3 de ago de 2017

Maldita especulação imobiliária

Desde que me entendo por gente, há no bairro um campo de terra batida: O "Campão".
Não por ter medidas fora dos padrões para a pratica do futebol, mas porque para nós, moleques pequenos, era grande para caramba mesmo!
Íamos lá jogar peladas, rebatidas, andar de bicicleta, correr a esmo...
Agora, agosto de 2017, a especulação imobiliária finalmente venceu, e o campo foi destruído para dar lugar à um loteamento.
Vão ficar as lembranças de uma infância que as novas gerações não vão ter nunca mais. Uma infância de liberdade, segurança e muito sol/chuva e ar livre.
O texto de hoje se passa neste campo e as fotos que ilustram o texto são do campo.

FOLIA DO BOI

Eu não me lembro direito dos detalhes, nem poderia já que faz tanto tempo...
Lembro-me de alguns pontos, alguns fatos um tanto confusos. Os anos, outras presepadas e as dificuldades da vida me fizeram esquecer muito.
Só que outras teimam em ficar grudadas no hard-disk da memória. Enfiadas numa pasta de raiz no cérebro. Coisa que mesmo se quisesse esquecer não conseguiria.
O que vou narrar agora é um destes fatos.
Como já disse, meio impreciso por conta dos brancos na memória, mas vou contar assim mesmo...
Era quase uma obrigação jogar futebol no campo de terra do bairro nos sábados pela manhã.
Na verdade, era religioso e nós cumpríamos com um prazer absurdo esta obrigação.
Lá descansávamos da semana de trabalho correndo, suando e xingando uns aos outros dentro de campo, mas quando acabavam as partidas todos eram amigos de novo.
Ficava o dito pelo não dito.
Acordávamos cedo e íamos de casa em casa chamando os jogadores até que tivéssemos o numero certo pra jogar.

Os mais assíduos eram - graças a Lemmy - o goleiro Sandro, que chegou até a fazer uma temporada pelo time do Nacional da Água Branca; o lateral Sergio, também conhecido como "Babu"; o outro Sérgio, que era atacante e não era muito bom de bola, mas era amigo e amigo não tem defeito, não é?
Ocorreu que num daqueles sábados tínhamos jogo marcado contra um time do bairro vizinho.
O jogo foi marcado de véspera, muito em cima da hora e não tivemos tempo de avisar pelo menos treze jogadores. De modo que na hora 'H' só apareceram onze, os contados...
Tivemos que improvisar.
Colocamos gente do ataque na defesa, laterais no meio campo e só guardaram posição o goleiro Sandro - de novo, graças a Lemmy - e o Sérgio centro avante.
Até porque ele, como já disse, não era lá estas coisas e era melhor mesmo que ele ficasse lá na frente e não atrapalhasse a defesa...
Aos dez minutos de jogo alguém chega à beira do campo e grita que o filho de um de nossos jogadores havia nascido não tinha nem uma hora.
Não me lembro quem exatamente, mas o cara nem vacilou: tirou a camisa passou por mim como um foguete. Nem ouviu os parabéns...
Deixou a camisa no chão e mais à frente o calção, passou atrás das traves de um dos gols, vestiu sua roupa e sumiu.
Ficamos sem um dos volantes no meio-campo e sem ninguém em vista para por no lugar.
Teríamos de adiar o jogo. O que desagradou todo mundo nos dois times.

Eis que surge do lado oposto do campo um outro amigo nosso: Luiz.
Não era nem um craque.
Na verdade, era o que chamávamos de "pereba".
Alguém – julgo eu - do time adversário, o viu e gritou para que o colocássemos no lugar do feliz pai fresco que havia desertado.
Claro que a idéia a principio não foi bem aceita, afinal era o Luiz e sendo assim não ia fazer diferença ele no time ou um a menos.
Tremenda maldade.
A confabulação até que foi rápida e na base do sem jeito.
Aceitamos Luiz no meio campo.
Primeiro tememos pelo seu futebol, claro, depois o mais grave, tememos pelo nosso uniforme.
Não que nossa gloriosa camisa fosse algo assim bonito. Na verdade era até ridículo.
As camisas listradas na horizontal em verde e cor de abóbora.
E os calções? Estes eram listrados na vertical com as mesmas cores e era o que tínhamos.
Não disse que tem coisas que mesmo querendo não esquecemos?
E Luiz, devo dizer, não tinha assim um corpo digamos... Atlético.
Para ter uma pálida ideia, o cara tinha o singelo apelido de 'boi'.
Sim, ‘boi’, ele era grande (gordo?) então ai nosso temor pelo uniforme.
Mas vá lá que seja... Se a camisa ficasse folgada depois no corpo de outro jogador, paciência.
Mas, e o calção? Se este laceasse de mais? Como fazer?
"-Bom aí é o seguinte..." - alguém dava a solução. - "- Dá ai a camisa e ele que jogue com a própria bermuda...!”.
Boa solução se ele não estivesse vestido com calça jeans.
Alguém gritou de longe: "-Joga de cueca!".

O jogo foi reiniciado e transcorreu na maior ordem.
Ganhamos, como, aliás, já era esperado.
Luiz jogou muito bem. Antecipando, caindo para os dois lados do campo, cobrindo os laterais com perfeição e até chegando ao ataque.
Não importa se os “língua-afiada”, as “bocas de veneno” dissessem depois que o "Boi" mais parecia uma bola de praia atrás de uma bola de couro.
O que importa na verdade é que cumprimos nosso ritual e todos saíram contentes. Principalmente Luiz que lá no meio campo, enorme.... Rotundo.... Bovino.... No bom sentido!
Com nossa camisa cinco apertada até não mais poder e à altura do umbigo, meião e chuteiras emprestadas...
E se me perguntarem - e me perguntam - se é verdade que ele ficou em campo com uma cueca de algodão cru?
Eu direi - e digo - que não me lembro.
Se havia uma mancha de cor escura?
Não sei.
Como diz meu grande amigo Silvio, irmão do goleiro Sandro: "No creo em bundas, pero que las hay, las hay!".
Mas eu não quero me comprometer e penso ter sido tudo uma alucinação provocada pela alegria da vitória.
Ponho a culpa nos brancos da memória...


3 comentários:

Anônimo disse...

Bom dia !
Êpa ! Um bom campo para pelada ! Precisa de uns cuidados, claro, mas a turma peladeira deveria botar a mão na terra. Pintar as metas... traçar as linhas...
. Não posso falar disso porque, caqui, Rio, a especulação imobiliária é fortíssima, acho, até, pior que em Sampa. Não que a mega cidade não cresça mais que a fluminense, óbvio, mas porque não respeitam mesmo. Só para ter uma ideia, não me lembro de nenhum campinho de futebol por perto donde moro e tenho mais de 100 anos. Posso falar da zona norte carioca onde o pessoal já jogava em ruas de paralelepípedos. Ah, lembrei. O caxinguelê ! 'Esquilo', para nós. No Jardim Botânico. Joguei lá, fiz gol, pau comeu porque vencemos a equipe de lá. Hoje, o J.B. tomou de volta e colocou no lugar uma 'bela' estufa. Vamos a homenagem de menos um campinho de pénabola no Brasil.
. Qual o pobrema, senhor Groo, memória é a história da nossa vida. Aos mais velhos é o que sobra ou ficam mudos. Ou bobões, metidos a moderninhos. Se boa, beleza recordar, se ruim, fortalece, cria 'casca'. Ou seja, como todos nós somos feitos de memórias, boas e ruins, como diz o Tremer, guardá-las-emos. Acho que é mais frase de efeito dizer que algumas pessoas vivem do ou no passado. No dia a dia, não vejo muitas pessoas guardando coisas na cachola. Algumas lembranças e só. Fáceis de serem aturadas por quem as escuta ou de aturarem se ditas por mim... E lá vem uma delas.
. Xi, minhas peladas, o pau comia de vez em quando. Na realidade era futebol de salão. Com eram várias equipes, quem vencia e no segundo jogo seguido empatava continuava na quadra. Meu time era o melhor. Ficamos sábados e mais sábados sem sair. Quando saímos, houve até comemoração. Com aplausos ! But... Queríamos recuperar a quadra. Batalhas, guerra. Mas o futebol é o que mesmo ? Goal, uma das suas traduções, 'alvo'. O jogo é cheio de palavras bélicas. 'Rivelino soltou um balaço'! Sempre tinha(e tem) os pernetas, geralmente, sei lá porque razão, colocados na defesa. Pensando, hoje, lembro de um que perdia gols impossíveis de perder. Pô-los na defesa, dava para ajudá-los quando jogávamos no campo. E,' Dá chutão para cima ! Prá frente ou pro lados ' e ' marca por zona, não tem problema se te driblarem... marca por zona '! Às vezes furavam e eram driblados constantemente mas um companheiro( êpa !), na maioria das vezes, conseguia roubar a bola do driblador fominha... Era o intuito. No salão era mais difícil. A tática era por no ataque.
Continuando...

Anônimo disse...

... e terminando.
. Bem, o meu goleiro era chegado numa maco... maresia. Nome dele guardo até hoje( Jorge) porque num 'society' fomos goleados, coisa rara. Dois dos cinco gols que tomamos frangos horrorosos. Ele era um gato, miau !, elasticidade incrível. Porém, naquele dia, tomou dois gols por cobertura com a bola passando um palmo acima da cabeça. Um, juram, não vi, um balãozinho de merda que teria batido no topo da cabeça dele e quicado, com o sujeito com as próprias mãos atrapalhadas, atrasadas, procurando a bola, na cabeça, e o artefato bélico esportivo no fundo das redes(vi, quicando, devagarinho, até tocar nelas). Fomos lá falar com ele e a constatação, os olhos vermelhinhos. Tomei a iniciativa, de ponta esquerda atacante, 'dá as luvas!', fui pro gol. Ele, o Jorge, ficava zanzando no campo. Não tínhamos reserva. Mas, para 'salvar' aquele dia, adivinha quem fez o segundo gol nosso ? Ele ! HA ! Acho que o efeito do cigarrinho do mal foi passando... 5 a 2 !
. Pô, 'pai fresco' ? Um filho ! coitado do filho dele.
. Minha camisa era vermelha. 14. Alonso ! Não, Cruyff. Meu ídolo número um.
Depois jogamos com uma branca com manga( faixa) e gola verde. Calção ? Tutá de sacanagi... Prá baixo era um festival de cores.
. Meio de campo, um pereba ? Já vi que, se cruzássemos, teu time seria a Sauber da minha Ferrari.
. Bom, nesse quesito, eu, eu mesmo, tive que sair correndo pro mar, aí, numa pelada de praia, areia, mar forte, porque me deu uma cagua.... neira. Fui pro jogo após baita estrogonofe da mama. Era porreta, forte pacas. Caprichava nos condimentos. Naquele momento que não dá mais prá segurar, 'explode coração', esperei todos estarem olhando para a defesa, ataque do time adversário - era atacante - baixou um pouco a vontade e sumi mas, na volta, não teve jeito. Risada geral. Já era tarde, 17 horas, hora do trono, almoçava - almoço - por volta das uma, duas da tarde, fazer o quê, né ?
Lembro, passando feito uma Mercedoca em direção as ondas medonhas e invernais de Copabacana, de um casalzinho se beijando, engalfinhados.
Foi sonho ?



M.C.

Anônimo disse...

Como recordar é bom. Um caso de 'mutilação' imperdoável !
Vale a pena assistir, pelo menos, o início. Todo.
Interessante é a música... guitarras! Ficou mais afeminado e a gente nem deu bola.
Por volta dos 21:50 minutos, há um grito de alguém chamando por alguém. Legal. O áudio deixava passar tudo !
Depois, fica ao gosto do freguês. Ou ir aos poucos, como eu.
Uma pena ver como ficou.

https://www.youtube.com/watch?v=KC1T8-eissw


M.C.