8 de mar de 2013

Um conto para o dia da mulher


Mas ela é um livro místico e somente a alguns é que tal graça se consente: é dado lê-la.

Estela e Walter estavam casados há mais de dez anos.
Os parentes e amigos disseram - direta e indiretamente – que ela enterraria sua vida, sua carreira para cuidar dele. Iria dentro em pouco se formar em comunicação social.
E mesmo que ela argumentasse que ele não tinha nenhum problema - além do óbvio - que ele era independente.
Não adiantava, ainda assim torciam o nariz.
Casou-se sob olhares desconfiados, quase de pena, porém foi feliz desde então.
Sempre soube que não seria fácil, mas o que nesta vida é?
Com o tempo a desconfiança foi cessando e todos viram que aparentemente a vida seguia em boa ordem para Estela.
As mudanças foram poucas e a maioria delas vistas apenas dentro de sua casa: algumas adaptações normais e necessárias como deixar as coisas sempre nos mesmos lugares para evitar que Walter tivesse de memorizar tudo outra vez.
Assim, suas coisas de uso pessoal sempre estavam nos locais pré-determinados: sabonetes, escova de dentes, perfumes, creme de barba, roupas... E de preferência separados dos dela para evitar que na pressa ele saísse vestindo uma blusinha rosa por engano.

É que Walter era cego. Desde o nascimento.
Cego, mas nunca acomodado. Nunca se ouviu dele uma queixa sequer...
Aprendeu braile, cursou tudo que lhe foi possível e se formou em direito.
Não exerceu por muito tempo. Ganhou algum dinheiro com boas causas trabalhistas e com ele realizou um antigo sonho: uma cafeteria literária.
Lá era possível apreciar os melhores cafés expressos e ainda se informar com jornais nacionais e de diversos países diferentes. Livros, revistas variadas e ultimamente trabalhava na expansão dos serviços com uma rede wireless de alta velocidade para quem quisesse trazer seu laptop à cafeteria.
-Informação é tudo e ela agora está toda na internet. – dizia.
-Como você sabe? Cê nunca viu? – perguntavam alguns gaiatos.
-Ver não vi, que tava ocupado com tua mãe – respondia. – Mas li que já existem equipamentos que permitem que nós, os deficientes visuais, possamos usar a internet como qualquer outro. E com o tempo, até isto vai ter aqui na cafeteria.
Ninguém duvidava que uma hora ou outra aparecesse por lá os tais equipamentos.

Acontece que naquele dia o clima dentro da cafeteria não estava muito bom.
Um silêncio incomodo permeava o ambiente e a cara de poucos amigos de Estela – que cuidava do caixa – não deixava duvidas: haviam se desentendido por algum motivo.
Walter tentava puxar assunto, mas recebia de volta apenas grunhidos guturais e frases lacônicas.
E o publico usuário do estabelecimento apenas assistia as cenas.

-Amor, tava estranho... Meu creme dental estava fazendo espuma demais, com um sabor esquisito. Mentolado, mas esquisito...
-Hunpf... É?
-E também meu desodorante...  Eu apertei o frasco e em vez daquela sensação de uma nuvem nas axilas eu senti um jatinho de água fininho... E os sovacos ficaram grudentos...
-Jura?
-Também não entendi o que aconteceu com minhas cuecas... Algumas estavam apertadas pra caramba e outras pareciam só ter uma tirinha na bunda... Demorei um bocado para achar uma que ficasse menos estranha no corpo, mas ainda assim tive a impressão de que era rendada...
-Hum!
-E os sapatos... Estes eu tenho certeza de que você se enganou, eu não tenho nenhum chinelo de dedos com a sola tão fininha quanto as que estavam em meu armário... E com florzinha nas tiras então?
-Tá certo Walter... Tá certo...  Eu mexi mesmo nas tuas coisas... Coloquei teu creme de barba no lugar da pasta de dentes, o liquido anti-chulé no lugar do seu desodorante e inverti as nossas gavetas de roupas intimas...  E pelo que to vendo... Você ficou com preguiça de procurar teus chinelos e veio com as minhas rasteirinhas mesmo...
-Mas... Mas... Amor? Por que fez isto?
A esta altura todos os clientes que já estavam na cafeteria prestavam atenção no dialogo.
-Pra você nunca mais na cama apertar aquele travesseiro anatômico e dizer que estou flácida e cheia de estrias...
-Mas amor... Eu não vi!
-Milagre, meu caro... Seria se tivesse visto.

11 comentários:

Anônimo disse...

... HA ! Quer ganhar uma inimiga é chamar uma ou a mulher de gorda e/ou flácida. Brigas entre mulheres é interessante. Se uma for um pouquinho mais cheínha, já era... a oponente , mais magrinha, manda: " Sua... GORDA !"

Existem gordinhas e gordinhas... Umas são verdadeiros tesões. As gordurinhas estão nos lugares onde devem estar. Outras, meus Deuses( hoje estou meio grego), dá pena das moças. Com estas, carinho. Educação.
O ceguinho teria se safado se cantasse no ouvido do travesseirão a música...

" Amo você assim e não sei porque tanto sacrifício
Ginástica dieta não sei pra que tanto exercício

Olha eu não me incomodo um quilinho a mais não é antistético

Pode até me beijar pode me lamber que eu sou dietético

Não acho que é preciso comer de tudo que tem na mesa

Mas passar fome não contribui em nada para a beleza

Já no passado os mestres da arte diante da formosura
Não dispensava o charme de uma gordinha em sua pintura


Do Bob Carlos ! coisa-bonita-gordinha... HA !


M.C.

Anônimo disse...

que frouxo

Jaime Boueri disse...

Hahaha! Muuuito bom Groo.

Agora, isso é a morte para qualquer marido. Tente qualquer coisa parecida e se foda... kkkk

Marcos Antônio Filho disse...

Nisso as mulheres não são preconceituosas. Não importa como for o homem, chamar de gorda é morte...rsrsrsrsrs

diogo felipe disse...

Excelente, Ron !

Ainda bem q tu nao é cego, apesar de no fove vc parecer qdo posta , heheheh
Abs.

Vander Romanini disse...

Mulheres!!!
Vai tentar decifrar o que se passa na cabeça delas...

Anônimo disse...

... e M.C. faz uma homenagem as mulheres do blog.


De um grande letrista, compositor, cantor e até puxador de samba - nas horas vagas -. O grande Neguinho da Beija Flor !


Muié, muié, muié, muié, muié, muié, muié !
Muié, muié, muié, muié, muié, muié, muié....


M.C.

Anônimo disse...

... senhor Groo. O senhor viu a "gafe"( não foi gafe. Jormaulistas atores, todos, canastrões )de Cezar Tralha, da Blogo ? Não ??? Chamou o cara da agora sepultura, de Cheirão. Cruzes...


M.C.

Rubs Cascata disse...

A vingança à mulher pertence. Sorte, o Walter ser cego. Não fosse, a vingança seria pelas costas e o Walter, além de não ver, não saberia.
Galeria de antologias para o conto.
Abs.

Marcelonso disse...

Groo,

Esse é um assunto que jamais deve ser falado com uma mulher, mesmo que sem querer. As consequencias são terriveis. Greve, castigo...

abs

Marcelonso disse...

Groo,

Não teve jeito, foi preciso selecionar novamente os comentários no blog...

Tem gente que gosta de confusão.

abs