21 de dez de 2016

Uma do busão...

-O cachorro não pode embarcar não! – Disse Zé Pequeno ao ver aquele homem de óculos escuros e um cachorro parado em frente à porta dianteira de seu ônibus.

O homem sequer esboçou protesto, ficou impassível e calado diante da porta. O cachorro idem.
Alguém lá do fundo do ônibus, uma mulher provavelmente, observava a situação pela janela levantou a voz em auxilio ao homem:
-Não ta vendo que é cego? Olha o cachorro!
Zé então olhou para seu cobrador, um moleque novo e com cara de estúpido, como quem procura consentimento.
O moleque dá de ombros. O problema não era dele.
Então Zé pede para que o homem embarque e ainda o ajuda a sentar-se naquele banco de um só assento que fica quase ao lado da cadeira do motorista.
O cão se deita aos pés do cidadão e ali permanece.
Zé vai devagar, tomando excessivo cuidado. Não deixa que o coletivo balance muito nas curvas, reduzindo além do normal.
Alguém lá do fundo então grita:
-Ô Zé, p*rr*, é cego, mas não ta grávido não, c*ralh*! Acelera esta estrovenga ai!
Zé então volta a andar perto da velocidade normal.
Alguns minutos depois o homem se levanta e vai até ele, gesticula um pouco e Zé entende. Para o ônibus no próximo ponto, defronte a uma banca de jornal.
O homem desce e Zé fica esperando que outros passageiros embarquem.
Curiosamente o homem de óculos escuros fica diante da banca de jornal como quem olha manchetes. De repente tira os óculos e chega mais perto de um exemplar da Folha que estava exposta. Saca o dinheiro e compra o jornal.
Zé indignado levanta-se, vai até a porta e grita com o homem:
-Ô... Que isto? Não é cego?
E o homem responde:
-O cachorro é!
Um silêncio sepulcral, quebrado apenas pelo ronco do motor que domina o coletivo até o ponto final.
Alguns juram que ouviram Zé Pequeno rosnar varias vezes...

2 comentários:

Anônimo disse...

Como dizia aquele ministro do Itamar: cachorro também é gente.

Celso jr.

Rubs disse...

Nunca vi cara de cachorro fornecida de bruteza e maldade mais do que nesse. Ele é o Cão, o Matreiro, que espera raposa sair da toca, porque cego, o Cão vê o que olho nenhum vê e guia o seu dono até as almas desgarradas que podem ser compradas por precinho módico. Onde ele passa, deixa um discípulo rosnando. Já vi caso pior, mas não conto.