25 de set de 2017

O rock no Brasil não acabou 5: Maglore e a política de ser livre

Não.... O disco não é difícil.
Pelo contrário, é acessível.
É pop, no melhor sentido da palavra e é rock, no sentido que você quiser dar.
O quarto disco da Maglore não é o ápice do trabalho dos caras. A cada audição fica mais nítido a capacidade do grupo de fazer coisas maravilhosas.
Desde o romantismo indie do primeiro disco (Veroz, 2011), passando pela revisitada nas raízes baianas - e sensacionais - do segundo (Vamos pra Rua, 2013) e a viagem de autoconhecimento para a produção esmerada do terceiro (III, 2015) a evolução da banda é algo palpável.
Não é possível dizer qual é o melhor já que cada disco é único, diferente, envolvente e excitante.
Dito isto, a expectativa para a chegada de Todas as Bandeiras (2017) só poderia ser grande.
Se você chegou até aqui e está se perguntando “que diabos é Maglore”, não se assuste.
Como disse: é rock e o estilo não está em alta, apesar de viver sua melhor fase desde o meio dos anos 90 e se quer um conselho, vá para sua plataforma digital de música preferida e ouça os discos da banda para chegar neste novo e finalmente entender sobre o que ele trata: política.

Todas as Bandeiras é um disco político, mas não esta política polarizada bicolor em que os dois lados defendem seus bandidos de estimação, mas a política da liberdade.
A liberdade de se escolher o que fazer, onde ir, o que e como sentir.
A liberdade de pensar, de esquecer e de lembrar.

O disco abre com “Aquela Força” que foi também o primeiro single e já traz na letra um otimismo moderado, de quem sabe que a vida é uma batalha diária e que só pode ser vencida etapa por etapa.
A liberdade de tirar da dor a força necessária (...o grito do tigre quando corre perigo, a força é esta...) para seguir.

A faixa título também é otimista, mas com os dois pés no chão (“...o tempo passa e o herói fica sozinho, mas em qual herói devemos confiar?).
E que a dureza dos tempos é real, mas que sempre vai ter um amanhã (“...toda vez que a gente morre, a gente renasce e eles não vão impedir de colocarmos a cabeça do rei na bandeja do peão. ”) e termina fincando o pé na liberdade de acreditar nos dias melhores que virão. (“eu vou ficar... eu vou ficar... eu vou ficar aqui! ”)

O disco todo é embalado em melodias assobiáveis e tem ótimos refrãos.
A canábica “Você me deixa legal” tem grandes chances de ser cantada a plenos pulmões nos shows, assim como “Valeu, Valeu”.
Porém, nenhuma tem um refrão tão legal e tão grudento como “Jogue Tudo Fora” que versa sobre a liberdade que o fim de um relacionamento pode oferecer.
Desde sair para dançar e chegar tarde, quanto se mudar de casa para respirar novos ares: “Eu vou me mudar/estou indo embora/pode ficar com ‘as coisa’/ ou jogue tudo fora. ”

O lado introspectivo da banda também foi agraciado com novas páginas.
“Eu Consegui Perder” embala uma letra sobre perda em um samba e “Quando Chove no Varal” evoca uma tristeza bonita coberta com um manto de saudade profunda de quem foi embora ou morreu. (“...o seu rosto tá sumindo e eu preciso caminhar…/ Eu ainda tô
sofrendo. uma hora vai passar. algum dia até quem sabe vamos nos reencontrar. ”)
E como covardia final, a banda ainda perpetrou o que provavelmente é a melhor canção brasileira dos últimos tempos.
“Calma” cativa já a primeira audição e na citação há Beatles (Let it Be), mas pode muito bem ser revertida para Stones (Let it Bleed) que não vai estar fora do contexto.

Se é o melhor disco do ano?
A letra da faixa de abertura dá a dica: “Você só vai saber vivendo”.
E ouvindo.

21 de set de 2017

E se a Aston Martin estivesse indo para outra equipe?

Ao que parece, a Red Bull fechará parceria com a Aston Martin e pelo que dizem, para que a montadora de carros elegantes seja dona do time dos bois vermelhos é um pulo.
Cogita-se que forneça motores à princípio e quem sabe em 2021 a equipe troque até de nome.
Para sorte de todos os outros pilotos, a parceria não é para já e é com a Red Bull.
Por lá, no time das latinhas de energéticos quem dá as cartas, mesmo parecendo que não, ainda é Daniel Ricciardo, boa gente, gozador, leal e altamente elegante dentro das pistas.
Fora delas o cara solta pum em entrevista coletiva, mas quem nunca?
A Aston só seria um problema para todo mundo se estivesse fechando acordo com a McLaren e para 2018...
Por quê?
Faça um exercício de imaginação...

-Entonces ustes que nos fornecerão motores?
-Yes, we are...
-E usteds tienen histórico?
-Não conhece nossos carros DB9? Vanquish? Rapide?
-Si, sí... Yo los conheço todos... Buenos coches.
-Então?
-Mas... E competição?
-Os DBR9 são nossos representantes em Le Mans...
-Só?
-Os Advantage GT4... Temos um bom histórico em corridas de longa distância e endurance.
-Hum...
-Tem algo que gostaríamos que fizéssemos pelo senhor?
-Não... tudo bem... Aliás, só mas una pergunta.
-Pois não.
-Não é de vocês aqueles carros do James Bond?
-Sim, sim... Em alguns filmes da franquia 007 usa nossos carros.
-Gosto daqueles coches...
-Incríveis não? O que mais gosta neles? A beleza das linhas? A elegância?
-Si, sí, pero... Se usteds vierem a equipar os carros de nuestra equipe, eu só quero algumas coisinhas...
-Já sei... Os motores e confiabilidade né? Porque 007 persegue e é perseguido por carros teoricamente muitos mais rápidos que aquele nosso modelo e nunca perde. Sem contar que aqueles carros capotam, tomam tiros, batem e não deixam de funcionar... Verdadeiros tanques!
-Na verdade, quero aquelas metralhadoras que saem das rodas, aquele reservatório de óleo para jogar na pista... Óleo! Prego não... Carro pode vazar óleo. É até normal, mas prego ninguém acreditaria que foi acidente...
-Só? – pergunta o executivo da Aston ainda meio perplexo com o pedido.
-Ah, se puderem colocar também aquela cortina de fumaça.... Quero ver quem me passa!

19 de set de 2017

F1 2017: A punição foi natural

Não se pode culpar a pista molhada e nem a primeira curva pelo strike na largada em Singapura.
A coisa toda começou a se dar ainda em linha reta bem antes da curva, portanto.
E não houve escorregada devido a agua.
Kimi veio com ação total para ultrapassar Max e Vettel.
Só não se sabe por onde, já que estava pelo lado de fora da curva que se aproximava.
Talvez por isto, tenha tentado antecipar a Max e colocar o carro a frente quando sua roda traseira toca a roda dianteira do Red Bull.
Há uma leve mudança de direção da Ferrari de Vettel e um movimento em reflexo de Max.
Um reflexo meio tardio, mas ainda assim reflexo.
Nem a mudança de Vettel, nem o reflexo de Max e nem a tentativa de ultrapassagem de Kimi pode ser considerada o momento chave para o strike e todos igualmente podem ser considerados.
Contraditório?
Acidentes são a conjunção dos detalhes em momentos precisos que, se isolados, não dariam em nada.
Neste caso, principalmente, pode-se dizer que foi um grande incidente de corrida.
Nada mais.

Talvez Vettel não precisasse mudar – ainda que levemente – sua trajetória.
Muito menos Raikkonen ir com tanta sede ao ataque antes da primeira curva.
Mesmo levando em consideração a dificuldade que é ultrapassar naquela pista, todos sabem que não se ganha corridas na largada, mas pode-se perde-las.
E tanto Kimi quanto – principalmente – Vettel acabaram por perder.
Pior para Vettel, que entregou de bandeja mais uma vitória para Lewis Hamilton e viu a vantagem do inglês aumentar.
Pior, viu sua (tecnicamente) última chance de vitória se esvair...  Agora, só com sorte, muita sorte.

Mas e Max?
Foi uma das vítimas.
Fez a largada possível, poderia brigar com Vettel mais à frente (ou não, se levarmos em consideração o desempenho da outra Red Bull de Ricciardo) e acabou alijado da corrida.
Assim como Alonso, que poderia ter feito – talvez – sua melhor corrida neste ano
Assim são corridas, assim são acidentes.
O bom nisto tudo é que a direção de prova entendeu e mesmo chamando os dois pilotos da Ferrari para uma conversa, não puniu ninguém.
Neste caso: a natureza puniu todo mundo....
Até quem não necessitava de punição.

17 de set de 2017

F1 2017 - Singapura: De noite, todos os carros são red (e ficam de fora)

Singapura por si só já é um desafio.
O calor (menor por se a noite, mas nem tanto) e a duração quase no limite desgasta carros e principalmente os pilotos.

Como esperado, a Ferrari fez uma boa classificação e ficou com a pole.
Vettel teria a seu lado a Red Bull de Verstappen e logo atrás Ricciardo, para só então ter Raikkonen.
A largada que já prometia teve um tempero a mais algo que nunca tinha sido visto numa corrida noturna: chuva.
E assim que largaram ela fez a diferença.
Verstappen largou bem e ameaçava Vettel quando um Raikkonen ultra agressivo passou pelos dois.
Com um movimento sutil (para mim automático na defesa da posição) se tocam os pneus dianteiro da Red Bull no traseiro da Ferrari e começa o strike que leva embora, além dos dois, Alonso (que até conseguiu seguir) e Vettel, que mais a frente rodou por conta das avarias e perdeu o bico. Para além, também abandonou e por pouco (não faremos juízo) quase leva Hamilton.

Hamilton, aliás, que foi o grande beneficiado com tudo isto.
Largando da quinta posição em uma pista que claramente lhe traria problemas na tábua de pontuação, assumiu a ponta e quando, na quinta volta, a bandeira verde foi mostrada, só tinha como adversário a Red Bull de Daniel Ricciardo.
Pelo campeonato, contra ele na pista e em condições de batê-lo àquela altura, ninguém.

E assim seguiu, mesmo com outra entrada do safety cara, Hamilton manteve a ponta à frente de Ricciardo sem (aparente esforço).
Para efeitos de campeonato, a corrida em Singapura pode ter colocado tudo nos trilhos do tetra para Hamilton, mas corrida de automóveis nunca podem ser postas no saco comum da previsibilidade. Apesar dela existir e se fazer sentir muitas vezes.

Enquanto isto, lá atrás, Massa fazia uma de duas piores corridas na carreira.
Durante um tempo foi o único com pneus para chuva extrema enquanto todos usavam intermediários.
Quando finalmente colocou os faixa verde, a coisa não melhorou.
Massa nunca foi um grande piloto em piso molhado, não há como cobrar nada dele a esta altura da carreira. O penúltimo lugar ao fim da prova mostra bem.
Sem equipamento decente ainda mais, é melhor que se (re)aposente da categoria e vá ser feliz em outra categoria qualquer.
Talento não lhe falta.

A pista só começou a ficar seca por volta do giro 28, os times começaram a apostar nos pneus de pista seca e sem a obrigatoriedade de usar os dois compostos disponíveis, tiveram a liberdade de escolha entre os ultra macios (rosa) e super macios (vermelhos).
Ricciardo foi aos boxes antes de Hamilton e só pode esperar como o inglês se daria na sua parada para tentar ocupar a ponta.
Como não houve problemas, Lewis seguiu na ponta e ambos usavam os pneus de faixa rosa.
Como havia a possibilidade real da corrida não ir até as sessenta e uma voltas e acabar no limite das duas horas, a pergunta era sobre a durabilidade dos pneus.
Só que o imprevisível, ou previsível já que o protagonista da coisa foi Ericsson, o SC voltou à pista na volta 38.
Sozinho, o motorista da Sauber se perdeu, rodou e ficou atravessado na pista.
Ricciardo teria ali sua chance de atacar Hamilton pela vitória.
Não atacou.
Naquele momento, a direção de prova já trabalhava com tempo limite e não mais com as voltas restantes.

Em menos de uma volta e meia, Hamilton já tinha aberto quatro segundos para Ricciardo.
Daí em diante, foi só administrar.
Agora, pela configuração das pistas que vêm adiante, dificilmente Hamilton perde o título, mas enquanto há queijo, tem pastel.
O funil nunca foi tão apertado.

15 de set de 2017

F1 2017: Ajudando Massa a ser mais útil

E na sala de reuniões, no motor home da Williams em Singapura, Felipe Massa, Claire Williams, Lawrence Stroll e Pat Symonds conversam sobre a ano de 2018.

-E então Felipe, vai ficar com a gente para o ano que vem? – perguntou Claire.
Os olhos e ouvidos na pequena sala se voltaram para o brasileiro.
-Não sei.... Depende. – respondeu.
-Do que? Dinheiro? – um desconfiado Lawrence com uma das mãos no bolso quer saber.
-Nem tanto... Claro que é importante, mas não é tudo.
-Quer saber do nosso pacote para o ano que vem? – sorriu Symonds.
-É outra coisa muito importante. Temos que ser competitivos, até para nos motivar né?
-Claro! – responderam em uníssono.
E Massa então continuou.
-Eu quero ser um pouco mais útil à equipe. Eu sei que tenho muito ainda para oferecer. – e virando-se para Lawrence – Não só para seu filho, como um tutor, que o menino já está melhorando muito, mesmo eu não podendo ajudar, mas com minha experiência, meu conhecimento, posso ajudar o time muito mais do que eu estou fazendo.

Um silêncio constrangido toma conta da sala e o primeiro a quebra-lo é Pat Symonds.
-Eu te entendo, já trabalhei com muitos pilotos em todos estes anos que estou militando pela F1 ao redor do mundo e poucos tinham esta visão.
-Eu nem preciso dizer o que meu pai e o (Patrick) Head achavam dos pilotos... Estou de pleno acordo com você, Felipe.
Lawrence Stroll então se levanta e abre os braços num gesto quase paternal.
-Bravo Felipe! Se você realmente sente que pode e quer agir assim, nós não só vamos renovar seu contrato, como vamos também começar desde já a torna-lo mais útil dentro do time. E para isto eu nem vou me importar em abrir um pouco mais o bolso... – e enfiando as mãos no bolso das calças – Aqui tem quatrocentos dólares, vai lá.... Compra uma caixa de cerveja pra gente e pede umas pizzas pros mecânicos.
-Pra mim traz uma água tônica, que eu não tô afim de cerveja –  sorri Claire.
-E não esquece os bilisquetes... – grita Symonds que havia ido ao banheiro.