21/11/2014

Combustível para o fogo

O ambiente pesado – como convém a um velório – só foi quebrado devido à chegada de amigos mais íntimos do morto.
-Cirrose? – perguntou um à viúva.
-Falência múltipla dos órgãos. – respondeu ela entre prantos.
-Cirrose... – vaticinaram os outros amigos.

Silveira era a alegria das festas. Com ele o riso era garantido não importando o que fizesse para extraí-lo das pessoas.
Cheio de surpresas e histórias costumava agregar os amigos a elas sem nenhum aviso.
Turbinava-se com litros e litros de destilados e fermentados.
-Era um cu de cana. – disse outro à viúva que corou.
-Bebia só um pouco.  – tentou consertar um parente não muito próximo.
-A cada dez minutos sim: ai bebia um pouco... – todos tentaram em vão segurar o riso.

-E naquela festa da firma? – alguém lembrou.
-Quando se fantasiou de Papai Noel, mas esqueceu de por as calças?
-Sim... – e os risos foram abafados, mas espontâneos.
-Quando foi alertado que estava sem as calças ele se saiu muito bem...
-Foi, foi... Disse: “-Acho então que ninguém vai querer pegar os presentes no saco!”.
-Coisas da bebida...
-Era um cu de cana...
E todos assentiram com a cabeça diante da viúva ainda mais corada.

-Aquele dia quando pulou o balcão da padaria para se servir, lembram?
-Claro... Um cliente chegou dizendo que queria comer um americano com coca-cola.
-É e o safado disse que o Almeida não era americano, mas sabia falar inglês muito bem...
-O Almeida não achou graça...
-Não. Mas curiosamente foi visto com o cara da padaria várias vezes depois...
-Mas o Silveira sempre que podia dizia que o Almeida não era viado.
-Verdade... Mas quando enchia a cara falava que o Almeida era uma lésbica vestida de homem full time.
-Era um cu de cana...

Enfim, o velório vai chegando ao fim e começam os procedimentos para a cremação.
Todos confortam a viúva que a estas horas já anseia pelo fim da cerimônia. Quanto antes se livrar dos amigos do marido, melhor.
-Bem... Lá se vai ele. Esta é a única festa em que ele não apresenta nenhuma surpresa ou brincadeira.
-Verdade, se bem que um velório não é uma festa propriamente dita.
-Com o Silveira era... Ô se era...
-Por que ele escolheu ser cremado? – alguém perguntou à viúva.
-Ele disse que era para que tudo fosse bem rápido. – respondeu.
Todos concordaram.
Porém quando o corpo foi colocado dentro da pira crematória, estranhamente uma bola de fogo surgiu como se algo muito inflamável fosse atirado às chamas de repente. Talvez alguém tenha se descuidado com algo ou deixado algum produto inflamável perto demais...
Para espanto geral, apenas a viúva se pronunciou: “-Era mesmo um cu de cana... Ai o resultado.”.
Todos concordaram.

20/11/2014

Alma não tem cor

Ninguém é louco ou imbecil a ponto de dizer que a luta acabou.
Longe disto.
Há de se continuar firme, forte e atuante contra os preconceitos.
Sejam eles de que tipo forem, mas principalmente o de cor...
É odioso.
Fui ensinado que por baixo da pele, somos todos vermelhos: literalmente.
E como diz aquela frase atribuída ao ator Morgan Freeman, que é negro, diga-se: é necessário parar de preocupar com a consciência negra, branca, vermelha ou amarela e começar a se preocupar com a consciência humana.
Porque é a única condição que une todos os homo sapiens por sobre a terra.
As restantes – todas elas – têm suas diferenças.
Mas a quem queremos enganar?
Celebrar consciências pontuais dá mais ibope, vende camisa e publicação segmentada...

19/11/2014

Curtas metragem

Entrou sorrateiramente, pé ante pé... Quase imperceptível.
Parou.
E colocando as costas em uma coluna, com o revolver em punho encenou a mais clichê das posições dos filmes de mocinhos e bandidos.
Queria aproveitar um momento de descuido, mas não teve paciência.
Ao saltar no meio dos mal feitores não matou apenas o personagem, assassinou também a bilheteria.

Ela viveu até os oitenta anos com saúde invejável. Comia alga.
Ele morreu aos trinta e cinco. Comia Olga
É que ela, que se chamava Helga descobriu.
E Olga?
Nunca mais foi vista.

No ultra-som era menino.
Nasceu e era menina.
Cresceu na duvida.
Hoje sabe que é mulher, foi sua namorada quem a convenceu.

A música sempre fez parte de sua vida.
Toda ela tocara trombone.
Até casou com uma musicista.
É verdade que depois de alguns anos de casados começaram a não se dar muito bem.
Ao morrer deixou em testamento que tocassem em seu velório “When the saints go marching in”, mas com ressalvas:
“-Oboé não, oboé não é instrumento musical e sim de tortura.”.
Sua esposa - oboísta -  não compareceu ao funeral.

Desde criança adorava animais.
Estudou zoologia, também se formou biólogo.
Prestou concurso para trabalhar no Zoológico Nacional.
Aprovado em segundo lugar, nunca foi chamado.
Hoje é bicheiro na Lapa.

18/11/2014

Saco de maldades para Abumdabe 2014

A Caterham, primeira equipe pedinte da F1 moderna confirmou que Kobadingo, o primeiro piloto pedinte correrá em Abumdabe.
Não sabíamos que teria maratona lá antes da corrida...
Como assim? Oras! O Koba vai correr a pé né? Porque o time mandou todo mundo para o olho da rua.
Quem vai montar o carro?
E de boa? Se correr a pé, mesmo no GP da F1, ainda é arriscado que o Koba chegue à frente das Sauber no fim da corrida.
E um conselho: Koba, a São Silvestre tá chegando... Pede para a Caterham inscrever você nesta também...
Ah sim... André Lotterer recusou o convite da Caterham pra correm lá em Abumdabe.
Motivo: "-Não quero ser um cara guiando lá no fundão." - disse.
Ainda há gente de bom senso no automobilismo.

Force Índia, Lotus e Sauber enviam carta a FOM e ameaçam veladamente de não correr em Abumdabe.
Eles querem mais grana na divisão do bolo.
Até é justo, desde que façam mais do que andam fazendo...
Mas esta de não correr em Abundabe não cola.
Já não correram o ano todo mesmo.

Segundo o site do GE a equipe Mercedes já tem um psicólogo preparado para o caso de Hamilton perder o título para Rosberg lá em Abumdabe.
Psicólogo?
Tinha que deixar preparado o contador da casa para fazer logo os papéis da demissão.
O cara só perde o título se chegar para baixo de segundo lugar, ou seja: quebrar.
Se conseguir o feito, tem que ir chupar um canavial de... Deixa pra lá.

Por outro lado, Rosberg está tranquilão.
Entenda isto como quiser...

17/11/2014

Língua afiada, mas não sem razão

Vamos falar sério?
Ficar imputando a Bernie Ecclestone a culpa de todas as mazelas da F1 é uma atitude infantil, para não dizer hipócrita.
O fato de o homem ter feito grana (e grana para caraleo) com a categoria parece irritar profundamente as pessoas.
Como se alguma delas trabalhasse em suas áreas por esporte ou caridade e não pelo dinheiro que a ocupação rende.

Há culpa em Bernie?
Óbvio, mas não todas.
Há culpa pela escolha dos locais, das pistas, sim... Culpa pelo Tilke eu penso que principalmente.
Mas a busca desenfreada por segurança na categoria – que por vezes é apontada como culpada pela monotonia – não é dele.
Aliás, não é nem culpa.
Ninguém quer ligar a TV nos domingos pela manhã para ver quem é que vai morrer na pista. Liga-se para ver quem vai ganhar a corrida ou o campeonato.

Agora, após mais uma das entrevistas afiadas do manda chuva a opinião pública e até dos profissionais da opinião recaem sobre ele agressivamente, como se houvesse mentido em alguma das declarações.
Bernie diz que o público alvo da categoria não são os jovens de 15, 20 ou 30 anos de idade.
Que eles não têm dinheiro para comprar o que se é anunciado.
Mentiu? Não...
A maioria esmagadora do público desta faixa etária tem grana para consumir Red Bull, mas não Rolex, Mercedes ou Ferrari.

Quando ele diz que as equipes pequenas não precisavam estar em dificuldades, a ideia principal era dizer que estes nanicos (principalmente a turma de 2010) vieram ao circo para fazer dinheiro rápido e se consumir aos poucos.
Dinheiro rápido foi feito: nenhuma delas tem o mesmo nome ou dono de quando chegou à categoria e algumas até já se foram.
Os donos originais as criaram, venderam, recuperaram seu dinheiro e pronto. Primeira parte da profecia se cumpriu.
Agora a segunda parte: vão se consumindo lentamente, agonizando e fazendo com que os fãs do esporte morram de pena e até doem dinheiro como no caso da Caterham.
Grana jogada fora...  Adiando apenas uma morte horrível.

E quanto ao que disse sobre redes sociais... Poxa, sejamos sinceros: há algo de bom nelas?
Se não agrega nada – além de uma pequena diversão e muita torração de saco e paciência – para os jovens (exceção feita ao Zuckemberg) o que dirá a um senhor de mais de 70 anos?

A categoria não é mais a mesma? E daí? O mundo também não é mais o mesmo.
E isto não é culpa do Bernie.
Não tudo pelo menos.