20 de out de 2017

O GP dos EUA mais memorável da F1 contemporânea

Grande Prêmio dos EUA, ao menos para os brasileiros é sempre cercado de uma mística, de uma aura histórica.
Primeiras vitórias de Emerson e Piquet.
O primeiro título de Piquet.
Vitórias de Ayrton Senna e até de Rubens Barrichello, ainda que deste último pareça – até hoje – uma compensação pela patacoada ocorrida na Austria no mesmo ano em que a poucos metros da linha de chegada o brasileiro tenha cedido – ou sido obrigado a ceder – a posição ao alemão Schumacher.

Mas olhando atentamente também há passagens cômicas ou dramáticas.
Pista em estacionamento de shopping, corridas com calor infernal em que pilotos até desmaiavam e o mais curioso de todos os casos: a corrida de 2005.

Não que a crise dos pneus a aquela altura fosse uma comédia, longe disto.
O perigo de haver muitos acidentes por conta da falha nos Michelin realmente existia e não tinha nada de engraçado.
O protesto – inusitado, inédito e muito válido – na largada do GP dos EUA de 2005 trouxe outras nuances, estas sim cômicas (quase trágicas) da F1.

A elas:

  • Ralf Schumacher, o irmão esquisitão foi um dos pivôs da crise ao bater na curva 13 - única curva original do circuito oval do templo de Indianápolis – onde curiosamente no ano anterior, sem problema nenhum nos pneus, ele bateu no mesmo lugar e tão forte quanto.
  • Era a primeira pole position da equipe Toyota, e nem sequer largaram.
  • Foi a única corrida como titular de Ricardo Zonta naquela temporada.
  • Mesmo largando apenas na quinta posição Michael Schumacher ainda estava a frente do seu companheiro de equipe.
  • Mesmo com apenas seis carros na corrida, o piloto indiano Narain Kartiqualquercoisa não escapou de ser um dos últimos.
  • Esta corrida foi o ponto alto da carreira de Patrick Friesacher na F1, marcando três pontos para a Minardi, que fazia então aquela sua ultima temporada. Depois, por motivos financeiros foi trocado por Robert Doornbos, o que convenhamos, não foi bom negócio para ninguém...
  • Foi também a última corrida em que a Minardi marcou pontos: 7, depois virou Toro Rosso, venceu um GP e revelou um campeão mundial.
  • Este GP acabou com a idéia estapafúrdia que em uma corrida head to head com Schumacher, Rubinho venceria.
  • Raras vezes a F1 reuniu nos EUA mais de 100 mil pessoas para assistir um grande prêmio, e justo daquela vez viram apenas seis carros largando para as 76 voltas.
  • Provavelmente foi a maior vaia que a categoria já tomou em um autódromo. 



Os estadunidenses são acostumados com corridas com muitos pitstops, muitas interrupções por bandeira amarela, mas quando viram os carros se dirigirem aos boxes antes de completar a volta de apresentação devem ter pensado: “-Isto é ridículo...”.
E isto não deixa de ser engraçado...

18 de out de 2017

Nem só de pista em estacionamento e aeroporto vive os EUA na F1

Na Indy, ainda nos tempos da CART ele era o cara.
Agressivo, incisivo, campeão, duro na batalha... Um vencedor.
Ao se transferir para a F1, alguns chegaram a comentar (e acreditar) que Michael Andretti incomodaria e seria um companheiro de equipe e adversário à altura de Ayrton Senna.
Mas não foi bem o que se viu...

Durante os testes chegou a andar bem próximo ao brasileiro tri campeão.
As especulações cresciam e a ideia de ter novamente um norte americano em condições de vencer na F1 deixava os dirigentes da categoria sorrindo de orelha a orelha.
Os EUA sempre foram um mercado complicado...
Mas ai o campeonato começou efetivamente e... Um banho de água fria.
Das cinco primeiras provas terminou apenas uma: um quinto lugar na Espanha. (Pista ruim, piloto ruim, dirão alguns.).
Oitavo em Mônaco, décimo quarto no Canadá e sexto na França sinalizaram uma melhora, mas nas três provas seguintes não conseguiu terminar. (Grã-Bretanha, Alemanha e Hungria).
Oitavo na Bélgica e – finalmente – um pódio: terceiro lugar na Itália.
O irônico? Foi dispensado da equipe logo após seu melhor resultado.

Das sete corridas em que abandonou, seis foram por acidentes ou rodadas e apenas uma (Hungria) abandonou por falha do carro: um problema no regulador que, curiosamente, também foi o motivo do abandono de Ayrton Senna neste GP.
Ainda assim, o americano após ser fritado da McLaren (e da F1) saiu atirando para todo lado e dizendo que seu fracasso era parte de um plano sórdido da F1 para desqualificar a Indy e seus pilotos.
Se não é roteiro de comédia, nada mais é...

16 de out de 2017

F1 2017: EUA, a primeira da Liberty em casa

A F1 chega mais uma vez aos EUA.
Uma pena que para correr em um autódromo copy and paste, sem alma.
Muitos dirão que é implicância, mas pegar curvas e trechos de pistas bacanas e juntar é uma ideia tão estúpida quando desenhar um traçado no estacionamento de um shopping center.
Porém, salvo engano, é a primeira vez que a categoria – tipicamente europeia – vai correr nos Estados Unidos (no Texas!) com a nova gerência que é... Norte Americana.
Ou seja, é a primeira corrida da Liberty em casa.

A mão dos caras já pode ser sentida de alguma forma.
No começo do ano as punições por besteira eram mais raras e – aparentemente – melhor pensadas.
Havia – e ainda há – um clima mais descontraído nas transmissões com diversas piadas visuais, menos segmentos com “pilotos da casa” em detrimento à possíveis disputas que estejam ocorrendo em pista, uma valorização do torcedor com a abertura de algumas redes sociais como canal direto de comunicação e a busca por algumas histórias mais humanas, como aquela do torcedor mirim do Kimi Raikkonen.
Ainda é um tanto insipido.
O molequinho foi conhecer o finlandês e o torcedor/expectador pode votar no “importante” drive of the day.
Não é nada, mas é muito mais do que havia. E isto já é um bom começo.

O que mais pode fazer a Liberty?
Pode deixar a F1 com um aspecto mais americanizado?
Creia, isto pode ser bom.
A maioria dos esportes americanos tem regras que podem privilegiar a disputa em sua parte final, seja dos jogos ou dos campeonatos.
Um bom exemplo é NFL que tem sempre jogos com finais emocionantes em seu campeonato por conta de detalhes como o “two minute warning” que para o jogo quando faltam dois minutos para acabar e permite aos técnicos ajustar e planejar jogadas que possibilitem buscar resultados que de outra forma seriam impossíveis.
Também há o teto salarial, para que os times tenham um limite para se reforçar e não acumulem em poucas equipes jogadores muito superiores que desequilibrem a disputa, regras (apesar de complexas) bem definidas e explicadas de forma fácil para que tanto público quanto jogadores as entendam.
Opções podem ser estudadas no caso da F1 e não faltam formas...
Provas chave com pontuação diferenciada, tetos orçamentários e simplificação de regulamentos que possibilitem que a figura do “underdog” seja mais frequente e assim espalhar um pouco mais o leque de vitórias entre os participantes.
No fundo, todo mundo adora a figura do cara que tinha tudo para perder, mas surpreendentemente ganha.
Uma flexibilização e simplificação do regulamento técnico que possibilitasse o barateamento da construção e manutenção dos carros, o que – em tese – resolveria o problema das punições por troca de peças dos carros.
Porque convenhamos, não poder dar tudo o que tem nas algumas disputas para “poupar” equipamento e não sofrer punições de perda de posições de largada em corridas futuras é bizarro. Um tremendo anticlímax que no momento está ferrando o fim de um campeonato que poderia estar cabeça a cabeça até a última curva. E tudo por uma suposta economia.

Há também uma parte ruim desta americanização.
Um empastelamento como a Nascar e seu teatro com carros onde tudo (pode até não ser) mas parece artificial, desde seus heróis e vilões (novamente aparentemente) roteirizados ou o excesso de coisas extra pista/campo pode tirar o foco da coisa.
Mas é preferível se manter com viés otimista em relação a isto.

E claro, torcer para que o povo da Liberty, que certamente vai querer promover mais corridas “em casa” tenha bom senso na hora de escolher os palcos e evitem bizarrices como as pistas em aeroportos, traçado misto de Indianápolis, shopping centers e pistas de rua que, na maioria das vezes, é insossa e chata.
Pista boa por lá é o que não falta.
Só ter boa vontade e ouvir um pouquinho mais o público do que só escolher quem foi melhor na corrida.

13 de out de 2017

Feedback song for a dying friend

Nós não tínhamos lá grande talento, mas éramos esforçados.
Cada qual no seu instrumento escolhido mais por conveniência do que por talento.
Os ensaios no quarto azul, apertado pela cama e pelo kit de bateria eram mais hilários principalmente quando a tentativa de tocar algo próprio era levado a sério.
Nunca dava em nada.
Talvez pela qualidade das letras que rimavam “João” com “caminhão” e versavam sobre as utilidades da boralina no tratamento do chulé...
Hoje sei que não serve para isto e nem para o fígado, como dizia sua embalagem. Não serve para nada...

Quando resolvíamos tocar as músicas que nos inspiraram a montar nossa própria banda era sempre algo da Legião Urbana.
Tanto por ser uma música simples, de acordes fáceis e batidas quase sempre retas, o que no meu caso era fundamental já que era o baterista, quanto pelas letras de Renato que desde sempre foi tido como o melhor letrista de sua geração. O poeta.

Tocávamos “Eduardo e Mônica”, “Quase sem querer”, “Índios” sem a parte do teclado como se estivéssemos cantando sobre nossas próprias vidas.
Como se a tristeza de letras como “Há tempos”, “Andréa Dória”, “Quando o sol...” e tantas outras fizessem parte de nossas vidas, uma turma de adolescentes de classe média que não tinham (ainda) motivo nenhum para serem tristes.

Mais próximos da realidade talvez fossem as letras “ingênuas” – nas palavras do próprio Renato – do terceiro disco.
A raiva adolescente ainda que bem colocada de “Que país é este?”, a rebeldia juvenil e metida a intelectualóide de “Conexão Amazônica”.
Até hoje penso que na época, pouquíssimos fãs da Legião realmente soubessem quem era Freud, Jung, Engels e Marx, mas era mais legal cantar isto e posar de culto que ficar gritando: “Aa uu” como os fãs dos Titãs.

Assim cresci e até aprendi tocar um pouco melhor, mas o principal foi acumular um pouco mais de bagagem - tanto cultural quanto de vida – para compreender os temas mais elaborados e complexos da obra de Renato nos discos seguintes.
As broncas políticas, o envolvimento com drogas, o pessimismo disfarçado de raiva e por fim a descoberta do fato que teria de encarar seu próprio inevitável e precoce fim.
Tratou publicamente de sua doença, a AIDS, de uma forma polida, velada e elegante, não jogando a culpa por tê-la adquirida – como fez Cazuza – na sociedade.
Tanto que só compreendeu-se “A tempestade ou o Livro dos dias” que é triste desde a capa azul até a ultima frase de seu encarte  (“Um país se faz com livros e de gente dizendo adeus”) após sua morte.
Curiosamente, nunca quis tocar uma só faixa deste álbum nos ensaios que acabaram,  mais tarde, se tornando apenas diversão sem a pretensão de ser algo um dia.

Agora entendo que Renato era poeta de si mesmo e  grande parte das coisas que escreveu dizia sobre suas próprias condições, ainda que seus fãs conseguissem se enxergar e se encaixar em alguns aspectos de sua obra, o que não o desabona e em hipótese alguma empana seu brilho.
Vinte e um anos após sua morte conseguimos ver a real dimensão de seu trabalho, da beleza e força de seu legado que moldou toda uma geração de brasileiros, na qual, orgulhosamente me incluo.
Urbana legio omnia vincit!

10 de out de 2017

F1 2017: Já era? Ainda dá?

Então acabou?
Vettel ficando fora da corrida ainda nas primeiras voltas e com Lewis vencendo – apertado, mas vencendo – no Japão decreta o fim da disputa pelo título de pilotos deste ano?

A diferença é de cinquenta e nove pontos há quatro provas restando diz que não.
O próprio automobilismo diz que não quando nos lembramos que corridas (ainda) contam com o improvável em sua composição.
Se não é isto, como explicar que Vettel passe zerado em duas corridas em plena  fase aguda da disputa?
Simplificar em azar ou sorte não vale...
Não foi azar que ocasionou o acidente em Cingapura (pode ter sido para o Alonso...) e a vela que não funcionou no Japão muito menos foi questão de sorte.
Não é sorte que faz um carro funcionar e não é o azar que faz o contrário...

Por que estaria livre Hamilton da mesma coisa nas próximas quatro corridas?
Por que não crer que também a Mercedes passe por algum tipo de problema com seus componentes ou se envolva em algum tipo de acidente?
Mesmo que aparentemente Lewis esteja mais focado e concentrado, o fator externo (Verstappen?) está sempre presente.
Ou por acaso Vettel não estava focado suficientemente?

E quem perde mais com um fim antecipado do campeonato?
O fã perde, mas vai ver as corridas de qualquer forma, decidido ou não.
Os patrocinadores já pagaram, de qualquer forma...
A mídia já trabalha com este tipo de situação há anos. Foram poucos os campeonatos que terminaram de fato na última corrida...
Então quem?
A Liberty Media e sua “nova F1” talvez seja a maior perdedora.
Não adiantou carros mais bonitos, menos punições (que nem foram tão menos assim...), enquadramentos bacanas, histórias humanas, mais humor... O jeito estadunidense de promover esportes, com emoção até o ultimo segundo não deu jeito de ser implantado.
Não ao menos neste primeiro ano
Ou será que ainda dá tempo de usar o tal “improvável” para dar uma manipulada nas coisas e esticar a “emoção” até o circuito sem graça de Abu Dhabi?
Ai quem perderia – e muito – seria a própria F1...