29 de mar de 2015

F1 2015 - Malásia: Paixão

As corridas da madrugada dão o álibi perfeito para um texto ruim: o sono.
Acordar às três e meia da matina, mesmo para quem é jovem, não é fácil.
Só a paixão explica...
Atrativos? Até tinha...
Ver Alonso na última fila não é algo corriqueiro (a Manor não conta...) embora possa ser este ano.
Vettel em boa forma e com um carro relativamente rápido também.

Mas a largada extremamente limpa tirou as esperanças.
Mesmo com Vettel mantendo posição, com Felipe Massa ganhando algumas não dava para ter muitas esperanças.
E ai feio o safety car na quarta volta, por conta de uma manetada de Ericson até tentou dar molho jogando as Mercedes para o meio do pelotão.
A estratégia de trocar os pneus e ficar livre para usar a melhor configuração era a melhor aposta.
Voltar à ponta era questão te tempo.
Se utilizando do handicap de ter o melhor equipamento foram ultrapassando sem muitas dificuldades até que na volta dezoito, na parada de Vettel (nem para ter uma briguinha na pista...) os carros prateados pilotados por cones já eram primeiro e segundo novamente.

Só não contavam com o fator Vettel.
O alemão com uma estratégia de pneus diferente levava vantagem e ultrapassou primeiro Nico, depois Lewis sem muito esforço.
Desconte-se que após ultrapassagem o cone número 44 foi aos boxes, mas ficou latente a diferença.
Quando há adversários, Hamilton não é lá grandes coisas.

Enquanto isto, pista afora, a corrida se desenrolava com alguma emoção e boas ultrapassagens.
A briga já no fim da prova entre Felipe e Bottas foi excelente.
Deu Bottas, mas não sem briga, não sem disputa.
Não houve “faster than you” desta vez.
Assim que tem que ser sempre: perder sim, mas na pista, no braço.

É fato que ninguém ganha corrida com carro ruim, logo, a Ferrari não é carro ruim e não dá para ficar falando em “tirar leite de pedra”, mas logo após a segunda rodada de pit stops, Vettel ainda era líder e a estratégia de pneus lhe dava vantagem.

O chato é que não houve nem tensão.
Vettel manteve a ponta da corrida com certa tranquilidade.
E enquanto isto, Kimi se recuperou e não fosse os problemas no inicio da prova teria mais que o quarto lugar certamente.
Não dá para cravar que o domínio da equipe alemã está ruindo, mas que houve uma balançada no império, ao menos na Malásia, isto dá!

A paixão que explicava agora está justificada.


27 de mar de 2015

Hórus

-Anselmo, eu tô dizendo... O Rubs tem um cachorro que sabe dirigir...
-Para Ron, mentira dele... Aquele baixinho inventa muito.
-Não Anselmo, eu to falando por que eu vi...
-Viu? Mesmo?
-Vi sim...  E nem tinha bebido.
-Mas, o que você viu?
-A gente estava na frente do bar do Canário...
-A gente quem?
-Tonho Platão, Boquita, Zé Nerso e eu. E então ele chegou com o cachorro e...
-A pé?
-Não, não... Naquele Opalão preto, o Diplomata dele...
-Ele nunca quis me vender aquele carro... – e suspira – Mas continua...
-Então, ele chegou e chamou a gente para ver, falamos para ele que o carro a gente já conhecia e ele disse que não era o carro, mas o Hórus...
-Hórus? Então o cachorro dele que sabe dirigir é aquele dog alemão burro?
-Não é tão burro assim... Dirige um diplomata hidramático...
-Bah... Besteira... Cê ta inventando...
-Tô não... O cachorro senta no banco e o Rubs põe o cinto nele, daí ele põe as patas dianteiras no volante, as traseiras nos pedais de acelerador e breque e vai...  Pode perguntar pro caras que estavam lá.
-Vou fazer melhor... Vou procurar o Rubs e tirar isto a limpo... Mas não do Opalão dele, que aquele carro deve ser trucado... Mas no meu.
-Qual dos seus?
-O Kadett Turim...
-O Lazzaroni? Cê vai deixar um cachorro entrar no Lazzaroni?
-Se for pra desbancar o Rubs, vou...

Os dois se despedem e horas mais tarde se encontram novamente no bar do Canário.

-E ai Anselmo?
-Eu fui lá no Rubs, chamei pra provar a história que aquele cachorrão burro sabia dirigir.
-E então?
-Ele foi logo assobiando pra chamar o cachorro e tirando o Opala da garagem.
-E?
-E eu chiei... Qual é? E falei pra ele: “-Este seu carro ai é trucado, não vem não... Se o Hórus dirige mesmo, põe ele no Lazzaroni que eu quero ver...”
-E o Rubs?
-Ficou meio receoso, mas colocou o cachorro no banco, colocou o cinto nele e ia sentando no banco do carona, só que eu falei pra ele que era pra ir pro banco de trás, pra não ter chance de querer me enganar...
-E ele foi?
-Foi...
-E o cachorro?
-Ah... Besteira, eu falei que aquele cachorro era burro.
-Mas porra Anselmo! O cachorro não dirigiu então?
-Dirigir até dirigiu, mas porra, toda vez que ia engatar a terceira deixava o câmbio arranhar... Demorou quase uma hora pra entender que tinha que pisar no desembreia... Bicho burro...

26 de mar de 2015

A culpa é das estrelas

A culpa é de Bernie Ecclestone...
É o que mais se lê/ouve por ai, mas... Será que é só dele?
Vejamos...
Bernie sempre manobrou nos bastidores para consolidar e fazer crescer seu poder sobre a categoria.
Sempre foi alvo de especulações, investigações, processos e afins.
Condenado, pagou por acordo e sua imagem saiu arranhada, porém já era mesmo um tipo de vidro que ralou no cimento, ou seja: não fez diferença um arranhão a mais. Já o bolso...
Dá declarações “polêmicas” a torto e a direito e quando não são polêmicas, tratam de descontextualizar para que fiquem.
No entanto, ele não está nem ai.
Segue o seco com poder e ganhando dinheiro.

Por outro lado, as equipes o aceitam no comando das coisas mesmo com tudo ficando escuro.
Seja em troca de benesses no orçamento da F1, repasses financeiros, mudanças em regulamentos ou mesmo aquela fechadinha marota de olhos para uma coisinha ou outra.
Por mais que todos reclamem, ninguém se opõe realmente ao cara.
Até batem de frente, mas aparentemente apenas para conseguir algo a mais no fim das negociações.
E assim o homem vai ficando...

Ou seja: a própria F1 tem culpa – e muita – na atual situação da categoria tanto quanto Bernie Ecclestone.

E qual seria a solução?
Um pool das montadoras administrando a coisa sob a chancela da FIA?
Seria engraçado...
Segundo alguns bons nomes que comentam o assunto, a F1 atual já segue a tendência do mercado que é ditado pelas fábricas.
E é nítido.
Diminuição dos motores (sem prejuízo da potência, sejamos justos) para maior economia de combustível, motores híbridos com energia elétrica conseguida a partir de sistemas de recuperação de energia cinética e outras mumunhas não são coisas que saiam da cabeça de esportistas, mas de tecnocratas.
Dando mais poder a este pessoal para que apliquem ainda mais a “tendência do mercado” não demorará em termos F1 com o motor de três cilindros.
E silencioso, porque barulho é politicamente incorreto.

No fim, a impressão que se tem é que a F1 enquanto esporte é como aquela cobra que começou a comer o próprio rabo e já vai chegando à cabeça.
Ou um perito em explosão que amarrou a dinamite no próprio corpo sem ver e está apertando o detonador.

25 de mar de 2015

E em uma sala da FOM...

Sentados à mesa estão Bernie Ecclestone e seu secretário Jonah, a quem o velho nunca consegue dizer certo o nome.

-Jonas, não houve mesmo acerto com os alemães?
-É Jonah, senhor... E não, não houve acerto.
-Vamos cancelar a corrida então. Tome providencias.
-Certo, mas se me permite... É um erro senhor.
-Por que, John?
-Porque corridas na Alemanha, senhor, são tradicionais, o povo de lá ama este esporte, há grandes fabricas de carro e de preparação de motores por lá. Dois dos maiores campeões da F1 vem de lá. E é Jonah, senhor...
-Vejamos... Qual foi a desculpa de Hockenhein?
-A alta pedida da FOM para os organizadores.
-E é muito alta?
-Oh sim...
-E qual o entrave para baixar a pedida?
-O senhor.
-Ah... Intransponível então... E Nurburgring?
-Alegou que não há tempo hábil para organizar tudo e vender os ingressos.
-Nem fazendo promoção? Tipo: pague um e vá aos três dias?
-Nem assim, senhor.
-E as grandes montadoras que você falou? Não podem ajudar Jeremy?
-Jonah, senhor... E não.  Nenhuma.
-O que disseram?
-A VW não quer por dinheiro na F1.
-Outra, a Mercedes, que tem até equipe na categoria e fornece motores.
-Disse que ofereceu dinheiro, mas não era muito e dizem também que não quer por dinheiro em uma pista pertencente a uma concorrente.
-Interessante esta visão... Fornece motor, mas não pode fornecer pista para concorrentes...
-E sobrou a Audi.
-Ah e o que disseram o povo lá da Audi?
-Que vão esperar.
-Esperar o que?
-Que o senhor morra...
-Que grosseria... Ligue para eles e diga que me ofendi com isto.
-Vou ligar senhor... – e liga mesmo para a Audi comentando a reação de Ecclestone.
-E ai? – pergunta o chefão da F1 ao ver Jonah desligando o aparelho. – O que disseram?
-Mandaram o senhor ir se catar.
-Ótimo, ligue para eles e avise que estamos indo, abriu vaga e ao que parece: permanente.
-Ligar para eles quem? Onde estamos indo, senhor?
-Como assim para onde? Para onde me mandaram os alemães; para o Catar!

24 de mar de 2015

E quando Ecclestone finalmente cair?

Há alguns anos já não há F1 na França.
Este ano não teremos na Alemanha.
E segundo Luis Fernando Ramos, o Ico, o grande prêmio da Itália corre sérios riscos para os próximos anos.
De realmente tradicional – e seminal – sobraria apenas a prova na Inglaterra.

Claro, existem as tradicionais e boas provas na Bélgica e (agora de volta) na Áustria, mas convenhamos e concordemos com o Ico: o DNA da F1 está se dissipando e corre o risco de desaparecer.
Enquanto isto se acumulam corridas (algumas péssimas) em lugares sem tradição, mas com muita grana como nos países árabes, China, Rússia e afins.
Culpa da forma como Bernie e sua FOM negociam contratos com realizadores e também da crise econômica no continente.
A segunda está longe de ser contornada pelo povo da F1, aliás, não compete a eles, mas... E a primeira?
Bernie com a sua visão sobre como conduzir os negócios da categoria é culpa única e exclusiva da própria F1.

Minha pergunta é: só tirar Bernie do comando da coisa é a solução para os problemas da F1 no continente europeu?
Gosto do Bernie e gosto do que ele fez pela F1, mas concordo que já é hora de virar a página.
Novo comando, novas ideias, mas... Seria só isto mesmo a solução?

Lembrando que a Europa começou a mandar a F1 para fora de seu território quando começou a restringir patrocínios.
Primeiro a indústria tabagista foi banida, logo após as de bebidas começaram a ser alvo de ameaças de banimento também.
Quem quer investir uma grana e de uma hora para outra se ver proibido de expor sua marca nos carros e autódromos?
Curiosamente, alguns dos novos países que sediam a F1 não permitem propaganda de bebidas. A Williams é obrigada a mexer no layout de seus carros para estas corridas.
E quanto tempo vai demorar para que a caça às bruxas também se dê em torno dos energéticos carregados de cafeína?

Sobraram os patrocínios de instituições financeiras, mas estas também fugiram com a crise.
Assim o já minguado orçamento das equipes pequenas foi sendo sufocado e os times novos que apareceram tem mais o aspecto de pequenas lavanderias de dinheiro do que agremiações esportivas.
As grandes sobrevivem de uma forma ou de outra, mas não é possível fazer um campeonato apenas com McLaren, Ferrari e Williams.
Em tempo, Red Bull não é bem um time esportivo - apesar dos aportes financeiros generosos em muitas modalidades - e a Mercedes é o time de uma montadora, que vem e vai embora ao sabor dos resultados.

A crise, portanto, vai muito além do “tirem o Bernie”.
É sim necessário arejar a cúpula da categoria, mas como? Colocando quem ou o quê no lugar?
Se não houver uma resposta satisfatória à esta pergunta, a queda de Bernie Ecclestone, por política ou por morte (o homem tem idade avançada), terá o mesmo efeito daquela corrida do cachorro atrás de pneus de carros: finalmente consegue pegar, não sabe o que fazer ou acaba atropelado pelo mesmo.