31 de dez de 2013

Para exorcizar 2013 e saudar 2014

Não penso que milagrosamente (nem acredito em milagres) as coisas melhorarão instantaneamente na passagem do ponteiro de 59 da última hora de 2013 para 00 de 2014. Ingênuo talvez seja das poucas coisas que nunca consegui ser.

Mas com certeza ficarei alegre em ver o ciclo de doze meses denominado 2013 acabar.
Não aquela alegria geralmente banalizada com o espocar de espumantes, abraços e votos de felicidade.
Claro, esta também estará presente, porém com a sinceridade que me é característica sempre.
De quem não gosto, não chego nem perto.

E que vá 2013.
Ano decepcionante em todos, todos, todos os aspectos.
Talvez o ano em que mais tenha me decepcionado com o ser humano.
Em geral e especificamente. De perto e de longe.
Cheio de aproveitadores da boa fé e da amizade.
Espero que estejam contentes com a forma como agiram e com o que conseguiram conquistar, porque à depender de mim, estarão no limbo das relações para sempre.

Aos bons e verdadeiros amigos e camaradas, que 2014 comece e mesmo que simbolicamente traga uma nova lufada de bons ventos carregados de  mais alegria, mais amor, mais companheirismo, mais amizades, mais risadas, mais conquistas, mais compreensão...
E, principalmente, mais força para atravessar momentos difíceis (que virão, é certo) e sabedoria para sair deles com o melhor que pudermos absorver.

2014 vai ser melhor.
Meu espírito eternamente otimista diz isto.
E eu acredito.

24 de dez de 2013

O tradicional (?) conto de natal 2013: Natal no VW

Inverno na Rua 45.
A decoração de natal toma conta de tudo com suas luzes, bonecos de neve e papais Noel que aproveitam a data para amenizar a depressão econômica.
Mar Cel´Onça pela primeira vez em anos decide que não publicará o Le Sanatéur na semana do Natal.
-Ninguém está comprando o jornal mesmo...

Ao dar a noticia à sua dupla de repórteres mais famosa (e única) nota certa tristeza em seus semblantes. Internamente sorri pensando: “...estes sim gostam do que fazem!”
Porém, foi só o chefe sair com o carro dançando em zigue e zague pela rua coberta de neve para que as comemorações começassem.
-Como está o velho Stude?  - perguntou Ron.
-Do mesmo jeito que ficou após você dirigir. – respondeu Coyote.
-Então estamos sem carro?
-Vou nem responder...
-Precisamos de um carro para sair da cidade.
-E vamos pra onde?
-Porra cara... Você é coiote, não?
-E daí?
-Coiotes migram para o sul no inverno, igual todo pássaro.
-Ron...
-Oi.
-Cala a boca.

Saíram os dois e se dirigiram até Honest Rubs, o vendedor de carros da Rua 45.
Por ter vivido muitos anos no Brasil, envergava um sotaque forte.
-No que posso ajudar ocês? – disse solicito o Honest.
-Queremos um carro, é o que você vende né? – perguntou Coyote ainda mal humorado.
-Uai... Mas ocê não tem um Studebacker? O que aconteceu? Escangalharam o trem?
-Era carro, mas mesmo que fosse trem, ele tinha escangalhado.  – diz o fotógrafo olhando para o repórter que faz cara de paisagem.
-E tem algum em vista? Pergunte pro seu compadre?
-Se ele entendesse de carros, não estaríamos sem.
Honest Rubs contém o riso enquanto Ron se afasta.
-Mas ocê entende né não? Pode escolher tranquilo. – e aponta para o salão repleto de Ford´s, GM´s, Chrysler´s, Buick´s e lá no fundo, bem no fundo, um VW.
-Bom, Honest... O que você tem para mim por cento e trinta dólares? - sorri Coyote.
-Uai, por esta quantia só desprezo mesmo. – responde em voz baixa o comerciante.
-O que?
-Este carro! Óia que beleza! – responde com um sorriso tão falso quando encantador.
-E que carro é este?
-Um VW! Carro alemão. Nova tendência europeia.
-É bem pequeno.
-É sim uai, por isto é que é a nova tendência. Motores 1.300cc, linhas redondinhas. Cheia de curva que nem as estrada de Minas. É o que chamam de “carro popular”.
-Minas? – estranhou o fotógrafo.
-É um lugar danado de bonito lá no Brasil, cê num conhece não...
-Ah! E Quanto custa?
-Quanto você tem mesmo?
-Aqui? Cento e trinta dólares.
-É seu.

Ao sair da loja, contente, Coyote conta outra história para Ron sobre a negociação.
-Legal... O carrinho é simpático. – diz Ron – Mas eu vi no salão alguns Buick e até um Cadillac que eram mais baratos que este.
-Como eu disse, se você entendesse de carros, não estaríamos comprando um agora.

Pegaram a interestadual em direção a Chicago, os dois iriam passar as festas com parentes na cidade.
Na metade do caminho, a silhueta de um homem e uma mulher se tornam visíveis à margem da rodovia.
Nevava e Ron pergunta se não seria possível dar uma carona aos dois.
-Pode ser, por que não? – Coyote estava extremamente desconfortável no banco do motorista.
Ao parar o carro, notaram que o homem estava relativamente bem vestido.
Loiro, de olhos azuis penetrantes e orelhas de abano.
A mulher também tem olhos de um azul profundo. Tão profundo que chegava a ser desconfortável fitá-los.
Agradecidos, se acomodam no banco de trás.
Ron, que teve de sair do carro para que entrassem – o carro tem apenas duas portas – se apresenta e apresenta Coyote.
-Jornalistas? Que bom... Logo escreverão sobre mim. – diz.
-Ai depende. – diz Ron.
-Do que? – quis saber o homem.
-Do tipo de crime que cometer ou do tipo de morte que tiver. – e sorri.
-Ah! São jornalistas policiais?
-É... Digamos que sim. Mas, você não disse seu nome.
-Francis... Francis Albert.
Os dois contém o riso.
-E o que faz?
-Sou crooner, estou indo para Chicago me apresentar no Apolo.
-Mas o Apolo não é em Nova York? – Coyote fala pela primeira vez com o caronista.
-É outro teatro, você ficaria espantado em saber como há teatros de nome Apolo espalhados pela América. Vou me apresentar para uma plateia selecionada. Espero, de lá, conseguir contrato para gravar.
-Olha... Boa sorte, mas desculpe a sinceridade, mas com um nome como Francis Albert e estas orelhas de abano, acho difícil viu... – e os dois jornalistas caem no riso. O caronista não se abala e nem se ofende.
-E podemos saber o que vai cantar? – pergunta Ron.
-E para quem exatamente? – completa Coyote.
-Bem... Eu vou cantar alguns standards: Gershwin; Cole Porter... Conhecem?
-Já ouvimos falar...  – comenta Coyote e completa – E para quem mesmo?
-Pelo que entendi, é uma confraternização de fim de ano.
-Qual empresa? Pode ser que tenhamos amigos trabalhando nela. – insistiu Ron.
-Não sei bem o nome da organização, mas seu presidente é um tal Alphonsus. - o silêncio que se seguiu só era quebrado pelo barulho do motor 1300cc do VW – O que foi? Vocês conhecem o homem?
-Se for quem pensamos, conhecemos sim. – diz Coyote. – Mas, por favor, dá uma palhinha do que vai cantar lá.
E Francis começa então a cantarolar uma canção de domínio público muito conhecida por ter um apelo infantil: Ol´McDonald.
Os dois caem na gargalhada e o caronista, agora irritado, quis saber o por que.
-O Alphonsus que você vai entreter, por acaso não é o Gabriel Capone? É? – questiona Ron ainda rindo.
-Sim, sim... Este mesmo! – responde Francis.
-Olha rapaz... Não nos leve a mal, mas com um nome como Francis Albert e cantando este tipo de canção ai com o Al Capone na plateia, é bem provável que um dia nós realmente escrevamos sobre você. – completa Ron.
-E dependendo de como estiver, tiraremos até lindas fotos... – sorri ironicamente Coyote.
A mulher, que até ali permanecera calada, olha para Francis e com um sorriso diz olhando para o espelho retrovisor interno do VW, por onde os jornalistas também a fitavam: -Ele vai se dar bem... Muito bem.

Francis, sem entender muito, agradece a carona e as palavras que julgou de incentivo – visto que já haviam chegado – desce na esquina anterior ao teatro.
Junto com ele também desce a mulher.
-Ah, me desculpem, nem me apresentei: Jeane Dixon, ao seu dispor. Muito obrigado pela carona. E, pode acreditar: quando entrarem em contato com o orelhudinho novamente, ele vai ter o respeito até do Alphonsus. – e se despede.

Alguns anos mais tarde, na capa do Le Sanatéur, o rapaz franzino, com orelhas de abano e olhos azuis aparece em uma fotografia assinada pelo mesmo reticente Coyote.
O texto, escrito por Ron, obviamente, tece elogios à voz e ao carisma do crooner que agora se chama Frank Sinatra.
E pela primeira vez, na legenda da foto, aparece o apelido que o eternizará: Frank Sinatra, the voice.
Frank Sinatra: the voice
Escrito em colaboração com o parceiro de tantas letras Anselmo Coiote, o melhor fotógrafo da Rua 45.

23 de dez de 2013

Jazz para cada um

Denner é cego.
Não é politicamente correto dizer “cego”, mas ele é.
Diz a todos que “deficiente visual” é besteira e se sente diminuído com o termo “deficiente”.
”-Não tenho deficiência, só não enxergo.” – diz ele.

Mas tem um ouvido primoroso! Capaz de distinguir notas, tempos...
E uma memória ainda mais impressionante.
Tinha um arquivo mental de nomes de músicas, datas de lançamento, fichas técnicas.
Conhecia diversos estilos, mas era apaixonado por jazz.
As subdivisões do gênero não lhe assustavam: conhecia todos. Do dixieland ao cajun, que mistura as influências creole (mistura das culturas francesas e africanas).
-Jazz é jazz, não é étnico... Não é world music. Aliás, que termo mais idiota. – dizia.

Dos outros gêneros musicais gostava. Pero não tanto.
Ouvia blues, claro.
-Derivação do jazz. – ensinava.
Ouvia rock.
-Derivação do blues. – explicava
E destes, ouvia tudo o que vinha atrelado.
Gostava de country e sua versão nacional, o sertanejo.
-Universitário também, Denner?
-Não... Só dos já formados e com livre docência. – dizia e explicava – Tião Carreiro, Pena Branca, entre outros.

Só tinha algo que abominava, definitivamente: música gospel.
Não gostava da forma com que os cantores se portavam.
Ficando acima do bem e do mal como se fossem os únicos portadores da palavra divina, portanto, melhores que os outros.
A hipocrisia de dizer que eram contra idolatria, mas se sentirem bem com o fato de ser idolatrados.
E musicalmente?
-Este pessoal - mas não só eles - adoram mostrar potência onde não é preciso. Imprimir carga emocional onde o sentimento devia brotar naturalmente. Sem contar que nem é um estilo... Usam tudo, do rock ao samba. Acham que não é o meio, mas a mensagem. Besteira. A mensagem é o meio. Dizem que “limpam” tudo com a “palavra” e que os “estilos” deixam de ser musica impura, ou do mal...  Mais besteira.

Faz este discurso para quem quisesse ouvir, mas geralmente, o único que ouve é um amigo que está sempre por perto: Gildo.
Gildo, ou Gildão - como era mais conhecido – tinha como nome de batismo Adegildo. Era um negrão na acepção da palavra e tinha como maiores características - além do tamanho, claro (ou escuro...) – a ingenuidade e a sinceridade - mandava para a boca tudo o que o coração e a mente conjuram - e a fixação por sexo.

A dupla coleciona algumas boas histórias contadas e recontadas pelos frequentadores do bar do Canário, a mais célebre delas talvez seja a que também inclui Ari, um pastor muito interessado em música e que, talvez por isto mesmo, respeite muito a opinião do cego. Embora nem sempre concorde.
Denner e Gildão bebiam cerveja acompanhada de um prato de torresmos quando o celular do cego tocou. O ringtone era simplesmente “Take the A train” com Duke Ellington.
Denner atendeu e ouviu calado por alguns minutos. A forma com que prestava atenção, o assunto não poderia ser outro: música.
Desligou após dizer que desconhecia. Talvez até existisse, mas provavelmente seria algo ruim, insosso como um prato que por falta de algum tempero ou mesmo sal ficasse intragável.

-Era o Ari. – disse ele para Gildo, assim que desligou.
-Ah, e o que ele queria? – quis saber o negrão.
-Me perguntou sobre swing... Queria saber se existe swing evangélico.
Gildão ouve e por um período fica em silêncio.
Silêncio, aliás, acompanhado por todo o bar assim que Denner falou sobre o estilo jazzístico. Esperavam que ele engatasse alguma explicação sobre o assunto.
-Olha cego... Na boa. Não sei para que o Ari quer saber uma coisa destas.
-Como assim?
-É que você não pode ver, mas aquela mulher dele... Cara...  Não adianta nem ele querer ir num lugar destes... Ninguém vai querer pegar aquele bagulho.
Denner deu mais um gole na cerveja e empurrou o prato de torresmos para perto do negrão.
-Come ai vai... Come.

20 de dez de 2013

Canções bobas de amor

John Lennon, aquele, um dia escreveu uma canção chamada “How do you sleep?” e a lançou em seu álbum Imagine de 1971.
Na canção questionava Paul McCartney, o outro, por só lançar canções tolas sobre de amor.
Em uma atitude muito deselegante, dizia que: “-Os caras estavam certos em dizer que (ele) morreu”, referindo-se a alguns malucos que enxergavam evidencias de que Paul havia morrido em 1966 e havia sido substituído por um sósia.
E prosseguia: “... tudo que você fez foi ontem (Yesterday, canção de Paul nos Beatles) e desde então é só outro dia (Another Day, canção solo McCartney) e terminava questionando “-Como você consegue dormir?”

Paul, que com o fim dos Beatles formou os Wings e seguiu sua carreira de forma mais constante, demorou a dar a resposta, mas quando veio foi em grande estilo.
“-Você deve pensar que já existem canções bobas de amor o suficiente, mas olho ao meu redor e não vejo isto. Alguns caras querem encher o mundo de canções bobas de amor, o que há de errado nisto? Eu gostaria de saber, porque aqui vou eu de novo: Eu te amo! Não posso explicar o sentimento, você não vê?”
E alfinetava a relação de John com sua esposa Yoko – tida como autoritária - com versos sobre o seu próprio com Linda McCartney:
“-Ah, ela me deu mais, ela deu tudo para mim e o que há de errado nisto? O amor não vem em um minuto. Às vezes ele não vem nunca... Só sei que quando estou apaixonado ele não é bobo. O amor realmente não é bobo...”

John acusou o golpe e não voltou mais ao assunto e segundo alguns até capitulou lançando em 1980, em seu último disco Double Fantasy a canção “Woman” que é linda e... Boba.
Aqui talvez caiba a discussão se a canção de Lennon é ou não boba, mas que a resposta de Paul ao insulto original é maravilhosa, isto ninguém há de duvidar ou negar, só faltou dizer: “-Durmo muito bem, obrigado!”

18 de dez de 2013

Deja vu

O ambiente estava nublado e ele não conseguia definir se eram nuvens ou fumaça.
Não havia cheiro algum no ar e nem sensação de frio ou calor.
-Onde catzo eu to? – pensou.
Não se lembrava de como havia chegado ali, não se lembrava de nada.

Quando as vistas se acostumaram reconheceu uma silhueta.
Aliás, reconheceu bem demais.
-Nunca soube que eu tinha um irmão gêmeo. – disse.
-E não tem. – respondeu a silhueta.
-Se eu não tenho um irmão gêmeo, quem é você?
-Sou você.
-Como?
-Você nunca ouviu alguém dizer que o homem se encontra consigo mesmo na morte?
-E eu morri?
-Bom... Você acaba de encontrar a si mesmo.
-E o que a gente faz agora? Discute relação?
-Hum... Então você é gay.
-Ôooo, não. Que história é esta?
-Bem... Você está aqui conhecendo a si mesmo e sai logo dizendo que quer discutir relação e quem gosta de discutir relação é mulher. Você é mulher?
-Não, você sabe bem...
-Então é gay.
-Cê não entendeu, eu fiz uma ironia.
-Hum... Irônico você... É gay mesmo.
-Não, espera...  Não é nada disto você não está me entendendo...
-Ih rapaz... Você está se complicando. Agora vai pagar de “ninguém me entende.”?
-Ah... Deixa pra lá.
-Vai emburrar? Vai ficar sem falar comigo?
-Você não me deixa falar nada, fica ai tirando sarro. Acha que eu sou burro? Não sou não.
-Cara... Melhor parar. Você fez igual mulher: perguntou; você mesmo respondeu e ainda ficou bravo. E você disse que não é mulher. Logo, você é gay.
-Tá... Então eu sou gay, você venceu.
-Eu venci? Lembre-se, eu sou você.
-Desisto.
-Desiste nada, agora tem que ter a parte final da aceitação, tem que dizer em voz alta que é gay.
-Ok! Eu sou gay.
-Mais alto.
-Eu sou gay! (quase gritando)
-Mais alto!
-Eu sou gay!!!! (gritando)
-Mais alto!
-Eu sou gay!!!!!! (gritando tão alto que perde o fôlego e a consciência.).

Quando acorda, está deitado no balcão de um bar vazio.
A sua volta apenas alguns amigos e uma mulher chorando.
-O que foi que aconteceu? – pergunta ele com voz pastosa.
-Nada demais, você levantou da mesa, tropeçando, disse que ia ao banheiro, mas entrou no vestiário dos garçons, começou a falar sozinho, depois a gritar que era gay e desmaiou. Te encontramos encostado no espelho.
-Putz... E ela ouviu? – se referindo à noiva.
-Tudinho...
-Anjo, olha eu to meio alto e... – diz ele virando-se para ela.
-Tira a mão de mim! Agora a desculpa é a bebida né? Bebida virou chave de armário agora... Sei. Cê pensa que eu sou burra? Eu não burra não! E me deixa! Você não entende. – e sai batendo os pés.

Ele a olha indo embora e tem uma sensação curiosa de deja vu.

16 de dez de 2013

Poderia ser a próxima onda

A música aqui no Brasil, como cantou o xarope do Lulu Santos sobre outra coisa, vem em ondas.
Houve a onda do rock nos anos 80 até meados dos anos 90.
Depois veio lambada, forró, samba mauricinho, sertanejo corno...
Agora convivemos com o tal funk ostentação e o sertanejo vida loca que só fala de encher a cara.
O problema não é aparecer e desaparecer destes “estilos”, mas a forma industrializada com que se constroem os “ídolos”.

Aparece um mané cantando sobre noitadas e cachaça e no dia seguinte vinte idiotas cantam a mesma coisa.
Há bem pouco tempo atrás, se um alienígena chegasse ao Brasil teria plena certeza de que nosso idioma era o idiotês, tamanha a quantidade de “tcherês, tchus, tchas, lelelês” e outras babaquices.

Dando uma passada pelas rádios não direcionadas (rádios de rock, jazz e afins) a impressão que dá é que não se sabe mais fazer música sem o uso de fórmulas.
Num pensamento mais radical: que não se sabe mais fazer música de jeito nenhum...

Mas não é bem assim.
Vez ou outra encontramos por ai algumas coisas que ainda nos fazem crer que há sim, música e gente que sabe fazer música pipocando aqui e ali.
Uma pena que a onda que vai levar os bons músicos para o mainstrean parece não chegar nunca...
Eu não iria achar ruim não.

12 de dez de 2013

Forma caráter e molda cidadãos melhores?

É um país livre, portanto ninguém precisa concordar comigo.
O assunto aqui é – pela última vez na história deste espaço – futebol.
Ou o que se transformou.

A partir de hoje, este assunto passa a ter a mesma relevância e peso de pérolas como bbb, the voice, novelas e quetais.
Desisto, abdico.
Futebol agora é coisa para otário.

Não bastasse o nível mental dos que frequentam assiduamente os campos, que agora são mais do que apropriadamente chamadas de “arenas”, ainda temos que conviver com dirigentes imbecilizados e de caráter totalmente deformado.

Para que um campeonato de mais de seis meses, trocentos e tantos jogos para no fim tudo se resolver em uma brecha jurídica encontrada pelos que perderam?
Ah! Lei é lei? Regra é regra? Então porque sempre favorece os mesmos e únicos?
Ótimo então!
Enfiem as regras e leis no orifício corrugado localizado na parte central das nádegas.

Se é este tipo de coisa que é celebrado como “esporte” e que ajuda a “moldar caráter” e “formar cidadãos melhores”, então estamos fodidos.
E muito fodidos.

Também passa a ter a mesma relevância de quem cobre bbb, the voice ou celebridades em veículos como caricia, contigo, caras e outras merdas impressas e digitais os jornalistas que trabalham com este lixo.

Quer continuar torcendo? Acompanhando? Acreditando?
Como está grafado à abertura deste texto: o país é livre.
Todos tem o direito de fazer e ser o que quiser.
Inclusive idiota.

Só lembrando que quem compactua e espalha lixo, também é.
Aqui, não mais.
Deu.

10 de dez de 2013

Novas resoluções do regulamento da F1 (o que todos comentaram e o que ninguém viu)

E o grupo de estratégia da FIA (what porra is this?) soltou um pacote com novas determinações para o regulamento de 2014.

Vale lembrar que o presidente re eleito da FIA é o gnomo Jean Todt que ficou celebrizado por ajudar Ross Brawn a burlar todo e qualquer regulamento enquanto era dirigente da Ferrari.
Ficou determinado o seguinte:

*Os carros terão numeração fixa.
Na verdade, os números serão dos pilotos que deverão escolher um numero entre dois e 99 e vai ficar com ele até sair da F1.
O numero 1 fica com o campeão, caso ele queira usar.
Vai começar a frescura: “-Ah, este ou aquele piloto marcou muito no time, vamos aposentar o numero dele...”.
E quero ver quem vai usar o 24.

*A última corrida do ano terá pontuação em dobro.
Interessante... Se for como este ano, vai servir muito...
Alonso por exemplo não teria tomado uma surra de 155 pontos e sim só de 130.
Não consegui entender se a pontuação vai ser dobrada só para o vencedor da prova ou para todos os pontuadores.
Está achando ruim? Acha que estão nascarizando ou stockrizando a F1?
Sorria, ao menos não vão dobrar o numero de voltas da porcaria do GP de Abundabe, que é o que fecha a temporada.

Algumas determinações que ninguém prestou atenção ou comentou:

*Se por acaso a Red Bull não tiver o melhor carro disparado da temporada, qualquer forma de ajudar carros vermelhos com pilotos espanhóis ao volante será válida.

*Não será permitido o jogo de equipe escancarado. Excetuando, claro, na briga pelo campeonato. Aliás, na Ferrari, o piloto que está lá há mais tempo já larga com a vantagem de 25 pontos sobre o companheiro de equipe na contagem interna. Portanto, se na primeira prova o time mandar dar o lugar para o piloto espanhol, não tem choro e nem vela. Tem que sair da frente.

*Em caso de duvida para punição, carros vermelhos com pilotos espanhóis não serão punidos.

*Pilotos com tatuagem de samurai na bunda nunca serão punidos.

*Pilotos espanhóis que fazem a sobrancelha não serão punidos.

*Se o piloto espanhol estiver na frente do campeonato, a última prova não dará o dobro de pontos caso este não pontue e por isto possa perder o título.

*Ultrapassagens sobre carros vermelhos com pilotos espanhóis ao volante entrarão imediatamente sob investigação e será punida com drive throug com limite de velocidade nos boxes de dez quilômetros por hora.

9 de dez de 2013

O que vai sobrar

Bacana como as coisas são.
Desde sempre o trânsito nas grandes cidades é ruim.
Transporte público urbano idem.
Nos aeroportos a situação é de caos.
Mas por conta do evento do ano que vem tudo passou a ganhar a etiqueta: “vergonhoso”.

Por quê?
Porque um bando de turistas vem ai?
Da mesma forma que vem, eles vão embora.
Já quem mora aqui não vai ter jeito.
Assim que a copa acabar vamos ter de continuar com um trânsito horrível, transporte público inadequado até para gado e aeroportos bagunçados.
E isto não é vergonhoso também?

Ah mas e a imagem pública do país lá fora? – pode perguntar alguém.
Que se foda! –  respondo sem nem pensar.
O que podem dizer que seja mais contundente que o sofrimento de quem  - por falta de opção – tem que se sujeitar aos serviços daqui?

Estão se preocupando com a herança errada que o evento vai deixar.
Até porque, ao que parece, não vai sobrar nada de bom já que um monte de obras de “mobilidade” foram canceladas.
Quanto aos gringos e o que vão pensar que os façamos provar do próprio caldo: venham e deixem dinheiro. É o que importa.

Ah, mas mesmo que não tivesse a copa a coisa continuaria assim... - pode dizer.
Era a chance de mudar, se não muda nada, para que serve?
Está errado? Acha que vai sobrar algo mais?
Então tá...
Também vai sobrar um punhado de estádios de primeiro mundo para servir de palco para mais brigas de torcidas compostas por descerebrados.

Ah... Também vão sobrar as lembranças de ter visto CR7, Balotelli, Messi e outros por aqui.
É algo muito bom para, no dia seguinte, se lembrar enquanto estiver parado no trânsito, em um ônibus ou trem lotado...
Pqp.
Ao menos as discussões sobre os jogos vão ser quentes.

6 de dez de 2013

Madiba

E Nelson Mandela se foi.
Cumpriu a única certeza que temos.
Não fará falta, até porque, já fez tudo que era sua missão fazer.
Agora o descanso.
Justo descanso.
Valeu, Madiba! 
Escrever mais? Para que?
Nada estaria à altura.
Então ofereço algo que acho bonito.
Não tão bonito quanto sua história de vida, mas bonito.
Se ele gostava ou se gostaria de ser homenageado assim?
Sei lá.
Mas é minha forma de dizer: obrigado por contribuir para um mundo um pouco menos injusto.
Vai na paz.

4 de dez de 2013

Contos do botequim 11 - Tradições

 Canário passava sua flanela engordurada no balcão enquanto em uma das mesas, Andrade, o professor aposentado e Derico, o fiscal da natureza conversavam de forma entediada.
-Nem parece que está chegando o natal. – diz Andrade
-Parece sim, a cidade já está enfeitada... – retruca Derico.
-Mas este calor do Saara...
-Professor... Nunca vi o senhor falando palavrão!
-E que palavrão eu falei?
-Calor do Saara! Fiquei até corado.
-Ficou corado porque é sem vergonha.
-Eu? Eu tenho vergonha.
-Devia ter mais... Devia ter vergonha de ser burro! Saara é um deserto.
-Ah tá...

Neste momento, Canário chega à mesa com outra cerveja.
-Fala para ele do Sacrá, Andrade... – brinca o dono do bar.
-Ah, vai pra lá botequeiro... Eu sei que Sacrá é outro deserto.
-E você sentaria nele? – perguntou irônico o professor aposentado.
-Então mestre... Só de noite. Porque eu sei que de dia os desertos são muito quentes e a noite são bem frios...
Um minuto de silêncio constrangedor e o bar todo explode em gargalhadas.
-Do que estão rindo? – quer saber Derico.
-De você sentado num sacrá... E só à noite. – e Canário abre a cerveja e se vai.
-Não to entendendo nada... Vamos voltar a falar do natal... Eu acho que a cidade está bem no clima.
-Não acho – diz o professor aposentado – este natal europeizado é de doer. Imagina pinheiros nevados num calor de mais de trinta graus! É terrível de falso.
-Poxa velho mestre... Tradição é tradição.
-Que seja... Mas me dá uma coisa ruim de ver renas, neve, e aqueles duendes que mais parecem anão de programa de TV aberta, isto dá.
-Eu fico pensando naquele cara vestido de papai Noel que fica no centro... Mesmo eu gostando de tradição, dá certa dó do cara. Maior calorão.
-É... Pelo menos nisto concordamos.
-Mas tenho certeza... Ele faz isto porque gosta, pela tradição. É dos meus.

Antes mesmo de a frase sumir no ar, o tal papai Noel entra no bar.
Suado, ainda assim completamente paramentado. Numa rápida olhada é possível certificar-se que a barba é dele mesmo.
-Põe uma quente pra mim... – diz ele.
Canário então destampa uma garrafa de bagaceira e serve. De uma talagada só, o papai Noel mata a dose de pinga. Escolhe e pede um dos mais gordurosos torresmos da estufa e em duas mordidas acaba com a iguaria.
-Quer um guardanapo para limpar as mãos? – pergunta Canário.
-Precisa não... Limpo depois na roupa da molecada que vem me abraçar...
-Mas e o bafo? – pergunta Derico.
-É verdade... Tem cada moleque que parece que nunca escova os dentes... Por isto que eu bebo.
-Mas e a tradição? – pergunta ironicamente Andrade.
-Eu mantenho... Bebo só bagaceira e como torresmo... Sempre.

Depois da saída do papai Noel, o silêncio toma conta do bar.
Andrade, com ar superior encara Derico, que envergonhado fita o vazio.
-Sabe mestre... – diz Canário para Andrade - Só esquecemos de perguntar a ele se tradicionalmente também senta no sacrá.

2 de dez de 2013

A gente tenta não ser maldoso... A gente tenta

Felipe Massa declarou que vai usar a experiência para buscar os resultados ano que vem.
Hum... Não vai dar certo.
Se ele estiver pensando que idoso tem preferência na fila de largada é melhor olhar os campeonatos passados e ver como Webber e Coulthard eram tratados.
E mais: mesmo que fosse por ordem de idade, ele ficaria atrás do Button e convenhamos... Ficar atrás do Button é o maior fim de carreira que existe.


Você se hospedaria em um hotel que o gerente fosse o Zé Dirceu?
Na boa... Se hospedaria?
E se sumisse algo do seu quarto? Teria as manhas de ir reclamar?
E se reclamasse, teria alguma esperança de resolução do caso?


Agora, interessante mesmo é a história da cocaína (na verdade pasta base) encontrada no helicóptero do Senador Perrella em Minas Gerais.
A fazenda é dos caras...
O helicóptero é dos caras.
O piloto é funcionário dos caras.
Mas a cocaína não... Dá para entender?
E ainda tem a cara de pau de dizer que é do piloto.
Tá ganhando bem o piloto!
Mas é aquela coisa... Há mais do que aviões de carreira nos céus do que pode crer sua vã filosofia... Tem helicópteros também.

E neste fim de semana faleceu o ator dos filmes Velozes e Furiosos.
Uma morte é sempre triste, mas foi interessante descobri a quantidade de gente que só porque o cidadão foi embora, passou a adorar a série.
Sempre achei estes filmes horrorosos.
Os carros, por mais tunados que fossem, tinham caixas de marcha com vinte e cinco velocidades.
E todas eram acionadas em quinhentos metros de pista...
Aqui a maldade nem é minha, mas sugerir o 1B para a vaga do cara no próximo filme é hors concours.