee Hooker, que cultivavam uma rivalidade gigantesca, além de Bo Didley, Buddy Guy, Lowell Fulson entre outros.
Sem contar o maior compositor de blues em todos os tempos: Willie Dixon.
Chess, como bom judeu, pagava pouco para seus contratados, mas generosamente lhes presenteava com Cadillacs novinhos a cada disco de sucesso. Então quando estes precisavam de dinheiro ou de um aumento em seus cachês ele respondia: “-Já lhe dei, ou acha que os carros são de graça?”.

Porém há uma passagem nos estúdios Chess que chama a atenção...
Em sua sala de gravação a banda tenta gravar com uma jovem promessa não uma, nem duas, mas vinte e quatro vezes a canção: All I could do was cry:

-Esquece... Você não é mulher para esta música... – diz Chess.
-Eu sou mulher para qualquer música. – responde Etta.
-Menos para esta... O que sabe você sobre perdas? O que sabe você sobre abandono? – continua ele.
-E o que sabe você sobre mim?- devolve a cantora com ódio no olhar.
Leonard, que até então realmente pouco sabia sobre sua contratada deu de ombros para a pergunta.
-Mais uma vez! – pede ela a banda e ele aceita. Dá ordem aos músicos para que toquem.
O diretor musical então conta: “-All I Could was cry, vigésimo quinto take...” e a banda ataca um blues suave, quase um soul.

Enquanto canta seus olhos marejam, e se eles são a janela da alma, ali podia-se ver a dela. Sem disfarces, sem retoques.
Os presentes sentem que não é apenas mais uma interpretação de Etta, mas a história de uma vida.
Em sua cabeça passa um filme descolorido pelo tempo, mas vivo o bastante para impulsionar sua voz às alturas, sobrepondo-se aos instrumentos.
Lembra-se do pai que a perdeu em um jogo de sinuca, dos homens que passaram pela sua vida e a exploraram de uma forma ou de outra, dos amores perdidos, da fome, do frio... De sua história enfim...
Chess sabe que tocou no ponto, só não sabia qual exatamente. Apaixonou-se por ela e tiveram um caso que atormentou sua moral judaica – era casado - até falecer.
Muddy Waters - presente a gravação - sabia...
Não se mexe nos fantasmas que um verdadeiro artista guarda no armário da alma sem pagar um preço alto por isto...

O video é um enxerto de Cadillac Records, filme de 2008 que narra a trajetória de Leonard Chess à frente de sua gravadora. Etta James é interpretada magistralmente por Beyoncé.

29 de set de 2010

Chaplin, City Lights e o GP de Singapura.

Charles Chaplin em sua extensa carreira tem um filme chamado: Luzes da Cidade (City lights, EUA-1931) em que seu personagem Carlitos, o adorável vagabundo se apaixona por uma florista cega que o confunde com o milionário do qual ele se torna “amigo” durante as bebedeiras deste. Entre idas e vindas do enredo, Carlitos, na ânsia de ajudar a florista se envereda por diversos empregos para tentar levantar o dinheiro para que ela e sua tia paguem o aluguel atrasado e evite o despejo iminente.
Assim se torna pugilista e varredor de ruas, mas só consegue o dinheiro com a ajuda do “amigo milionário” que durante um porre lhe dá mil dólares que pagam não só o aluguel atrasado, bem como a cirurgia que lhe devolverá a visão.
Porém, quando recobra o juízo e a sobriedade, o milionário o acusa – injustamente – de roubar o dinheiro e assim Carlitos vai preso.
Quando sai da prisão ele reencontra a florista e descobre que agora ela pode ver e que montou uma floricultura e, que cada vez que um homem rico entra em seu estabelecimento ela pensa ser seu bem feitor e só depois de algumas confusões tipicamente chaplinianas é que ela o descobre um vagabundo e termina o filme com um ar aparentemente confuso...

Mas aonde isto vem a ter um ponto de intersecção com a prova de Singapura?
Vem no incrível azar de Lewis Hamilton ao tomar suas decisões. Se elas se mostram boas para quem vê, talvez na execução deixe muito a desejar e não se obtenha os resultados esperados. Ao menos para ele.

Em certa cena, Carlitos está empregado como varredor de ruas e segue na labuta recolhendo o lixo das ruas e também o excremento dos cachorros, cavalos e outros animais.Quando finalmente consegue limpar toda a rua em que estava, com aquela expressão de dever cumprido eis que cruza a sua frente um elefante dando a entender sutilmente o tamanho da sujeira que ele terá de limpar...

Em dado momento da prova, Hamilton que vinha bem e pensando unicamente nos pontos tenta ultrapassar Webber que fazia uma prova de recuperação após largar não muito bem e aproveitar o primeiro safety para fazer seu pitstop obrigatório, apostando em ganhar todas as posições possíveis na parada dos outros. Eis que em uma das curvas do circuito das luzes ele encontra seu elefante... E acaba por ter certeza de que desta vez a sujeira vai ser muito difícil de limpar.

As cenas do limpador de ruas está entre o minuto 2:30 e o minuto 3:31 deste video encontrado com muita paciência por Alysson Balo Prado, do Meca News. A ele meu muito obrigado!

28 de set de 2010

Ava(ca)liações de Singapura.

Se alguém tivesse sabotado este treco ai lá em Singapura, talvez... Eu disse TALVEZ houvesse alguma emoção de verdade...

E mais uma vez o Capitão Gancho ganhou do Peter Pan... Faltou um crocodilo pra comer o outro braço do safado...

E seguindo esta linha... Nico Rosberg terminou a corrida em quinto lugar...

Prefiro Lewis mil vezes tentando e errando que Vettel sem tentar nada o tempo todo.

E por falar em Vettel, olha ele aí... Red Burro.

Bom seria se caísse sentado em cima da garrafa...

Mecânico: -Este velho... Além de tomar pau de uma menina ainda dá trabalho extra pra gente.


Button: -Quer dizer que assinou mais um ano? Parabéns...
1B: -E fui o primeiro a assinar! Antes do Hulke!
Bruno: -Até que enfim foi o primeiro em alguma coisa, hein?



Webber e o troféu de terceiro que lhe valeu ser o primeiro... Até este treco é mais bonito que o brinde que o Santander dá aos vencedores de suas corridas..



Homem da placa: -Alonso! Nos boxes tem um p*** bem grande para você!
Alonso pelo rádio: -Bueno!

26 de set de 2010

Singapura 2010 - Sob as luzes da cidade...

Singapura é assim.
Tudo muito bonito, tudo muito iluminado (menos a história da corrida que o Nelsinho bateu), mas muito chato.
Se for para ver espetáculo de luz – que inegavelmente é bonito – eu prefiro Paris, que não é só a pista das luzes, mas a Cidade Luz. E tudo é tão chato que o vencedor não poderia ser outro se não o piloto preferido em Brusque, que de F1 entende tanto quanto eu entendo de física quântica e cirurgias ortomoleculares...
Fazer o que. Uns gostam de corridas, outros da beleza dos pilotos.
Enfim... Vida que segue.

Com uma largada limpa demais o piloto safado espremeu o burro no muro.
Burro? Ué... E como chamar um cara que tem o melhor carro e decide tentar ultrapassar só na ultima curva da corrida? Inteligente é que não é.
Corrida decidida em estratégia é o pesadelo de qualquer fã de velocidade. E esta corrida noturna é e vai ser sempre vencida assim.
Seja estratégia de estatelar um no muro para outro ganhar ou a de não parar logo nos boxes... É chato.
Ainda houve boas ultrapassagens de Webber, de Kamui, e outros menos cotados, mas sempre lá atrás.
Tira o brilho da manobra? Claro que não! Mas deixa um gosto de “poderia ser melhor” na boca do fã.
Confesso que aproveitaria melhor a noite de Singapura passeando por lá do que assistindo a corrida. Pena que o excesso de luzes artificiais ofusca a visão das estrelas se não poderia até ser melhor.

Desta vez apenas dois safety car, um dos quais se dizia poder ajudar o segundo segundo piloto brasileiro, mas devido ao mesmo ser – ou estar – um grande pára-raios de cagada, fez pouca diferença.
O outro cortou a ação – que no fundo não daria em nada mesmo, como não deu até o fim – do piloto Peter Pan sobre o preferido de Brusque.

Bom foi ver Kamui dando um chega para lá no sete estrelas, que como está sendo corrente este ano, não brilhou.
Mas como disse: são tantas luzes artificiais que as naturais não brilham...
Sendo sincero... Quem tem luz natural este ano? Com a quantidade de erros de parte a parte só podia dar no que deu: tudo embolado. O campeonato pode até estar sendo fantástico, mas não podemos ser cegos. São os erros que o estão deixando assim. Muito mais que os acertos.E por falar em erros: Ninguém erra mais que Lewis Hamilton este ano. É o campeão das besteiras. Algo ele tinha de ganhar...
Animado mesmo foi ver o fogo no rabo do Kova, e o narrador brasileiro gritando: “-Sai daí...”.

E no fim... Brilhareco do Burro, que com toda a corrida para tentar ultrapassar só o fez nas últimas curvas da última volta.
E ainda vai aparecer quem diga que foi o “fantástico”, o “brilhante”, o “estupendo” espanhol que o controlou durante toda a prova.
Este cara pode controlar bem outras coisas, mas desta vez contou foi com a apatia e o aparente medo de errar do alemãozinho que nunca cresce...
Que venha o Japão, que apesar da corrida chata do ano passado, sempre promete.
E para não perder o costume: Vai se f*** Alonso. Que pode ser bom, mas é proporcionalmente chato e mau caráter...
Ah sim... Eu citei Brusque a rodo no texto, mas não dá pra negar... Ô lugar bonito!

Pena que torcem pelo Alonso...

24 de set de 2010

Líricas para a F1

Rossos safados
Na equipe do Comendatore, quem tem príncipe é suspeito.
Na corrida na terra de república parlamentar, se vencer o príncipe é fraude.
Em time de príncipe, se vencer o plebeu é zebra.

Mercedes.
Na equipe dos alemães, quem dá as cartas não é loiro. É Brawn...
Na corrida noturna, se vencer um prateado é piada do Pânico...
Em time de Lobo velho, quem dá as cartas é a Chapeuzinho...

Red Bull
Na equipe do energético, o excesso é visto como fraqueza.
Na corrida das luzes, os meninos tem medo do escuro.
Em time de meninos, não se tem respeito pelos mais velhos...

McLaren
Na equipe só de ingleses, não existe patriotismo. E nem patriotada...
Na corrida sob as estrelas, os satélites é que podem se sobressair.
Em time de irmãos, a guerra é permitida.

Renault
Na equipe da terra do champanhe, não se servirá vodca.
Na corrida da hora dos sonhos, o bicho papão vem de amarelo e preto.
Em time de um carro só, dois pilotos é luxo.

Williams
Na equipe de passado glorioso, o primeiro piloto é do tempo em que ainda venciam.
Na corrida da escuridão, o futuro é tão incerto quanto a própria.
Em time tão tradicional, a tradição se mantém. Logo, o menino sobrepujará o ancião...

Para todos os outros, o que acontecer é lucro.
No tilkódromo noturno, ultrapassagem é utopia.
Em corrida que nada acontece, se chover, é capaz de não ter emoção. Nem prova...

23 de set de 2010

E se...

Vou colocando algumas situações e minhas saídas.
Se puderem deixem as suas também.

E se:
Encontrasse na rua, bem por acaso, Luca di Montezemolo?*Gritaria em alto e bom som: “-Os carros do Sr. Ferrugio são melhores e mais bonitos!”

E se:
Estivesse em um local e José Serra estivesse dando entrevista para algum jornalista e dissesse: “-Isto não vai acontecer no meu governo!”? *Diria para que os microfones pudessem captar: “-O que não vai acontecer é seu governo!”.

E se: Felipe Massa te dissesse que ainda acredita no título deste ano e que não é segundo piloto?
*Eu daria risada....

E se:
Fosse o Rubinho? *Não riria mais... Afinal piada muito repetida perde a graça.

E se:
Pudesse mandar um recado aos pastores televisivos? *Cês vão pro inferno, cambada de usurários...

E se
Um conossiêr de vinhos ficasse em sua frente falando das propriedades amadeiradas, das notas de carvalho, do aroma frutado e encorpado, da cor sólida e do bouquet divino de um vinho qualquer? *-Ah vá! E cê sentiu tudo isto dando apenas uma bicadinha no vinho? Mentiroso!
E se fosse um conhecido tele conossiêr que apresenta programas pra lá de chatos ainda teria o grã finale!
*-Viaaaaaado!

E se
Aparecesse em sua frente um bando de adolescentes com calças coloridas, óculos gigantes sem lente, cara de débil mental, cabelos desgrenhados gritando: “-Nós amamos vocês!”? *-Uma pergunta, vocês são fãs do Reestart?
Se a resposta for positiva, apenas procurar ajuda psiquiátrica resolve, agora... Se responderem que são fãs do Fiuk também, o melhor é cobrir de porrada logo. Dizem que tem cura...

E esta é real.
Um amigo foi passar umas férias no Caribe e viu estirada na areia uma deusa de beleza. Pensou ele que fosse uma cubana, linda, sensual, negra de formas perfeitas.
Se aproximou e com um portunhol muito do sem vergonha se ofereceu para passar óleo bronzeador nas costas da beldade.
Ela aceitou e ele se refestelou.
Depois, com as piores intenções possíveis disse à moçoila.
-Agora virate para que yo possa passar em lá frente... E a criatura respondeu.
-No puedo, estoy de palo duro...

21 de set de 2010

Plano maligno para Singapura.

-Flavio... Precisamos ganhar a corrida noturna... Por favor, dá uma ajuda ai...
-Mas claro, meu caro Stefano... Quero que você saia por cima quando eu assumir o pitwall rosso.
-Como? Assumir o que?
-Nada, nada.... Mas vem cá... Gostou daquela de por os mecânicos atrapalhando a saída do tonto prateado, heim?
-Gostei... Eu gostei. Quem não gostou foram eles... Os mecânicos.
-Bah... Besteira. O tonto prateado não atropelaria ninguém ali... Ainda se fosse o Mansell... Mas o Button nunca... -E agora... No que está pensando?
-Tenho um plano... Temos que esperar a chegada do Fernando para dizer, afinal ele é quem vai ser beneficiado.

Então o piloto aparece na sala, o clima que já não era bom fica pior...
-Entonces, cavalheiros... Tratemos de negócios. – diz o asturiano.
-Negócios? – se espanta Stefano
-Mas é claro! Uma vitória de Alonso em Cingapura é um grande negócio! – e ri sua risada diabólica.
-Mas e o esporte? Nós somos um time esportivo! – tenta argumentar o simpático bobalhão.
-Depois não sabe por que Luca me quer na equipe... Ai, ai... – suspira o vilão de filme B.
-Olha... Eu pensei em algo simplesmente supimpa! – revela o príncipe das astúcias.
-Então fala! – diz o torresmo de sunga.
-Eu imaginei o seguinte... Botamos o Felipe lá na frente, e eu atrás, quando ele viesse fazer o pitstop deixaríamos a mangueira enfiada no carro... Eu passaria e ganharia a corrida. Que acha?
-Já fizemos isto uma vez... – diz Stefano.
-E deu certo? – pergunta o piloto.
-Não... – responde desconsolado. Quem ganhou foi você...
-Claro! Não fui eu que arquitetei! – vangloria-se o ex-chefe da Renault.
-Bom... Que tal então a gente por o Massa lá na frente e na parada a equipe trás só três pneus para ele. Eu passo e ganho a prova.
-Já fizemos também... Com o Irvine em 99, e antes que me pergunte: deu errado, perdemos até o campeonato.
Fernando e Flávio se olham com caras de quem quer explodir em gargalhadas, mas se contentam em apenas dizer os dois ao mesmo tempo: “-Amadores!”.
-E se eu mandasse o Felipe bater no muro? – pergunta o chefe da equipe. -Esta fui eu que arquitetei, e deu certo! Mas não vai colar de novo... - sorri Flávio
-Tá bom... O que vocês têm em mente? – entrega os pontos.
-Seguinte... – começa a explicação o velho torresmo - Não é certeza de que os dois carros da equipe estejam na ponta da corrida, certo?
-Certo! – responde os outros dois.
-Então... A corrida é de noite... Não é?
-É... – balançam a cabeça sincronizadamente.
-Se Alonso não estiver em primeiro – ouçam só como sou genial – um dos meus capangas vai até a companhia de luz da cidade e apaga tudo com um curto circuito! E todos batem para Alonso ganhar a prova! Não sou um gênio? -Não... É um mané! – diz Stefano – Se apagar as luzes do circuito até Fernando bate!
-Não, não... Ai é que entram vocês da equipe... Instalem bem escondidinhos, viu - como os amortecedores de massa e os controles eletrônicos de largada – uns bons faróis de milha no carro do meu pupilo ai... – e ri novamente sua risada diabólica juntamente com o príncipe das astúcias... -Gênio! – baba o piloto safado...

20 de set de 2010

TV aberta, sessenta anos

Muito diferente do que disse Belchior em “Balada de Madame Frigidaire”, a TV nunca teve de enfrentar a geladeira como nossa amante. Ela é a rainha absoluta do lar.
A TV é dona da casa e a geladeira no máximo uma escrava branca.
E por conta disso a família estava toda reunida em torno dela em uma noite chuvosa de segunda-feira. -Sessenta anos de TV no Brasil... – diz a mãe.
-Pois é... Mais de meio século... – diz o pai.
-Vocês viram a TV quando inaugurou? – perguntou a filha do meio.
-Não, não... TV era coisa de rico. Em São Paulo, maior metrópole do país só tinha no máximo uns duzentos aparelhos... E foi Assis Chateaubriand que mandou trazer de fora do país... Meio que por maracutaia... Já que veio como contrabando. – conta o pai.
-E ninguém pegou ele? Perguntou a mais velha.
-Pegar Chateaubriand? Que isto... Era o homem mais importante daquela época. Influenciava presidentes, até mudava ou pedia leis para que levasse vantagem... Getúlio Vargas era muito seu amigo.
-E como ele fez pra que ninguém o acusasse de contrabando? – quis saber a do meio.
-Porque ele mandou uma TV para a funcionária que poderia acatar a denuncia... Ai já viu... – disse o pai.
-Eu queria saber o que foi que passou na TV no primeiro dia.... – diz o filho mais novo.
-Ah... Eu li que foram uns discursos, e depois um show de musica...

Então o avô, que até ali se mantivera calado resolve falar.
-Mentira! Não foi nada disto... Ou melhor, quase nada disto...
Espantados todos tiram os olhos da TV e começam a prestar atenção ao velho sentado em uma poltrona reclinável.
-Foi uma noite esquisita... Eu estava no trabalho, no ministério da Saúde, e lá tinha uma TV. Cortesia do Chatô...
-Chatô? – pergunta a filha do meio.
-Era como chamavam - pelas costas, claro - o Assis Chateaubriand... E eu vi tudo...
-Conta, como foi? – diz o menino caçula.
-Atrasou... Atrasou muito a primeira exibição... Na TV aparecia apenas uma imagem parada de um indiozinho... A gente ficou olhando o indiozinho... E ele não se mexia...-TV Tupi! – esclareceu o pai.
-Isto... E de um minuto para o outro apareceram na tela um monte de gente. Uma imagem esquisita, luminosa em branco e preto. Umas autoridades discursaram, o Chatô discursou... Uma mulher feia cantou alguma coisa e então tivemos uma visão terrível... Uma visão do inferno. A sorte era que existiam menos de trezentos aparelhos espalhados pela cidade, se não muita gente morreria de infarto. Eu mesmo só consegui encarar uma TV novamente muito tempo depois...
-Então foi filme de terror! – comemorou o caçula.
-Isto... – disse o avô encerrando o assunto.
Então todos se voltam novamente apara o aparelho de TV e continuam a assistir seus programas prediletos.
“-E agora com vocês a primeira dama da TV brasileira: Hebe Camargo!” – diz a voz da TV. Espantado, o avô olha para todos na sala e diz:
-Olha ai... A gente falando da primeira transmissão e não é que eles vão reprisar o tal filme de terror que passou aquele dia?

17 de set de 2010

Contos do botequim - 3 - Uma tarde normal

E o fim da tarde chega encontrando toda a fauna que freqüenta o boteco do Canário reunida em torno de mesas devidamente cobertas de cervejas.
Andrade, Dito, o ex-prefeito, Márvio e até Anízio, o homem das funerárias.
As conversas variavam do tradicional futebol e política municipal até os também tradicionais pitacos sobre a mulherada que por ventura passa-se pela porta do boteco.
-Cê viu o jogo?
-Vi... Foi impedimento. O gol não valeu.
-Que gol? To falando do jogo de basquete...
-Basquete? Eu não assisto basquete... Não gosto de nada que põe as mãos na bola...
-Isto explica porque se divorciou...
-O que?
-Nada, nada... Deixa pra lá.

Então Derico, o fiscal da natureza – segundo as más línguas – adentra o bar e puxa uma cadeira...
-Ô Canário, seu safado... Trás uma coca-cola ai e uma porção de salame... Eu falei salame, heim? Vem com porcaria de mortadela não... - e virando-se para os amigos - E ai bando de desocupados? Que manda de novo?
-Mandar de novo em qual sentido? – diz Andrade, professor de português aposentado e chegado nos meandros da língua.
-Como assim em que sentido? – ficou curioso Derico.
-De novo no sentido de “novidade”, ou de novo no sentido de “outra vez”? – explica.
-Bom... Nos dois... – e ri amarelo.
-De novidade, nada...
-E se fosse “outra vez”? O que vocês mandam?
-Você ir tomar naquele lugar... – define o professor aposentado causando risos na turma.

Derico sabe da verve sacana de todos e nem liga.
-Márvio... Cê tem cachorro? – pergunta o ex-funcionario da ferrovia.
-Tenho... – responde - Por quê?
-Nada... É que a cadela lá de casa deu cria... E tem uns filhotes bonitos... São de raça.
-Obrigado... Mas eu não posso criar cachorro. Tenho alergia.
-Sem problemas... Alguém ai quer?
-Que raça que é? – se interessa Canário.
-São Bernardo...
-Para, Derico... Sua cadela nem é tão grande assim pra você dizer que é um São Bernardo... – diz Andrade.
-E nem muito religiosa também... - debocha Lucas, o açougueiro.
-Engraçadinho... E você Lucas? Não quer?
-Não... Não quero não... Tem um em casa que tá dando trabalho já... Por causa do nome...
-Do nome? – se interessa Andrade...
-É... Eu creio que seja... Levei para casa ainda filhotinho... Ficava lá, brincando com todo mundo... Bravinho até! E ninguém se preocupava em dar um nome para ele... Era cachorrinho para lá, cachorrinho para cá... E assim ia sendo... Até que alguém resolveu que ele tinha que ter um nome... E minha sobrinha foi lá em casa e escolheu um nome..
-E qual foi o nome que ela escolheu? – perguntou Dito, como verdadeiro porta voz da curiosidade de todos.
-Fiuk... Ela escolheu: Fiuk.
E todos riram.
-Mas qual o problema em batizar o cãozinho com o nome do filho do Fábio Junior? Ou de uma celebridade qualquer? - comentou Andrade.
-Nenhuma... Mas...
-Mas nada... – interrompe Andrade - Eu mesmo tive uma cachorrinha que levava o nome de Audrey, em homenagem a uma das mulheres mais bonitas da minha época...
-Audrey Hepburn? – pergunta Canário.-É... Conhece?
-Já li sobre... Mas faz tempo isto heim? Não sabia que você era tão velho...
-Ora... Vá se fu... Mas, conta ai Lucas, porque ele tá dando trabalho por conta do nome? – lembra-se Dito.
-É que enquanto a gente o chamava de cachorrinho, o bicho era invocadinho... Todo machinho... Mas foi só colocar este nome ai e pronto... Apareceu um monte de cachorro perto de casa e todos ficam cheirando o rabo dele... E ele nem liga... O silêncio permeia o ambiente até que:
-Cadê a coca com o salame Canário, porra! Tá disfarçando a mortadela para parecer com salame? – grita Derico.
-Não... To escrevendo no prato para o garçom não se enganar: para o Fiuk da mesa quatro, a dos aposentados...
E as outras história do boteco estão aqui: => Funerárias e Açougue.

16 de set de 2010

Oportunidade de emprego na F1

-Bom diai... Eu vim pelo anuncio de emprego.
-Bom dia. Trouxe um currículo?
-Não... Não trouxe, mas sou profissional de primeira linha, pode confiar.
-Bem... Na verdade se for um profissional muito bom, de verdade, a gente nem possa te contratar... Estamos com problemas financeiros, você deve saber.
-Olha cara... Eu trabalhei em lugares legais... Até no Martelinho de Ouro eu já estive.
-Mas você é mecânico ou funileiro?
-Faço os dois, se for necessário...
-Olha aí. Versatilidade, isto é bom! Já pensou em trabalhar segurando um pirulito?
-Que isto doutor? Eu sou pobre, mas sou descente!
-Não... Você não entendeu, mas... Mas dá uma geral ai para mim... Onde foi que você já trabalhou?
-Bem... Comecei nas oficinas da Renault, lá no Brasil, quando a marca se chegou por lá.
-E trabalhava muito?
-Bom... Naquela época a marca era campeã de reclamações nos jornais especializados.
-E depois?
-Fui trabalhar em uma concessionária da Mercedes. Quase não tinha trabalho, os carros não quebravam!
-Certo, certo... Mas só trabalhou em concessionárias?
-Não... Trabalhei em bocas de porco também... Sabe como é?
-Ô se sei... Então trabalhou em outras oficinas sem a carteira assinada?
-Sim... Na do Frank Regulagem, do Peter Biela... Em uma que chamava Destrói Trambulador da Índia...
-E fazia o que nestas?
-Bem... Basicamente gambiarras.
-Mas isto é ótimo!
-Ótimo?
-Claro... As gambiarras eram feitas porque o cliente pedia ou a oficina tinha pouca grana?
-Os dois...
-Mas o mais comum era?
-Por conta de oficina querer economizar uns trocos...
-Ótimo! Que maravilha... O senhor tem o perfil da empresa...
-Estou contratado então?
-Se não se importar de trabalhar muito, ganhar pouco... Ah, e claro... Não ter carteira assinada.
-Por mim tudo bem... Me parece as mesmas condições que eu tinha na Fiat...
-Trabalhou na Fiat?
-Sim...
-E saiu por quê?
-Eles enganavam muito o consumidor.
-Ok... Aperte aqui e vamos ao trabalho... A partir de hoje é o novo mecânico da Hispânia. Vai trabalhar com o Sakon Yamamoto.
-Yamamoto? O japonês?
-É... Algum problema?
-Olha doutor... Eu vi Satoru fazer strike no Senna, assim como seu filho fez nos mecânicos... Vi Taki Inoue ser atropelado – e duas vezes – por fiscais de pista. E por último, vi este mesmo Sakon que você tá falando aí atropelando gente nos boxes. Pensando bem... Melhor desempregado que morto. Obrigado!


E com todos os funcionários - de carteira assinada - esta no ar a edição de Monza da Rádio On Board. Neste link aqui => Vai pra Hispânia, Alonso!

15 de set de 2010

Mentes superiores

Após a grande vitória do time rosso em Monza, o staff da equipe foi convidado para uma grande festa na casa de Luca di Montezemolo e para lá vão todos.
Mecânicos, engenheiros, pilotos, o povo da logística e até o pessoal da cozinha e limpeza.

Aquilo sim era viver bem. Na entrada da casa, uma imensa área coberta abrigava uma espécie de museu de carros de F1. Lá se pode ver os carros de vários pilotos que passaram pela scuderia: Lauda, Gilles, do Schumacher tinha uns três, Surtees, Ascari, Prost, Raikkonen e até do Berger...
No hall de entrada, pinturas de grandes artistas italianos que retrataram os carros vermelhos e outras obras de arte além de capacetes de pilotos da equipe em todos os tempos.
Piscinas cobertas e aquecidas para o inverno, outras ao ar livre, óbvio, para o verão.
Salão de jogos, um imenso living para receber os convidados e uma sala intima, onde dizem, o chefão da Ferrari trama as falcatruas, as quebras de contrato e mais, muito mais que não se ousa dizer. Até porque nesta sala tem fotos dele com Don Corleone, Scarface e Tomazio Buschetta...

Durante a festa o assunto não poderia ser outro: a vitória de Alonso.
-Foi emocionante! – disse um dos técnicos de logística.
-Foi sensacional! – falou um engenheiro.
-Foi perigoso, não sei se faço isto de novo... – exclamou um mecânico.
-Pois é... Ficar na frente do Button nos pits... Mas era o Button, e ele é educado. Imagina se fosse o Mansell? – disse outro.
-Pior... Se fosse o Satoru ou o Kazuki? – replicou o primeiro.
-Estaríamos todos mortos agora. – chegaram os dois a conclusão.
Mas no baixo clero a conversa era outra: o segundo piloto.
-Dizem que ele é totalmente submisso... Se o queridinho pedir ele faz.
-Pois é... Mas dizem... Ninguém sabe... E como falam muito, fica o beneficio da duvida... Eu penso que ele é mentalmente forte. Não ia cair nesta esparrela ai não... Como caiu o compatriota dele com o alemão...
-Mente forte? Acho que não... Olha lá no meio do living.

De fato, no meio da imensa sala de estar havia um grande aquário com peixes ornamentais marinhos de diversas espécies e Alonso brincava passando os dedos no vidro do aquário fazendo com que os peixes seguissem o movimento. Massa apenas observa.-Vê? É a supremacia da mente humana sobre a do peixe... Eu passo os dedos e penso que sou mais inteligente que ele, daí ele segue meus dedos por toda a extensão do aquário. –diz o astuto asturiano e completa – Você pode fazer o mesmo... Tente...
E sai da sala deixando Massa com os dedos no vidro e olhando os peixes.

Dez minutos depois, quando Alonso volta encontra o companheiro de equipe com os olhos vidrados, corpo imóvel. Apenas abrindo e fechando a boca.
Intrigado, ele pensa em perguntar o que está acontecendo, mas percebe que o peixe faz a mesma coisa, o mesmo movimento.

Não resta aos funcionários da equipe nada, a não ser rir...

14 de set de 2010

Monza não tem muitoo que ava(ca)liar.
É a pista que mais gosto, a primeira em que assisti um GP inteiro, e entendendo o que se passava na pista.
E nesta primeira corrida, além de ver Nelson Piquet ganhar a prova, de quebra levou o campeonato mundial. O segundo em sua carreira. Fica ai a imagem daquela prova.

Alonso e Massa na mesma foto, que é para não sujar o blog... Note que Alonso está um pouco atrás e que Massa está freando para que ele passe... Maldade? É... E dai?

Segundo lugar na prova, mas primeiro em honestidade. Ao menos isto o Button leva...

-Signore Bernie, nostro Alonso non pode perdere questa carrera...
-Não vai perder... Não vai.
-Assim esperamos. Se non....

Da série: Encontre o Alonso.

De Peter Pan Vettel para Nico Rosberg: "-Tá bom, eu não cresço e amadureço nunca né? E você vai virar homem quando?"

E por falar em Rosberg, ele não lembra a viúva Porcina? Para os que não conhecem, ela era a que foi sem nunca ter sido. Era a viúva de Roque Santeiro oficialmente, sem nunca ter nem conhecido o anti herói de Dias Gomes.
Igualzinho ao Nico Rosberg, que tem um monte de fãs de seu "fantástico" ano na F1, mesmo sem ele ter feito absolutamente nada para ter o ano adjetivado desta forma. Aliás, nem no ano e nem na carreira, diga-se.

E agora o Schumacher saiu com esta: Quer ajudar a fazer a nova regra sobre jogo de equipe. Até já se candidatou publicamente para tal. Se fosse no Brasil, a lei da ficha limpa barrava ele. Mas como não é, corremos o risco de ter um lobo cuidando das ovelhas...

Outra da série: Ache o Alonso.

O garotinho já achou...