5 de set de 2013

Contos do Le Sanatéur - A valise suspeita

Na Rua 45 a excitação era palpável.
Nenhuma outra vez na história do periódico foram chamados até a sede da prefeitura.
Corria a boca pequena que o jornal era de oposição. Não interessava a quem.
Marcel L´Onça era adepto do dístico espanhol: “-Hay gobierno? Soy contra!”.
Talvez por isto nunca tenha lucrado vendendo espaço para campanhas políticas.

-Ron, Coyote, vocês dois vão até o palácio La Moeda e vão cobrir as agitações lá, diz que o prefeito recebeu uma ameaça. – conta o chefe.
-E só a melhor dupla que tem é capaz de cobrir né? – vangloria-se Coyote.
-Não...
-Não? – espantam-se os dois.
-Claro que não... Vão vocês porque é tudo que tenho aqui.

Os dois saem da redação no velho Studebacker em direção ao palácio de La Moeda.
Coyote limpa as lentes de sua Leica enquanto Ron dirige o carro de forma tensa.
-Você precisa superar isto.
-Tá falando do que?
-Deste trauma de dirigir. Não vai acontecer de novo.
-Pode acontecer sim. Atropelar uma pessoa é sempre possível.
-Quando digo que não vai acontecer, é porque a pessoa que você atropelou fugiu da cidade. Disse que não pode viver no mesmo lugar onde um louco como você tem carteira de habilitação.
-Se ferrou ela...
-Por quê?
-Não tenho habilitação.

Desembarcam em frente ao palácio e Ron joga a chave para um segurança que estava à porta.
O rapaz olha o velho Studebacker e entende exatamente o que fazer: chama o guincho e pede que recolham a lata velha.

Embarcam no velho elevador do prédio. Não há ascensorista.
Descem no décimo segundo andar. A confusão é grande.
Num canto está o prefeito. Ele está apavorado.
No outro, agentes da policia. A cidade não tinha pessoal antibomba. Nunca se soube de uma bomba por lá.
Ron tira umas palavras do prefeito.
-Tem inimigos?
-Todo político bem sucedido tem.
-Disse bem... Políticos bem sucedidos. Mas o que houve de verdade?
-Hoje quando cheguei, havia uma valise preta. Achei que eram documentos e tentei abrir, mas não consegui. Então dei uma chacoalhada e senti um volume se deslocando com um som pesado, grave... e finalmente ouvi um tique taque.
-Interessante... Quem acha que te mandaria uma bomba?
Ao ouvir a palavra bomba um silêncio sepulcral toma conta da sala. Até ali ninguém ousara sequer pensar na possibilidade.
Coyote que fotografava tudo em volta sentiu também o peso da situação.

Os agentes da policia que seguravam a valise a soltam e se afastam rapidamente.
Um deles realmente chegou a correr.
A secretária do prefeito desmaia e Coyote corre para ampará-la. Afinal, era boazuda.
O próprio prefeito dá três passos em direção à porta, mas esbarra em Ron que sorri.
-Tá com medo?
-Você não?
-Perguntei primeiro.
-Se eu disser a verdade você também diz?
-Digo.
-Tô sim.
-Bundão...

Ron vai até a valise e chama Coyote.
-Segura aqui que vou abrir.
-Tá...
Com um canivete suíço comprado de um contrabandista boliviano a tranca finalmente cede.
Os agentes da policia ao verem a valise aberta correm como loucos para o elevador.
A secretária tem outro desmaio. Desta vez Coyote não a ampara. Apenas contém o próprio riso. Ron também ri.

O prefeito se aproxima da valise e observa o conteúdo.
-Mas que raio é isto? – pergunta.
-Um relógio... Um despertador, para ser mais exato. – gargalha Coyote.
-Ao lado do relógio.
-Me parece um... Um... – e Ron não consegue dizer
-Mas... É um troço! É um cocô!  - espanta-se o mandatário.
-Pelo tamanho eu diria que é um cagalhão! Um enorme cagalhão! – e Ron gargalha mais.

No dia seguinte o Le Sanateur exibe fotos de toda situação avisa na manchete: Não leiam à mesa do café.
Nas ruas o burburinho era de que o povo entendera o lembrete de que a administração a toda hora só faz merda...

Mais uma parceria com Anselmo Coiote, o fotografo das estrelas.

6 comentários:

regi nat rock disse...

OLha Groo, além do escritorio da rua 45, (cidade moderna usa numerais pras ruas e avenidas né? ) tem também um escritorio na rua 13, na rua 51, vish as ruas são muitas. Só não entendi porque também não receberam maletas parecidas, ou então, receberam e levaram pra bem longe, vai saber. Tem muita gente que coleciona com volúpia , cagalhões e despertadores...

Marcelonso disse...

Groo,

Leitura deliciosa. Como sempre um conto de primeira linha. Volto a dizer, Le Sanateur merece um livro!

Parabéns aos dois.

Ah sim, essa é uma frase que sempre uso - Hay Gobierno? Soy contra!

abs

Rubs Cascata disse...

Sei não. Não sei mesmo.
Com todo respeito ao Le Sanatéur, outras interpretações são possíveis.
Eu aposto, e talvez o prefeito concorde, que a obrada relógio foi endereçada ao fotógrafo, justamente para ser fotografada.
E talvez a mensagem seja essa: "mesmo que seja uma merda, a melhor coisa que alguém pode oferecer é o próprio tempo".
Abs.

Anselmo Coyote disse...

O fotógrafo agradece mas nem vai responder a esse roncolho.
Abs.

Rubs Cascata disse...

Coyote, compre um caminhão e vá levar ferro na Volta Redonda.

Anselmo Coyote disse...

Rubs, vc é um velhouco.