31 de ago de 2017

O melhor GP da Itália de todos os tempos

Muito se fala do fantástico GP da Itália de 1969, vencido por Jackie Stewart ou da corrida de 1971 em que a diferença de tempo entre o primeiro colocado Peter Gethin e o segundo Ronnie Peterson foi apontada como a menor da história da categoria: apenas um centésimo.
E mais: os cinco primeiros colocados terminaram a prova dentro do mesmo segundo.
Ambas foram disputadas em Monza, e só isto já é um handicap considerável, porém um dos mais emocionantes de todos os tempos não foi corrido no solo sagrado.
Nem em Brescia (1921) ou Livorno (1937), nem em Milão (1947) ou Parco Valentino (1948), muito menos em Imola (1980) que pela ordem foram os circuitos que também já foram palco da corrida italiana.
Mas sim em Roma (ano 1 DC) e teve lugar no Coliseum.

Alinharam para a largada as melhores bigas - como eram chamados os F1 da época. – E os melhores pilotos.
Por conta de um regulamento absurdo em que equipes que aceitavam algumas imposições da BIA (Bigas International Assossiation) tinham direito a algumas regalias, enquanto as equipes que gastavam o quanto queriam em seus orçamentos não.

Então equipes menores como a Toyotus que vinha do Oriente, a Torus Rossus que era de Roma mesmo e uma equipe vinda das Índias podiam usar mais cavalos do que as outras: quatro (Quadrigas).
Já MacLatun, de Londres; a Redburrus; a Ferrarus e uma equipe de bárbaros franceses: a Horrivelnault usavam apenas três cavalos, mas estes eram puro sangue, geralmente árabes.
Eram os chamados motores P12 (doze pernas)

As restantes não se enquadravam nas categorias acima citadas, usavam bigas de dois ou três cavalos, mas pangarés e geralmente eram apenas coadjuvantes nas corridas.
Eram: os bávaros da BMdablius e outros londrinos da Uiliams, que eram chefiados pelo lendário centurião Francus. Um sujeito teimoso que achava que conduzir uma de suas bigas era uma enorme honraria, e por isto geralmente não pagava bem seus legionários pilotos.
Às vezes Francus conseguia brigar até com seus cavalos... Era do contra ele.

A corrida em questão foi um sucesso de publico e até as autoridades mais importantes da época estiveram presentes: O imperador César Berlusconi e o governador francês Nicolaus Saicoizinha acompanhado de sua esposa, da qual o imperador não tirou os olhos durante toda a prova.
Na largada Kubicus da BMdablius se envolveu em um acidente bobo com Fisichelus que era romano, mas por laços financeiros e por ser também sua ultima chance no mundo das corridas aceitou conduzir pelo time Indiano.
Dizem que ao enroscarem as rodas das bigas, em uma tentativa patética e desesperada de soltar à base de força, Fisichellus gritava: “-Force Índia, force!”.

Na volta numero trinta, outro acidente: o segundo condutor da Horrivelnault perde o controle dos cavalos e estampa o muro sujando a pista com detritos de sua biga e cocô de cavalo...
Naquela altura da prova apenas seu companheiro de equipe, o centurião Alonsus havia feito a parada para reabastecimento (não me pergunte onde enfiavam a mangueira, ou se a mangueira já era do cavalo...) e assume a ponta da corrida provocando suspeitas em todo o bigódromo.
Só que mais a frente o centurião Alonsus é obrigado a abandonar a corrida por conta de um de seus cavalos estar com a pata frouxa e ameaçando se soltar, o que lhe valeu o apelido de “Alonsus pernun frouxus”

No fim a vitória coube a Button Hur, que conduzia uma Braus com difusor duplo na saída do terceiro cavalo.
Em segundo ficou Messala Humbê, que reclamou que os melhores cavalos sempre estavam na outra biga e que ele era apenas um romaninho contra o império.
Em terceiro chegou Kimem Raikkonus, que evitou dar declarações, mas bebeu as três ânforas de vinho reservadas no pódio para a festa da vitória.

Outro dado curioso é que o comerciante de togas Flavius Safatorus, também chefe da Horrivelnaut, foi convidado a explicar o acidente com Piquetinhus, mas este se limitou a dizer: “-Questo era um piloto que non valia o que o cavalo fazia...”.
E perguntaram a ele: “-O que exatamente? ”.
“-Correr, porca miséria, correr... Seus mente suja…”

29 de ago de 2017

Um Grand Slam para a F1

A F1 volta das férias de verão (europeu) com uma corrida em Spa-Francorchamps, nada mais e nada menos.
Uma semana depois é a vez da Itália e do mítico templo da velocidade de Monza.
Estas duas, mais Silverstone, Mônaco e – com boa vontade – Interlagos poderiam ser algo como o Grand Slam da F1.
Talvez valer mais pontos ou ter um peso de desempate ao fim da temporada em caso de empate no número de pontos.... Qualquer coisa, mas a importância destas corridas deveria ser exaltada e elevada.
Seria simpático por parte da organização do campeonato colocar nomes mais pomposos.

Para não ser limitado a apenas cinco corridas principais, o Grand Slam da F1 poderia contar também com outras corridas estrategicamente posicionadas no calendário.
Assim, poderíamos abrir o campeonato tradicionalmente na Austrália e chamar a prova de Melbourne Start enquanto a prova for naquela cidade.... Quando mudar vai Australian Open mesmo e o tênis que se vire.

Mônaco, talvez o palco mais emblemático da história da F1 (há quem diga que não existe F1 sem Mônaco) também entraria na jogada: Monte Carlo All Stars Weekend.
Vencer nas ruas do principado é algo sem comparação na vida de um piloto, por tudo que aquelas ruas estreitas representam.

Silverstone, já citado, trocaria de posição com a Hungria e fecharia a primeira parte do campeonato antes das férias. Poderia ser chamado de British Last Chance Race.

Férias e na volta The Great Spa Returns Race seguido uma semana depois do Italian Greatest Winners Weekend.
Nestas duas também teriam eventos com a memória da F1 celebrando seus grandes personagens e na corrida italiana um evento com um hall da fama, como nos esportes americanos onde se celebrasse nomes como Stewart, Fitipaldi, Fangio, Piquet, Ascari, Schumacher, Senna, Barrichello (não, não é piada) e todos os anos novos nomes seriam eleitos para fazer parte do panteão.
Seria muito interessante.

O Japão entraria neste circuito de corridas especiais com Suzuka e seu GP Samurai Speed Race.

O Brasil trocaria de datas com Abu Dhabi e fecharia a lista com um GP em Interlagos com a Corrida dos Campeões já que sendo a última corrida do ano serviria para mostrar o campeão do ano ou, numa hipótese muito melhor, decidir quem o seria.

Como a F1 volta seus olhos cada vez mais para o mercado norte-americano, não poderia faltar algo para esta região, claro, nenhuma das três pistas na américa do Norte tem o apelo das citadas, apesar do Canadá sempre render bons momentos.
Sem com peso menor que as anteriores talvez fosse interessante ter a American Séries e no mesmo mês as três corridas começando pelo Canadá, passando pelo México e culminando nos EUA, talvez com uma pista melhor que aquele copy and paste do Circuito das Américas, mas na falta, aquilo mesmo estaria bom.

27 de ago de 2017

F1 2017: Bélgica - Todo mundo ama Spa-Francorchamps

Todo mundo ama Spa.
Quem disser que não, é clubista. (e burro)
São tantas boas histórias, lembranças e emoções que é impossível não ter expectativas sobre a corrida.

O local mítico dos automobilistas que um chato falador costuma dizer que é a pista favorita de dez entre dez pilotos. E de onze entre dez fãs.
E para deleite de todos (fãs e pilotos) a volta das férias é logo lá.
Junta a fome com a vontade de comer e a beleza do prato.
Spa é amor.

E o domingo de corrida começou com uma vitória brasileira na F2.
Há tempos a bandeira não aparecia no lugar mais alto e coube a Sérgio Sette Camara a honra.
Em uma categoria que este ano é dominada totalmente por Charles Leclerc, que se tudo correr bem vai ser dono da porra toda por muitos anos, é um feito enorme.

E na principal, a pole era de Lewis Hamilton com Vettel na cola.
Na sequência os dois coadjuvantes: Bottas e Kimi.
A La Source tinha tudo para ficar ainda mais estreita do que já é.
Por ela passaram bem e contornaram sem problemas a Eau Rouge e a Raddilion.
Hamilton sempre com Vettel em sua cola e na Kemmel quase tomou a ultrapassagem.
Ao fim da primeira volta, dos carros importante, apenas os dois carros da Red Bull tinham trocado de posição.

Assim foi até a primeira troca de pneus, quando os ponteiros voltaram com os pneus mais duros do fim de semana e Vettel começou, de fato, a colocar pressão em cima de Hamilton.
Para azar da corrida, puniram Kimi por problemas com bandeiras amarelas. Justo sim, mas desnecessário.
Kimi foi aos boxes e abandonou de vez a briga por um lugar no pódio.
Assim que as condições de pneus começaram a se igualar em termos de desgaste em cada carro, Hamilton voltou a ficar confortável.
A melhor eficiência aerodinâmica de seu Mercedes possibilitava contornar as curvas de alta e média velocidade de forma mais eficaz que a Ferrari de Vettel.
Com isto, abria preciosos centésimos que impossibilitava o ferrarista de usar o DRS e tentar algo no fim da Kemmel, por exemplo.

Na volta 29 as duas Force Índia que vinham se estranhando em pista desde a largada (e em outras corridas) se acharam após contornar a La Source.
Pouco antes de mergulhar na Eau Rouge se tocaram.

Perez teve perícia e sangue frio para segurar a barata rosa quando seu pneu estourou, dechapou e saiu do carro.
Com uma roda a menos, levou o carro até os boxes. Ocon, o outro piloto, seguiu de boas.
Safety car na pista.
Na volta 34 a relargada trouxe um Vettel embutido em Hamilton, com a respiração suspensa venceram La Source, Eau Rouge, Radillion e reta Kemmel grudados.
Mas Hamilton se valendo do melhor equipamento e de um braço poucas vezes visto, manteve a posição,
E vale lembrar que o pneu ultra macio (e novo) davam vantagem à Ferrari do alemão.
Assim ficou até o fim das 44 voltas e nunca uma vitória de Lewis Hamilton foi tão justa.

Uma pilotagem fina, precisa. E no mesmo nível veio Vettel em segundo e Ricciardo, que havia largado em sexto e fez uma corrida muito discreta – e eficiente – em terceiro.
Mas os dois primeiros sobraram na turma toda. E muito.

25 de ago de 2017

Spa-Francorchamps 2008: A vitória de Felipe Massa

O GP da Bélgica sempre é pontuado por emoções.
Se não durante toda a corrida (ao menos para quem assiste, quem pilota é outra coisa...) sempre há momentos em que se prende a respiração por alguns instantes e quando se volta a puxar e expelir o ar, geralmente vem junto alguma frase do tipo: “pqpcaralho!”
2008 não foi diferente.
A classificação no sábado teve um Lewis Hamilton (McLaren) perfeito segurando a pole position com um tempo de 1.47:338 (mas chegou a andar em 1.46:088 no Q2) superando seu maior opositor até então e com quem brigaria pelo título até as últimas voltas do último GP daquele ano (Brasil, Interlagos, chuva melando a pista...) Felipe Massa. (Ferrari)
Na largada, um show de ousadia e arrojo de Kimi Raikkonen (Ferrari) que jantou todo mundo vindo de quarto e já rasgou a reta Kemmel ultrapassando Lewis de forma impiedosa para liderar a corrida.
Havia um outro finlandês naquele ano, Heikki Kovalainen (McLaren), mas deixa ele para lá.... Não vale a pena.

Os carros de times pequenos que faziam bonito em 2008 eram os Toro Rosso, então pilotados pelos Sebastiões.
Um deles acabou fazendo muito sucesso na categoria, um tal Vettel, o outro: Bourdais, é um dos grandes injustiçados da F1.
Grande piloto nerd, o único que sabia o valor de Pi.
Rubens Barrichello, então piloto da Honda (junto a Jenson Button) teve um desempenho ruim, como aliás, foi durante todo o ano. Muito por culpa da carroça horrível que a Honda fez para aquele ano e que culminou na última prova dando motivos para o pai de Jenson Button soltar sua famosa frase sobre o carro: “-Deixa queimar esta m..”.
Na Bélgica especificamente, Rubens colocou a culpa do mal desempenho no câmbio do carro.

Tudo estava mais ou menos sob controle até que nas últimas quatro ou cinco voltas aparece uma personagem muito comum em corridas ali penas Ardenas: a chuva.
Não o suficiente para encharcar a pista. E nem foi em todo o traçado que tem mais de sete quilômetros, mas melecou (é a palavra correta) grandes e importantes trechos.
E aí a brincadeira ficou realmente séria.
Lewis que há pouco havia dado uma bela escapada de pista, faz carga no finlandês da Ferrari e travam uma briga de gente grande, com toques, alguns “chega pra lá” de parte a parte que acabou com Raikkonen fora da pista acertando o muro ficando de uma prova em que merecia de verdade ganhar. Tanto pela largada perfeita, quanto pela briga sensacional com Lewis nas voltas finais.
Com isto, Hamilton cruzou a linha em primeiro lugar, subiu ao pódio, estourou a champanhe comemorando a vitória em um dos templos mais sagrados do automobilismo mundial.

O problema foi, algum tempo depois a direção de prova lhe aplicar uma punição de vinte e cinco segundos por ter cortado uma chicane na briga dom Raikkonen e com isto ter lhe cassado a glória belga.
E esta foi o primeiro e único triunfo de Felipe Massa na Bélgica...

23 de ago de 2017

F1 2017: Spa é para loucos

Logo após vencer mais uma vez a temida Eau Rouge, Ricardo Zonta acelera sua BAR já sabendo que atrás vem o líder da corrida: o alemão Michael Schumacher seguido de perto por Mika Hakkinen.
Zonta sabe o que deve fazer quando chegarem: puxar para o lado e deixar o caminho aberto para que os dois passem pelo lado correto sem perder a tangencia da próxima curva e assim não atrapalhar ninguém.

Vê o carro vermelho se aproximando e crescendo em retrovisor esquerdo e reduz a velocidade, fica pronto abrir passagem puxando o carro para o lado direito quando neste surge o carro prateado da Mclata.
Na impossibilidade de desaparecer, ser abduzido ou cavar um buraco bem profundo, o brasileiro segura o volante firme para que não penda para lado algum e vê passar por si, numa fração de segundos os dois malucos.
Um de cada lado...

Isto é Spa-Francorchamps e é o que a pista pode proporcionar quando pilotos de coragem – ou loucos – guiam competitivamente por suas retas e curvas.
Não que espere ver neste domingo algo parecido, mas sabendo que emoções, com certeza, virão.
Afinal: é Spa.

21 de ago de 2017

F1 2017: A vez de Spa Francorchamps

Quem não tem uma pista predileta?
Todos nós temos, seja em que categoria for todos temos.
A minha é Monza.
Foi lá que assisti – pela TV, claro – o meu primeiro grande prêmio. E que maravilha! Piquet ganhou a corrida e de quebra levou o bi campeonato mundial.
Mesmo sem ter muita noção do que acontecia, vibrava com a Brabhan contornando a Di Lesmo, vencendo a Parabólica, as Variantes altas e baixas...
Monza é velocidade em estado bruto. E brutal, como algumas dezenas de mortes por lá podem atestar.

Mas, quem em sã consciência poderia desprezar uma pista como Spa Francorchamps? Eu não sou louco a este ponto e acredito que ninguém seja.
Quem gosta de automobilismo, gosta de Spa. Não há como dissociar.
A pista é um espetáculo, sempre foi. E mesmo agora em que com o passar dos anos, por necessidades nem sempre inerentes ao automobilismo ou a competição a pista foi sendo –pontualmente – modificada, nem assim conseguiram tirar a majestade desta seqüência de subidas, decidas, curvas para os dois lados, freadas fortes e muito flat - out no acelerador.

Começa-se pela La Sorce. Travadissíma e que faz com que a largada seja muito, mas muito mais tensa do que normalmente é. Com chuva então é quase um desafio de Titãs.
Não é raro que os pilotos usem – sem vergonha alguma – a área de escape desta curva.
Logo desembocam em uma reta em descida que precede um mito das curvas.
Eau Rouge não é apenas uma curva, é uma entidade.
Vencer a Eau Rouge com o pé em baixo é como chegar ao topo do Everst.
Berger disse que: “-enquanto se desce a pequena reta, a cabeça diz que não é possível contorna-la de pé embaixo. Mas o coração diz que sim e grita por isto como se fosse vital!”.
Nunca estive lá, claro, mas não duvido desta descrição.
A descarga de adrenalina no cérebro deve ser tão forte que apaga qualquer tentativa de raciocínio lógico em prol de uma “segurança” que lhe tiraria preciosos décimos de segundo.
Em resumo: Eau Rouge é para homens!
Ricardo Zonta que o diga...

A reta Kemmel é um trecho muito rápido e bonito, como todo o circuito é bonito, mas é onde se vê que o circuito é também uma bem urdida mistura de velocidade e inteligência na preparação do carro.
E foi nesta reta que Mika Hakkinen fez de bobo o grande Schumacher ao ultrapassá-lo usando como pivô Ricardo Zonta. Schumacher nunca imaginaria uma manobra daquelas e o brasileiro menos ainda. Uma das manobras mais bonitas da história deste esporte.

Diferente de Monza, onde se pede um bólido quase sem asas para aproveitar as retas, Spa pede um refinamento aerodinâmico que não impeça o carro de ser indescritivelmente rápido nas retas, mas também nas curvas.
E é no fim da Kemmel que vem a primeira prova disto: a seqüência Les Combes vem com uma freada tão forte que os estômagos mais sensíveis jogariam para fora o almoço de dois dias atrás.

A Rivage, Malmedy, Pouhon, Fagnes e Paul Frere são em descida, já dentro da histórica floresta de Ardennes, onde na Segunda Grande Guerra travou-se muitas batalhas sangrentas.
A batalha aqui é manter-se vivo e rápido o suficiente para ganhar tempo e força para encarar a subida que desemboca em outra lenda do automobilismo: a Blanchmont..
De pé empurrando o pedal do acelerador até tocar o assoalho do carro a curva é diabolicamente rápida e muito traiçoeira.
Um milésimo de distração e se é apresentado à barreira de pneus que tenta fazer a segurança do local.

A nova seqüência denominada de Bus Stop nada tem com a original. Na verdade é uma chicane das mais comuns, diferentemente do que era alguns anos atrás quando realmente se parecia com uma parada de ônibus.
O enquadramento da TV naquela época mostrava a dificuldade de fazer a chicane.
O carro vinha totalmente acelerado na saída da Blanchmont, freava muito forte e guinava para a direita, uma pequena reta e outro golpe no volante para a esquerda e tome aceleração...
Ayrton Senna fechou sua volta rápida em 1991 com fantásticos 1:47:08, na pole.
E some-se a tudo isto a sempre presente possibilidade de chuva, que se não no traçado todo, ao menos em algum ponto da pista. O que é ainda mais complicado.

E ainda há quem diga que o circuito original era ainda melhor! Para os que duvidam, fica aqui a sugestão. Veja a seqüência da corrida belga do filme Grand Prix, de John Frankenheimer.
A corrida que ele retrata lá á de 1966, com o circuito original.

17 de ago de 2017

F1 2017 - Briefing na Toro Rosso

Durante um dos fins de semana de GP antes das férias, Franz Tost e Helmut Marko resolveram dar uma palavrinha com os pilotos antes da largada.
Após falar com Carlos Sainz Jr. e ficar com dúvida se o pastel entendeu alguma coisa do que foi dito, viraram-se para Danil Kvyat que calçava as luvas após limpar o capacete.

-Posso passar para você as instruções da estratégia? - perguntou Tost.
-Poder pode... Mas posso contar uma história antes? - respondeu o russo.
-Errr, pode... Claro. Desde que não demore.
-É rápido.
-Então vai...
E todos os funcionários presentes começam a prestar atenção ao que o russo iria dizer. Inclusive Sainz Jr. que olhava com cara da abobado.

-Quando, lá nos anos cinquenta, começou a se falar na possibilidade de mandar uma espaçonave tripulada ao espaço os norte-americanos logo começaram a fazer pesquisas e mais pesquisas para criar uma caneta que escrevesse em condições de gravidade zero. Gastaram muitos milhares de dólares em pesquisa e confecção dos modelos, depois mais um monte de dinheiro nos testes em simuladores de gravidade zero em aviões gigantescos e nada da caneta funcionar. Não escrevia porque a tinta não descia. Os russos fizeram diferente... Foram ao espaço levando um simples lápis...

Franz Tost e toda a equipe Toro Rosso ouviam atentos, mas sem entender absolutamente nada.

-Sim Danil, mas o que tem haver isto com a corrida ou com a estratégia? – perguntou Marko que até ali ouvia tudo calado.
-Tudo...
-Pode explicar?
-Claro...
-Então?
-Sou russo, vou fazer o mais simples... Vou entrar lá e acelerar... Só isto.
Após refletir por alguns instante, Marko encara o russo com seu olho bom e dispara:
-Acho melhor você mudar a abordagem... Se fazendo o simples já está dando este prejuízo todo, melhor tentar algo diferente...

14 de ago de 2017

O rock no Brasil não acabou 4: Apanhador só e o futuro. Meio que tudo é um

Quando surgiu no cenário do rock brasileiro, as primeiras impressões (de gente que provavelmente nem tinha ouvido o disco) davam conta que era uma banda que emulava Los Hermanos... Coitados.
Depois, por serem gaúchos, diziam que era um sub Engenheiros. Ai deu pena dos críticos.
Nada contra EngHaw, que eu adoro, mas bastava ouvir o primeiro disco da Apanhador Só (Alexandre Kumpinski, Fernão Agra e Felipe Zancaro que se revezam nos instrumentos e funções) para ter certeza de que era algo novo, pungente e que apesar do sabor pop das canções, a banda tinha muito mais a apresentar.

No primeiro disco, Apanhador Só, (2010) ruídos estranhos - ainda tímidos -  já causavam uma estranha sensação, mas não afastava o ouvinte do som pop fofinho.
E sim, eles tinham mais a mostrar.
Tanto que regravaram (sempre em esquema de financiamento coletivo) um EP (Acústico sucateiro, 2011) com músicas do primeiro disco tocadas apenas com “instrumentos” alternativos. Baldes, rodas de bicicleta, chaleiras, violões de brinquedo entre outras coisas.
Já para o segundo long play, a banda se reinventou, depurou seu som e mandou para os ouvintes um produto completamente diferente, novo!
Antes que tu conte outra (2013) é um disco ruidoso, violento (e ainda assim poético) onde as poucas concessões ao passado pop (“Liquido Preto” e “Torcicolo”) da banda soam como piadas jocosas embora sejam músicas ótimas.
Pode-se dizer que o disco já nasceu clássico por ser quase impossível ter um paralelo no BRock para ele.

Eis que chega 2017 e a banda lança seu novo disco: Meio que tudo é um.


Se o segundo era a depuração do estilo da banda, o terceiro pode ser considerado seu suprassumo.
Corajoso e sem concessões, a Apanhador dá uma aula de modernidade, inventividade, criatividade e talento ao longo das quinze faixas do disco.
As letras de Alexandre Kumpinski (com diversas parcerias) são poemas dignos do nome.
E algumas como a poderosa “O creme e o crime” são enormes!
Algumas passagens soam tão geniais (e bonitas) que grudam na cabeça feito chiclete no asfalto quente, manja? Estica, mas não larga da sola do tênis.
No caso, te acompanha por dias e dias na ponta da língua.
Duvidou? Ouça “Teia” e tente não ficar repetindo o refrão desta canção alegre e solar:
“O problema é quando a gente está puxando duma corda / Do mesmo jeito de quem tá do outro lado puxando da mesma corda”.

A citada “O creme e o crime” em sua letra quilométrica e de métrica complicada joga uma luz diferente sobre a discussão sobre “merecimento”, “esforço” e “sorte” ao falar de um personagem, filho de pais separados, que - aparentemente - não passou por dificuldades financeiras ou maiores traumas.
A letra tem um refrão carregado:
“Desculpa nenhuma
Nem tua, nem minha
De ter na maminha
O herdado conforto
De berço nos beiço
O tererê”

O disco flerta com samba para falar de São Paulo (“Metropolitano”) e do Rio de Janeiro (“RJ banco imobiliário”), reggae desconstruído na maravilhosa e já citada “Teia” e muita, muita poesia.
A veia romântica fica por conta de “Linda, louca e livre” que traz alguns dos versos mais bonitos sobre relacionamento já escritos.

Se o disco vai fazer sucesso é uma incógnita neste mercado musical esquisito do Brasil. Ainda mais sendo um produto independente, mas que já pode ser considerado sério candidato a melhor disco do ano, não há dúvida alguma.
Ouça inteiro, e ouça atento.

11 de ago de 2017

Os esquecidos

Julio sempre cortou o cabelo na mesma barbearia, tanto que nem se lembra da última vez que fez o serviço em outro estabelecimento.
Não escolheu o lugar pela excelência do corte ou pelo preço, que nem era tão barato assim, mas por um motivo curiosíssimo: o silêncio.
Fabio era o barbeiro – “-Cabeleireiro é o ca****!”, dizia.
Decidiu abrir a barbearia após se aposentar da metalúrgica, seu primeiro e único emprego desde os quatorze anos.
-Vai abrir um salão de beleza, pai? – lhe perguntou um dos filhos.
-Barbearia! Salão de beleza é o c****! – respondeu.
-E você sabe algo sobre cortar cabelo? – quis saber a esposa.
-Eu cortava chapa de aço, cabelo vai ser mole! É só uma questão de ferramenta.
-Mas e as químicas? Tinturas, apliques e outras coisas que as mulheres usam? – indagou a filha.
-Só homem vai cortar cabelo lá... Ou sapatão. – e deu o assunto por encerrado

Sempre fora assim, um homem de poucas palavras.
-Melhor calar do que falar merda! – era o que dizia quando não queria conversar.
Julio apreciava isto.
Quando se sentou pela primeira vez à cadeira de Fábio, ouviu a protocolar pergunta: “-Como vai ser?” e respondeu: “-Em silêncio.”
Gostou da resposta e caprichou no serviço.
Deste dia em diante, nunca mais Julio foi a outro lugar, e nunca demorou mais de um mês para voltar. E também não ouviu mais a pergunta protocolar.
Acabou por esquecer como se explicava o corte que gosta. Dizia que confiava no trabalho e pronto.
O barbeiro por sua vez, achava aquilo uma espécie de elogio.
Fábio então pegava o espelho, mostrava a parte de trás e recebia um aceno positivo de cabeça.
Era a deixa para que Julio pagasse o corte e fosse embora com um aperto de mãos e um sorriso.
E assim transcorreram-se os meses, os anos, as décadas... Já se contavam então duas. Vinte anos cortando o cabelo no mesmo lugar, da mesma forma.

Porém o tempo é implacável e a idade começa a cobrar seus tributos ao barbeiro.
Não treme e nem perdeu a força nas mãos, mas a memória, bem... Esta não é mais a mesma.
A teimosia era a mesma da juventude, e claro, teimava em ainda ser lacônico.
-Quem fala demais dá bom dia à cavalo. – dizia e completava – E corre o risco do bicho responder e iniciar uma conversa.
Recusava-se a ir ao médico. A família suspeitava dos primeiros sintomas de Alzheimer.
E nem assim ele parava de trabalhar: “-Um dia vai dar merda!” – disse a esposa.
-Quando der, eu paro. – respondeu.
Um dia, Julio entrou na barbearia e se sentou à cadeira.
Fábio lhe colocou a capa sobre a roupa, empunhou tesoura e pente. Parou atrás do cliente. Estático e mudo.
Julio estranhou sua demora em começar a cortar, mas também nada disse. E assim ficaram por pelo menos trinta minutos até que, pela primeira vez naqueles vinte anos, Fábio entabulou uma conversa.
-Julio, pode se levantar, por favor.
-Ué, mas por quê?
-Prometi a minha esposa que o dia que desse algum problema com um corte de cabelo, eu fecharia a barbearia. E eu não quero parar de trabalhar.
-E o que tenho eu com isto? Onde me encaixo?
-Sempre me diz que não se lembra mais como explicar o corte que quer, estou mentindo?
-Não...
-Pois é... Também não lembro mais como cortar seu cabelo, então é melhor nem arriscar.

9 de ago de 2017

O rock no Brasil não acabou 3: Os Paralamas ainda vivem

Que Herbert Vianna nunca foi um grande cantor é fato.
Herbert é o cantor possível e em se tratando de Paralamas do Sucesso, é mais do que suficiente.
Para quem se assustou com o primeiro single que dá nome ao disco, pode relaxar: a voz de Herbert não tem problema algum fora o desgaste da idade.
O que não chega a ser problema já que Herbert adaptou seu jeito de cantar e um registro de voz mais alta nem chega a fazer falta.
Mas não entenda mal... é suficiente e está totalmente dentro do espirito de honestidade e integridade que a banda traz em si desde seu primeiro disco.
Mas o estranhamento com o registro vocal em “Sinais do Sim” se dá muito mais pelas soluções encontradas para a métrica da letra do que por algum problema na voz. Nas outras faixas tudo volta ao normal.
Para o bem e para o mal.
João Barone e Bi Ribeiro se completam a ponto de parecerem uma única entidade.
É sem dúvida a melhor cozinha do BRock desde sempre.
Herbert é um guitarrista inventivo (não me venha falar dos reggaes, o guitarrista do Police Andy Summers usa e abusa e é tido como genial) e compõe solos maravilhosos.
João Fera e seus teclados fecham o time de forma coesa preenchendo os espaços, criando climas ou mesmo conduzindo.
Logo, não há o que se falar sobre a parte técnica instrumental dos caras.

Mas...  Teriam algo a dizer e coisas novas para mostrar a veterana banda nestes tempos esquisitos para o rock brasileiro que passa por um de seus melhores momentos em termos de novas bandas, mas que não alcança o sucesso de execução em rádios e fica longe das TVs?
Sim e muito.
Tanto que, diferente de outros medalhões, lançaram um disco de inéditas. O décimo terceiro da carreira.
E não é, nem de longe, um disco acomodado.
Em suas onze faixas o trabalho d`Os Paralamas do Sucesso é revisitado e renovado como uma profissão de fé em boas melodias, rocks faiscantes, reggae, a brasilidade, tudo que é, enfim, a essência da banda.
A produção de Mario Caldato coloca em primeiro plano todas as virtudes dos instrumentistas jogando a favor ao deixar de lado qualquer invencionice modernosa.
Arrisco dizer que é um disco que pode ser tocado ao vivo na integra em um show sem problema algum. O que não vai acontecer por ser impossível imaginar um show dos caras sem seus cavalos de batalha.

Entre as ótimas faixas se destacam “Medo do Medo” de Capicua e João Ruas em que Herbert canta: “...eles têm medo de que não tenhamos medo. ”
É a faixa mais política do disco e, para aqueles que reclamaram (sempre tem chatos) que a banda não fez música para a “situação aterradora que o país se encontra” (zzzzzzzz) fica a dica: Renato Russo já dizia nos anos 80 que o caminho natural para os Paralamas era se tornar cada vez mais e mais uma banda romântica. Ele não estava errado.


O quase blues “Corredor” também é muito boa, juntamente com “Blow the Wind” que é a única do disco assinada apenas por Herbert.
Mas a melhor é “Olha a gente aí”, que faz citação do poema O Sino da Minha Aldeia, de Fernando Pessoa.
Com uma levada contagiante, lembra a fase alegre de Sly and Family Stone tocando “Stand”.
A letra mostra bem a vibe otimista do disco e o estado de espirito da banda para encarar estes tempos esquisitos citados no começo do texto: “Ao sabor do vento que soprar/olha a gente ai! ”

7 de ago de 2017

F1 2017: as férias de cada um

A F1 entrou em suas férias de verão.
Se alguém não sabia, Alonso tratou de avisar ao fim do GP da Hungria... Mas, o que fazem os protagonistas da brincadeira durante este mês em que as fábricas ficam fechadas (mas os engenheiros e projetistas trabalham em casa, que ninguém aqui é besta...) e os motores não são ligados?


Felipe Massa.
O brasileiro desaposentado aproveitou para seguir a risca os conselhos médicos que o mandaram descansar o máximo possível e não fazer nenhum esforço físico ou mental para se restabelecer da virose que o acometeu durante o fim de semana do GP da Hungria de 2009.
Vale dizer que vem conseguindo com êxito.

Sebastian Vettel.
O alemão da Ferrari, atual líder do campeonato de pilotos tirou o mês vago para resolver problemas bancários em seu país natal.
Vettel foi visto gesticulando freneticamente e reclamando em voz alta quando estava no meio da fila. Exigia que os mais lentos fossem tirados da fila pelo gerente...

Kimi Raikkonen.
Gostaria de dizer que vimos Kimi Raikkonen se divertindo em família ou mesmo com os amigos durante este período, mas não soube decifrar a expressão facial do cara.
E segundo seu chefe na Ferrari, até para tirar férias o cara estava desmotivado.
Outra versão diz que ele estava atrás do Vettel na fila do banco, e mesmo tendo apenas uma fatura para pagar e não reclamando de nada, não pode passar na frente do alemão.

Valteri Bottas.
Foi flagrado tentando renegociar o acordo que fez durante as últimas voltas da última corrida em que abria mão de algumas centenas de milhares de dólares na próxima renovação de contrato em troca do lugar da posição de Lewis e míseros três pontinhos a amais na tabela de classificação

Toto Wolf e Arrivabene.
Aproveitaram o período para terminar de escrever seu livro em conjunto: How to disrupt the second pilot and still posing as impartial.
Neste livro contam suas experiencias em atrasar a vida de Nico Rosberg, Kimi Raikkonen e Valteri Bottas.

Lewis Hamilton.
Vai ficar postando fotos com roupas da grife de Daniel Alves.
Não que alguém se importe, mas depois que terminou o namoro com a cantora lá, não tem nada melhor para fazer.

Fernando Alonso.
Está cagando e andando para a F1 neste ano.
Vai aproveitar as férias para rever o vídeo de sua participação na Indy 500 e pensar: Como pode tanto piloto ruim como aqueles terminarem a corrida e eu não... Porra honda!

3 de ago de 2017

Maldita especulação imobiliária

Desde que me entendo por gente, há no bairro um campo de terra batida: O "Campão".
Não por ter medidas fora dos padrões para a pratica do futebol, mas porque para nós, moleques pequenos, era grande para caramba mesmo!
Íamos lá jogar peladas, rebatidas, andar de bicicleta, correr a esmo...
Agora, agosto de 2017, a especulação imobiliária finalmente venceu, e o campo foi destruído para dar lugar à um loteamento.
Vão ficar as lembranças de uma infância que as novas gerações não vão ter nunca mais. Uma infância de liberdade, segurança e muito sol/chuva e ar livre.
O texto de hoje se passa neste campo e as fotos que ilustram o texto são do campo.

FOLIA DO BOI

Eu não me lembro direito dos detalhes, nem poderia já que faz tanto tempo...
Lembro-me de alguns pontos, alguns fatos um tanto confusos. Os anos, outras presepadas e as dificuldades da vida me fizeram esquecer muito.
Só que outras teimam em ficar grudadas no hard-disk da memória. Enfiadas numa pasta de raiz no cérebro. Coisa que mesmo se quisesse esquecer não conseguiria.
O que vou narrar agora é um destes fatos.
Como já disse, meio impreciso por conta dos brancos na memória, mas vou contar assim mesmo...
Era quase uma obrigação jogar futebol no campo de terra do bairro nos sábados pela manhã.
Na verdade, era religioso e nós cumpríamos com um prazer absurdo esta obrigação.
Lá descansávamos da semana de trabalho correndo, suando e xingando uns aos outros dentro de campo, mas quando acabavam as partidas todos eram amigos de novo.
Ficava o dito pelo não dito.
Acordávamos cedo e íamos de casa em casa chamando os jogadores até que tivéssemos o numero certo pra jogar.

Os mais assíduos eram - graças a Lemmy - o goleiro Sandro, que chegou até a fazer uma temporada pelo time do Nacional da Água Branca; o lateral Sergio, também conhecido como "Babu"; o outro Sérgio, que era atacante e não era muito bom de bola, mas era amigo e amigo não tem defeito, não é?
Ocorreu que num daqueles sábados tínhamos jogo marcado contra um time do bairro vizinho.
O jogo foi marcado de véspera, muito em cima da hora e não tivemos tempo de avisar pelo menos treze jogadores. De modo que na hora 'H' só apareceram onze, os contados...
Tivemos que improvisar.
Colocamos gente do ataque na defesa, laterais no meio campo e só guardaram posição o goleiro Sandro - de novo, graças a Lemmy - e o Sérgio centro avante.
Até porque ele, como já disse, não era lá estas coisas e era melhor mesmo que ele ficasse lá na frente e não atrapalhasse a defesa...
Aos dez minutos de jogo alguém chega à beira do campo e grita que o filho de um de nossos jogadores havia nascido não tinha nem uma hora.
Não me lembro quem exatamente, mas o cara nem vacilou: tirou a camisa passou por mim como um foguete. Nem ouviu os parabéns...
Deixou a camisa no chão e mais à frente o calção, passou atrás das traves de um dos gols, vestiu sua roupa e sumiu.
Ficamos sem um dos volantes no meio-campo e sem ninguém em vista para por no lugar.
Teríamos de adiar o jogo. O que desagradou todo mundo nos dois times.

Eis que surge do lado oposto do campo um outro amigo nosso: Luiz.
Não era nem um craque.
Na verdade, era o que chamávamos de "pereba".
Alguém – julgo eu - do time adversário, o viu e gritou para que o colocássemos no lugar do feliz pai fresco que havia desertado.
Claro que a idéia a principio não foi bem aceita, afinal era o Luiz e sendo assim não ia fazer diferença ele no time ou um a menos.
Tremenda maldade.
A confabulação até que foi rápida e na base do sem jeito.
Aceitamos Luiz no meio campo.
Primeiro tememos pelo seu futebol, claro, depois o mais grave, tememos pelo nosso uniforme.
Não que nossa gloriosa camisa fosse algo assim bonito. Na verdade era até ridículo.
As camisas listradas na horizontal em verde e cor de abóbora.
E os calções? Estes eram listrados na vertical com as mesmas cores e era o que tínhamos.
Não disse que tem coisas que mesmo querendo não esquecemos?
E Luiz, devo dizer, não tinha assim um corpo digamos... Atlético.
Para ter uma pálida ideia, o cara tinha o singelo apelido de 'boi'.
Sim, ‘boi’, ele era grande (gordo?) então ai nosso temor pelo uniforme.
Mas vá lá que seja... Se a camisa ficasse folgada depois no corpo de outro jogador, paciência.
Mas, e o calção? Se este laceasse de mais? Como fazer?
"-Bom aí é o seguinte..." - alguém dava a solução. - "- Dá ai a camisa e ele que jogue com a própria bermuda...!”.
Boa solução se ele não estivesse vestido com calça jeans.
Alguém gritou de longe: "-Joga de cueca!".

O jogo foi reiniciado e transcorreu na maior ordem.
Ganhamos, como, aliás, já era esperado.
Luiz jogou muito bem. Antecipando, caindo para os dois lados do campo, cobrindo os laterais com perfeição e até chegando ao ataque.
Não importa se os “língua-afiada”, as “bocas de veneno” dissessem depois que o "Boi" mais parecia uma bola de praia atrás de uma bola de couro.
O que importa na verdade é que cumprimos nosso ritual e todos saíram contentes. Principalmente Luiz que lá no meio campo, enorme.... Rotundo.... Bovino.... No bom sentido!
Com nossa camisa cinco apertada até não mais poder e à altura do umbigo, meião e chuteiras emprestadas...
E se me perguntarem - e me perguntam - se é verdade que ele ficou em campo com uma cueca de algodão cru?
Eu direi - e digo - que não me lembro.
Se havia uma mancha de cor escura?
Não sei.
Como diz meu grande amigo Silvio, irmão do goleiro Sandro: "No creo em bundas, pero que las hay, las hay!".
Mas eu não quero me comprometer e penso ter sido tudo uma alucinação provocada pela alegria da vitória.
Ponho a culpa nos brancos da memória...


1 de ago de 2017

F1 2017: F1 como jogo coletivo e jogo de equipe limpo

Há quem diga que a F1 não é um esporte de equipe.
Eu mesmo já acreditei nisto durante muito tempo.
As explicações do pessoal que afirmava o contrário não satisfaziam de forma nenhuma: são dois carros para formar uma equipe; há um time para preparar o carro com as indicações dos pilotos; tem o povo dos boxes que troca os pneus; os engenheiros estrategistas e a cereja do bolo: tem um chefe de EQUIPE.
Na minha visão, o piloto estava sozinho dentro do carro (principalmente na F1 pré-rádio) tendo que se virar com as situações e os problemas que a máquina pudesse apresentar durante as corridas.
E não raramente alguns pilotos ganhavam corridas e davam a entender que tinham feito tudo sozinhos. Porém, quando perdia, a culpa era do time dos boxes.
Malandragem... E havia o jogo de equipe, que “de equipe” não tinha nada porque sempre prejudicava um mesmo personagem: o segundo piloto.

Durante um bom tempo, quando se falou em “jogo de equipe” o que vinha a cabeça de forma invariável era o segundo piloto abrindo passagem para o piloto principal da escuderia melhorar sua posição no campeonato.
Foi assim com Massa, com Barrichello, vimos Kimi fazer isto entre outros.
As vezes por pontos realmente importantes para a disputa, outras vezes, como no caso da Áustria 2002, nem tanto.
De uma forma ou de outra, aprendeu-se a odiar a expressão “jogo de equipe”.
Ficou visto como algo, além de desnecessário, injusto.
Várias pessoas se acostumaram a fazer referência ao jogo como sujeira ou falta de esportividade e até começou-se até uma campanha para colocar na ilegalidade.

Mas a o GP da Hungria de 2017 entortou a percepção sobre a noção de equipe na F1 de forma surpreendente.
Ainda que com as reclamações via rádio de Kimi Raikkonen, a Ferrari jogou de forma brilhante (por bem-sucedida) e limpa.

Kimi fez o escudo para evitar a aproximação de uma Mercedes a Vettel, que tinha problemas. Isto em um momento em que os carros prateados estavam melhores na pista, após a troca de pneus.
Principalmente quando a Mercedes, em uma manobra que poderia ser bem mais contestada, inverteu Bottas e Lewis em pista, de forma limpa e muito clara, dando a chance de Hamilton atacar pessoalmente a Ferrari de Kimi e – se tivesse sucesso – chegar em Vettel que estava pouco à frente e andando menos que o finlandês.

Já a estratégia do time alemão acabou por não dar certo, muito por conta da configuração da pista húngara.  Sempre foi muito complicado ultrapassar por lá e este ano não seria diferente, mas não deixou de ser surpreendente saber que a estratégia tinha um plano B e que este era ainda mais surpreendente: se não conseguisse passar por Kimi, Lewis teria de devolver a posição à Bottas para que este não ficasse no prejuízo em relação à briga pelo título.
A dúvida se Lewis iria ou não cumprir o combinado era real e honesta, afinal, o inglês chegou a estar pouco mais de sete segundos na frente do finlandês, que para piorar ainda era atacado por Max Verstappen, que convenhamos, não pensa muito em uma disputa de posição...

Porém, com um senso de equipe raro na categoria, Lewis se atrasou propositalmente e cedeu a posição na última curva abrindo mão de três pontos em relação a Vettel e manteve Bottas na briga.
A corrida húngara foi a prova cabal de que sim, F1 é um esporte coletivo.