17 de ago de 2017

F1 2017 - Briefing na Toro Rosso

Durante um dos fins de semana de GP antes das férias, Franz Tost e Helmut Marko resolveram dar uma palavrinha com os pilotos antes da largada.
Após falar com Carlos Sainz Jr. e ficar com dúvida se o pastel entendeu alguma coisa do que foi dito, viraram-se para Danil Kvyat que calçava as luvas após limpar o capacete.

-Posso passar para você as instruções da estratégia? - perguntou Tost.
-Poder pode... Mas posso contar uma história antes? - respondeu o russo.
-Errr, pode... Claro. Desde que não demore.
-É rápido.
-Então vai...
E todos os funcionários presentes começam a prestar atenção ao que o russo iria dizer. Inclusive Sainz Jr. que olhava com cara da abobado.

-Quando, lá nos anos cinquenta, começou a se falar na possibilidade de mandar uma espaçonave tripulada ao espaço os norte-americanos logo começaram a fazer pesquisas e mais pesquisas para criar uma caneta que escrevesse em condições de gravidade zero. Gastaram muitos milhares de dólares em pesquisa e confecção dos modelos, depois mais um monte de dinheiro nos testes em simuladores de gravidade zero em aviões gigantescos e nada da caneta funcionar. Não escrevia porque a tinta não descia. Os russos fizeram diferente... Foram ao espaço levando um simples lápis...

Franz Tost e toda a equipe Toro Rosso ouviam atentos, mas sem entender absolutamente nada.

-Sim Danil, mas o que tem haver isto com a corrida ou com a estratégia? – perguntou Marko que até ali ouvia tudo calado.
-Tudo...
-Pode explicar?
-Claro...
-Então?
-Sou russo, vou fazer o mais simples... Vou entrar lá e acelerar... Só isto.
Após refletir por alguns instante, Marko encara o russo com seu olho bom e dispara:
-Acho melhor você mudar a abordagem... Se fazendo o simples já está dando este prejuízo todo, melhor tentar algo diferente...

14 de ago de 2017

O rock no Brasil não acabou 4: Apanhador só e o futuro. Meio que tudo é um

Quando surgiu no cenário do rock brasileiro, as primeiras impressões (de gente que provavelmente nem tinha ouvido o disco) davam conta que era uma banda que emulava Los Hermanos... Coitados.
Depois, por serem gaúchos, diziam que era um sub Engenheiros. Ai deu pena dos críticos.
Nada contra EngHaw, que eu adoro, mas bastava ouvir o primeiro disco da Apanhador Só (Alexandre Kumpinski, Fernão Agra e Felipe Zancaro que se revezam nos instrumentos e funções) para ter certeza de que era algo novo, pungente e que apesar do sabor pop das canções, a banda tinha muito mais a apresentar.

No primeiro disco, Apanhador Só, (2010) ruídos estranhos - ainda tímidos -  já causavam uma estranha sensação, mas não afastava o ouvinte do som pop fofinho.
E sim, eles tinham mais a mostrar.
Tanto que regravaram (sempre em esquema de financiamento coletivo) um EP (Acústico sucateiro, 2011) com músicas do primeiro disco tocadas apenas com “instrumentos” alternativos. Baldes, rodas de bicicleta, chaleiras, violões de brinquedo entre outras coisas.
Já para o segundo long play, a banda se reinventou, depurou seu som e mandou para os ouvintes um produto completamente diferente, novo!
Antes que tu conte outra (2013) é um disco ruidoso, violento (e ainda assim poético) onde as poucas concessões ao passado pop (“Liquido Preto” e “Torcicolo”) da banda soam como piadas jocosas embora sejam músicas ótimas.
Pode-se dizer que o disco já nasceu clássico por ser quase impossível ter um paralelo no BRock para ele.

Eis que chega 2017 e a banda lança seu novo disco: Meio que tudo é um.


Se o segundo era a depuração do estilo da banda, o terceiro pode ser considerado seu suprassumo.
Corajoso e sem concessões, a Apanhador dá uma aula de modernidade, inventividade, criatividade e talento ao longo das quinze faixas do disco.
As letras de Alexandre Kumpinski (com diversas parcerias) são poemas dignos do nome.
E algumas como a poderosa “O creme e o crime” são enormes!
Algumas passagens soam tão geniais (e bonitas) que grudam na cabeça feito chiclete no asfalto quente, manja? Estica, mas não larga da sola do tênis.
No caso, te acompanha por dias e dias na ponta da língua.
Duvidou? Ouça “Teia” e tente não ficar repetindo o refrão desta canção alegre e solar:
“O problema é quando a gente está puxando duma corda / Do mesmo jeito de quem tá do outro lado puxando da mesma corda”.

A citada “O creme e o crime” em sua letra quilométrica e de métrica complicada joga uma luz diferente sobre a discussão sobre “merecimento”, “esforço” e “sorte” ao falar de um personagem, filho de pais separados, que - aparentemente - não passou por dificuldades financeiras ou maiores traumas.
A letra tem um refrão carregado:
“Desculpa nenhuma
Nem tua, nem minha
De ter na maminha
O herdado conforto
De berço nos beiço
O tererê”

O disco flerta com samba para falar de São Paulo (“Metropolitano”) e do Rio de Janeiro (“RJ banco imobiliário”), reggae desconstruído na maravilhosa e já citada “Teia” e muita, muita poesia.
A veia romântica fica por conta de “Linda, louca e livre” que traz alguns dos versos mais bonitos sobre relacionamento já escritos.

Se o disco vai fazer sucesso é uma incógnita neste mercado musical esquisito do Brasil. Ainda mais sendo um produto independente, mas que já pode ser considerado sério candidato a melhor disco do ano, não há dúvida alguma.
Ouça inteiro, e ouça atento.

11 de ago de 2017

Os esquecidos

Julio sempre cortou o cabelo na mesma barbearia, tanto que nem se lembra da última vez que fez o serviço em outro estabelecimento.
Não escolheu o lugar pela excelência do corte ou pelo preço, que nem era tão barato assim, mas por um motivo curiosíssimo: o silêncio.
Fabio era o barbeiro – “-Cabeleireiro é o ca****!”, dizia.
Decidiu abrir a barbearia após se aposentar da metalúrgica, seu primeiro e único emprego desde os quatorze anos.
-Vai abrir um salão de beleza, pai? – lhe perguntou um dos filhos.
-Barbearia! Salão de beleza é o c****! – respondeu.
-E você sabe algo sobre cortar cabelo? – quis saber a esposa.
-Eu cortava chapa de aço, cabelo vai ser mole! É só uma questão de ferramenta.
-Mas e as químicas? Tinturas, apliques e outras coisas que as mulheres usam? – indagou a filha.
-Só homem vai cortar cabelo lá... Ou sapatão. – e deu o assunto por encerrado

Sempre fora assim, um homem de poucas palavras.
-Melhor calar do que falar merda! – era o que dizia quando não queria conversar.
Julio apreciava isto.
Quando se sentou pela primeira vez à cadeira de Fábio, ouviu a protocolar pergunta: “-Como vai ser?” e respondeu: “-Em silêncio.”
Gostou da resposta e caprichou no serviço.
Deste dia em diante, nunca mais Julio foi a outro lugar, e nunca demorou mais de um mês para voltar. E também não ouviu mais a pergunta protocolar.
Acabou por esquecer como se explicava o corte que gosta. Dizia que confiava no trabalho e pronto.
O barbeiro por sua vez, achava aquilo uma espécie de elogio.
Fábio então pegava o espelho, mostrava a parte de trás e recebia um aceno positivo de cabeça.
Era a deixa para que Julio pagasse o corte e fosse embora com um aperto de mãos e um sorriso.
E assim transcorreram-se os meses, os anos, as décadas... Já se contavam então duas. Vinte anos cortando o cabelo no mesmo lugar, da mesma forma.

Porém o tempo é implacável e a idade começa a cobrar seus tributos ao barbeiro.
Não treme e nem perdeu a força nas mãos, mas a memória, bem... Esta não é mais a mesma.
A teimosia era a mesma da juventude, e claro, teimava em ainda ser lacônico.
-Quem fala demais dá bom dia à cavalo. – dizia e completava – E corre o risco do bicho responder e iniciar uma conversa.
Recusava-se a ir ao médico. A família suspeitava dos primeiros sintomas de Alzheimer.
E nem assim ele parava de trabalhar: “-Um dia vai dar merda!” – disse a esposa.
-Quando der, eu paro. – respondeu.
Um dia, Julio entrou na barbearia e se sentou à cadeira.
Fábio lhe colocou a capa sobre a roupa, empunhou tesoura e pente. Parou atrás do cliente. Estático e mudo.
Julio estranhou sua demora em começar a cortar, mas também nada disse. E assim ficaram por pelo menos trinta minutos até que, pela primeira vez naqueles vinte anos, Fábio entabulou uma conversa.
-Julio, pode se levantar, por favor.
-Ué, mas por quê?
-Prometi a minha esposa que o dia que desse algum problema com um corte de cabelo, eu fecharia a barbearia. E eu não quero parar de trabalhar.
-E o que tenho eu com isto? Onde me encaixo?
-Sempre me diz que não se lembra mais como explicar o corte que quer, estou mentindo?
-Não...
-Pois é... Também não lembro mais como cortar seu cabelo, então é melhor nem arriscar.

9 de ago de 2017

O rock no Brasil não acabou 3: Os Paralamas ainda vivem

Que Herbert Vianna nunca foi um grande cantor é fato.
Herbert é o cantor possível e em se tratando de Paralamas do Sucesso, é mais do que suficiente.
Para quem se assustou com o primeiro single que dá nome ao disco, pode relaxar: a voz de Herbert não tem problema algum fora o desgaste da idade.
O que não chega a ser problema já que Herbert adaptou seu jeito de cantar e um registro de voz mais alta nem chega a fazer falta.
Mas não entenda mal... é suficiente e está totalmente dentro do espirito de honestidade e integridade que a banda traz em si desde seu primeiro disco.
Mas o estranhamento com o registro vocal em “Sinais do Sim” se dá muito mais pelas soluções encontradas para a métrica da letra do que por algum problema na voz. Nas outras faixas tudo volta ao normal.
Para o bem e para o mal.
João Barone e Bi Ribeiro se completam a ponto de parecerem uma única entidade.
É sem dúvida a melhor cozinha do BRock desde sempre.
Herbert é um guitarrista inventivo (não me venha falar dos reggaes, o guitarrista do Police Andy Summers usa e abusa e é tido como genial) e compõe solos maravilhosos.
João Fera e seus teclados fecham o time de forma coesa preenchendo os espaços, criando climas ou mesmo conduzindo.
Logo, não há o que se falar sobre a parte técnica instrumental dos caras.

Mas...  Teriam algo a dizer e coisas novas para mostrar a veterana banda nestes tempos esquisitos para o rock brasileiro que passa por um de seus melhores momentos em termos de novas bandas, mas que não alcança o sucesso de execução em rádios e fica longe das TVs?
Sim e muito.
Tanto que, diferente de outros medalhões, lançaram um disco de inéditas. O décimo terceiro da carreira.
E não é, nem de longe, um disco acomodado.
Em suas onze faixas o trabalho d`Os Paralamas do Sucesso é revisitado e renovado como uma profissão de fé em boas melodias, rocks faiscantes, reggae, a brasilidade, tudo que é, enfim, a essência da banda.
A produção de Mario Caldato coloca em primeiro plano todas as virtudes dos instrumentistas jogando a favor ao deixar de lado qualquer invencionice modernosa.
Arrisco dizer que é um disco que pode ser tocado ao vivo na integra em um show sem problema algum. O que não vai acontecer por ser impossível imaginar um show dos caras sem seus cavalos de batalha.

Entre as ótimas faixas se destacam “Medo do Medo” de Capicua e João Ruas em que Herbert canta: “...eles têm medo de que não tenhamos medo. ”
É a faixa mais política do disco e, para aqueles que reclamaram (sempre tem chatos) que a banda não fez música para a “situação aterradora que o país se encontra” (zzzzzzzz) fica a dica: Renato Russo já dizia nos anos 80 que o caminho natural para os Paralamas era se tornar cada vez mais e mais uma banda romântica. Ele não estava errado.


O quase blues “Corredor” também é muito boa, juntamente com “Blow the Wind” que é a única do disco assinada apenas por Herbert.
Mas a melhor é “Olha a gente aí”, que faz citação do poema O Sino da Minha Aldeia, de Fernando Pessoa.
Com uma levada contagiante, lembra a fase alegre de Sly and Family Stone tocando “Stand”.
A letra mostra bem a vibe otimista do disco e o estado de espirito da banda para encarar estes tempos esquisitos citados no começo do texto: “Ao sabor do vento que soprar/olha a gente ai! ”

7 de ago de 2017

F1 2017: as férias de cada um

A F1 entrou em suas férias de verão.
Se alguém não sabia, Alonso tratou de avisar ao fim do GP da Hungria... Mas, o que fazem os protagonistas da brincadeira durante este mês em que as fábricas ficam fechadas (mas os engenheiros e projetistas trabalham em casa, que ninguém aqui é besta...) e os motores não são ligados?


Felipe Massa.
O brasileiro desaposentado aproveitou para seguir a risca os conselhos médicos que o mandaram descansar o máximo possível e não fazer nenhum esforço físico ou mental para se restabelecer da virose que o acometeu durante o fim de semana do GP da Hungria de 2009.
Vale dizer que vem conseguindo com êxito.

Sebastian Vettel.
O alemão da Ferrari, atual líder do campeonato de pilotos tirou o mês vago para resolver problemas bancários em seu país natal.
Vettel foi visto gesticulando freneticamente e reclamando em voz alta quando estava no meio da fila. Exigia que os mais lentos fossem tirados da fila pelo gerente...

Kimi Raikkonen.
Gostaria de dizer que vimos Kimi Raikkonen se divertindo em família ou mesmo com os amigos durante este período, mas não soube decifrar a expressão facial do cara.
E segundo seu chefe na Ferrari, até para tirar férias o cara estava desmotivado.
Outra versão diz que ele estava atrás do Vettel na fila do banco, e mesmo tendo apenas uma fatura para pagar e não reclamando de nada, não pode passar na frente do alemão.

Valteri Bottas.
Foi flagrado tentando renegociar o acordo que fez durante as últimas voltas da última corrida em que abria mão de algumas centenas de milhares de dólares na próxima renovação de contrato em troca do lugar da posição de Lewis e míseros três pontinhos a amais na tabela de classificação

Toto Wolf e Arrivabene.
Aproveitaram o período para terminar de escrever seu livro em conjunto: How to disrupt the second pilot and still posing as impartial.
Neste livro contam suas experiencias em atrasar a vida de Nico Rosberg, Kimi Raikkonen e Valteri Bottas.

Lewis Hamilton.
Vai ficar postando fotos com roupas da grife de Daniel Alves.
Não que alguém se importe, mas depois que terminou o namoro com a cantora lá, não tem nada melhor para fazer.

Fernando Alonso.
Está cagando e andando para a F1 neste ano.
Vai aproveitar as férias para rever o vídeo de sua participação na Indy 500 e pensar: Como pode tanto piloto ruim como aqueles terminarem a corrida e eu não... Porra honda!

3 de ago de 2017

Maldita especulação imobiliária

Desde que me entendo por gente, há no bairro um campo de terra batida: O "Campão".
Não por ter medidas fora dos padrões para a pratica do futebol, mas porque para nós, moleques pequenos, era grande para caramba mesmo!
Íamos lá jogar peladas, rebatidas, andar de bicicleta, correr a esmo...
Agora, agosto de 2017, a especulação imobiliária finalmente venceu, e o campo foi destruído para dar lugar à um loteamento.
Vão ficar as lembranças de uma infância que as novas gerações não vão ter nunca mais. Uma infância de liberdade, segurança e muito sol/chuva e ar livre.
O texto de hoje se passa neste campo e as fotos que ilustram o texto são do campo.

FOLIA DO BOI

Eu não me lembro direito dos detalhes, nem poderia já que faz tanto tempo...
Lembro-me de alguns pontos, alguns fatos um tanto confusos. Os anos, outras presepadas e as dificuldades da vida me fizeram esquecer muito.
Só que outras teimam em ficar grudadas no hard-disk da memória. Enfiadas numa pasta de raiz no cérebro. Coisa que mesmo se quisesse esquecer não conseguiria.
O que vou narrar agora é um destes fatos.
Como já disse, meio impreciso por conta dos brancos na memória, mas vou contar assim mesmo...
Era quase uma obrigação jogar futebol no campo de terra do bairro nos sábados pela manhã.
Na verdade, era religioso e nós cumpríamos com um prazer absurdo esta obrigação.
Lá descansávamos da semana de trabalho correndo, suando e xingando uns aos outros dentro de campo, mas quando acabavam as partidas todos eram amigos de novo.
Ficava o dito pelo não dito.
Acordávamos cedo e íamos de casa em casa chamando os jogadores até que tivéssemos o numero certo pra jogar.

Os mais assíduos eram - graças a Lemmy - o goleiro Sandro, que chegou até a fazer uma temporada pelo time do Nacional da Água Branca; o lateral Sergio, também conhecido como "Babu"; o outro Sérgio, que era atacante e não era muito bom de bola, mas era amigo e amigo não tem defeito, não é?
Ocorreu que num daqueles sábados tínhamos jogo marcado contra um time do bairro vizinho.
O jogo foi marcado de véspera, muito em cima da hora e não tivemos tempo de avisar pelo menos treze jogadores. De modo que na hora 'H' só apareceram onze, os contados...
Tivemos que improvisar.
Colocamos gente do ataque na defesa, laterais no meio campo e só guardaram posição o goleiro Sandro - de novo, graças a Lemmy - e o Sérgio centro avante.
Até porque ele, como já disse, não era lá estas coisas e era melhor mesmo que ele ficasse lá na frente e não atrapalhasse a defesa...
Aos dez minutos de jogo alguém chega à beira do campo e grita que o filho de um de nossos jogadores havia nascido não tinha nem uma hora.
Não me lembro quem exatamente, mas o cara nem vacilou: tirou a camisa passou por mim como um foguete. Nem ouviu os parabéns...
Deixou a camisa no chão e mais à frente o calção, passou atrás das traves de um dos gols, vestiu sua roupa e sumiu.
Ficamos sem um dos volantes no meio-campo e sem ninguém em vista para por no lugar.
Teríamos de adiar o jogo. O que desagradou todo mundo nos dois times.

Eis que surge do lado oposto do campo um outro amigo nosso: Luiz.
Não era nem um craque.
Na verdade, era o que chamávamos de "pereba".
Alguém – julgo eu - do time adversário, o viu e gritou para que o colocássemos no lugar do feliz pai fresco que havia desertado.
Claro que a idéia a principio não foi bem aceita, afinal era o Luiz e sendo assim não ia fazer diferença ele no time ou um a menos.
Tremenda maldade.
A confabulação até que foi rápida e na base do sem jeito.
Aceitamos Luiz no meio campo.
Primeiro tememos pelo seu futebol, claro, depois o mais grave, tememos pelo nosso uniforme.
Não que nossa gloriosa camisa fosse algo assim bonito. Na verdade era até ridículo.
As camisas listradas na horizontal em verde e cor de abóbora.
E os calções? Estes eram listrados na vertical com as mesmas cores e era o que tínhamos.
Não disse que tem coisas que mesmo querendo não esquecemos?
E Luiz, devo dizer, não tinha assim um corpo digamos... Atlético.
Para ter uma pálida ideia, o cara tinha o singelo apelido de 'boi'.
Sim, ‘boi’, ele era grande (gordo?) então ai nosso temor pelo uniforme.
Mas vá lá que seja... Se a camisa ficasse folgada depois no corpo de outro jogador, paciência.
Mas, e o calção? Se este laceasse de mais? Como fazer?
"-Bom aí é o seguinte..." - alguém dava a solução. - "- Dá ai a camisa e ele que jogue com a própria bermuda...!”.
Boa solução se ele não estivesse vestido com calça jeans.
Alguém gritou de longe: "-Joga de cueca!".

O jogo foi reiniciado e transcorreu na maior ordem.
Ganhamos, como, aliás, já era esperado.
Luiz jogou muito bem. Antecipando, caindo para os dois lados do campo, cobrindo os laterais com perfeição e até chegando ao ataque.
Não importa se os “língua-afiada”, as “bocas de veneno” dissessem depois que o "Boi" mais parecia uma bola de praia atrás de uma bola de couro.
O que importa na verdade é que cumprimos nosso ritual e todos saíram contentes. Principalmente Luiz que lá no meio campo, enorme.... Rotundo.... Bovino.... No bom sentido!
Com nossa camisa cinco apertada até não mais poder e à altura do umbigo, meião e chuteiras emprestadas...
E se me perguntarem - e me perguntam - se é verdade que ele ficou em campo com uma cueca de algodão cru?
Eu direi - e digo - que não me lembro.
Se havia uma mancha de cor escura?
Não sei.
Como diz meu grande amigo Silvio, irmão do goleiro Sandro: "No creo em bundas, pero que las hay, las hay!".
Mas eu não quero me comprometer e penso ter sido tudo uma alucinação provocada pela alegria da vitória.
Ponho a culpa nos brancos da memória...


1 de ago de 2017

F1 2017: F1 como jogo coletivo e jogo de equipe limpo

Há quem diga que a F1 não é um esporte de equipe.
Eu mesmo já acreditei nisto durante muito tempo.
As explicações do pessoal que afirmava o contrário não satisfaziam de forma nenhuma: são dois carros para formar uma equipe; há um time para preparar o carro com as indicações dos pilotos; tem o povo dos boxes que troca os pneus; os engenheiros estrategistas e a cereja do bolo: tem um chefe de EQUIPE.
Na minha visão, o piloto estava sozinho dentro do carro (principalmente na F1 pré-rádio) tendo que se virar com as situações e os problemas que a máquina pudesse apresentar durante as corridas.
E não raramente alguns pilotos ganhavam corridas e davam a entender que tinham feito tudo sozinhos. Porém, quando perdia, a culpa era do time dos boxes.
Malandragem... E havia o jogo de equipe, que “de equipe” não tinha nada porque sempre prejudicava um mesmo personagem: o segundo piloto.

Durante um bom tempo, quando se falou em “jogo de equipe” o que vinha a cabeça de forma invariável era o segundo piloto abrindo passagem para o piloto principal da escuderia melhorar sua posição no campeonato.
Foi assim com Massa, com Barrichello, vimos Kimi fazer isto entre outros.
As vezes por pontos realmente importantes para a disputa, outras vezes, como no caso da Áustria 2002, nem tanto.
De uma forma ou de outra, aprendeu-se a odiar a expressão “jogo de equipe”.
Ficou visto como algo, além de desnecessário, injusto.
Várias pessoas se acostumaram a fazer referência ao jogo como sujeira ou falta de esportividade e até começou-se até uma campanha para colocar na ilegalidade.

Mas a o GP da Hungria de 2017 entortou a percepção sobre a noção de equipe na F1 de forma surpreendente.
Ainda que com as reclamações via rádio de Kimi Raikkonen, a Ferrari jogou de forma brilhante (por bem-sucedida) e limpa.

Kimi fez o escudo para evitar a aproximação de uma Mercedes a Vettel, que tinha problemas. Isto em um momento em que os carros prateados estavam melhores na pista, após a troca de pneus.
Principalmente quando a Mercedes, em uma manobra que poderia ser bem mais contestada, inverteu Bottas e Lewis em pista, de forma limpa e muito clara, dando a chance de Hamilton atacar pessoalmente a Ferrari de Kimi e – se tivesse sucesso – chegar em Vettel que estava pouco à frente e andando menos que o finlandês.

Já a estratégia do time alemão acabou por não dar certo, muito por conta da configuração da pista húngara.  Sempre foi muito complicado ultrapassar por lá e este ano não seria diferente, mas não deixou de ser surpreendente saber que a estratégia tinha um plano B e que este era ainda mais surpreendente: se não conseguisse passar por Kimi, Lewis teria de devolver a posição à Bottas para que este não ficasse no prejuízo em relação à briga pelo título.
A dúvida se Lewis iria ou não cumprir o combinado era real e honesta, afinal, o inglês chegou a estar pouco mais de sete segundos na frente do finlandês, que para piorar ainda era atacado por Max Verstappen, que convenhamos, não pensa muito em uma disputa de posição...

Porém, com um senso de equipe raro na categoria, Lewis se atrasou propositalmente e cedeu a posição na última curva abrindo mão de três pontos em relação a Vettel e manteve Bottas na briga.
A corrida húngara foi a prova cabal de que sim, F1 é um esporte coletivo.