Conto de ano novo - On the road.

-Anselmo, para o carro.
-Mas de novo doutora?
-Anselmo, por favor, para o carro.
-Acho melhor parar Coyote, não vai contrariar, vai?
-Claro que não Ron, mas já paramos o carro um monte de vezes. Para comer, ir ao banheiro, comprar souvenir... Assim que horas vamos chegar?
-Viu Anselmo, o Ron pelo menos entende o lado feminino.
-Entende nada doutora, ele quer ir de novo ao banheiro também. Parece mulher...
-Ah Anselmo! Dá um desconto. Ce tá ranzinza.
-Mas Vall... Assim não vamos conseguir chegar à Califórnia antes da noite de ano novo. Com a doutora Remédios pedindo pra parar a cada duas horas e o doido do seu noivo apoiando... Assim só vamos chegar lá na páscoa.
-Larga de ser exagerado... Seu exagero só é compatível com o teu talento fotográfico.
-Não puxa o saco, Ron... Eu paro o carro.

Ron e Anselmo convenceram Marcel L´Onça a deixá-los fazer uma matéria para o Le Sanatéur na Califórnia. Sem especificar o que exatamente.
O chefe até desconfiou que não houvesse nada a ser coberto nesta época do ano e que os dois queriam mesmo era aproveitar os últimos dias do ano sob o sol californiano.
Sentiu uma pontinha de inveja, mas entendeu e os liberou. Afinal a Rua 45 estava sob uma camada de mais de dez centímetros de neve.
Um frio de congelar urina de cachorro em poste.
“-Quem dera eu pudesse ir também pra Califórnia, e ainda tão bem acompanhado...” – pensou o editor. Iriam com a doutora Remédios e Vall, paixão antiga e recolhida de Ron.

Por conta de atrasos – quase normais em se tratando de Ron – perderam muito tempo tentando sair de NY. E as setenta e duas horas necessárias para cruzar o país do Atlântico ao Pacífico caíram para quarenta e oito.
Porém com as paradas exigidas pelas meninas – com o apoio do repórter – as quarenta e oito acabaram se tornando 38, ou seja: humanamente impossível.
Mas a intrépida trupe não desistiria enquanto pudesse pisar fundo no acelerador do velho Studebacker de Anselmo.

-Sejam rápidas garotas... Temos pouco tempo e não demora cair a noite.
-Tá... É rapidinho... A gente só vai até o toillete... – disse Vall.
-Ron... Ce também vai ao toillete? – quis sacanear Anselmo.
-Não... Não... eu vou mijar mesmo... Acho que você deveria vir também.
Depois de alguns minutos Ron volta. As garotas não.
-Pô! Que demora... Que elas ficam fazendo no banheiro?
-Sei lá... Reparou que mulheres vão sempre juntas ao banheiro?
-É, eu reparei... Onde cê conheceu a Vall?
-Ah! Faz tempo... Ela é a editora chefe da Carnival & Clothes...
-A revista de moda?
-É...
-Você lê revista de moda?
-Não...
-Espera ai... Eu vi na sua mesa umas laudas de papel com uns textos meio afeminados... Ce escreveu para aquela revista?
-Errr... Só um pouquinho.
-Putz... Adeus Pulitzer... Hahahaha.

Finalmente elas voltam. Embarcam no carro e conseguem percorrer mais trezentos e vinte quilômetros sem parar. Ao entrar no estado do Texas o velho Studebaker começa a dar sinais de cansaço e são obrigados a diminuir a velocidade. Drasticamente.
O motor morre quando só faltavam algumas horas para a virada do ano. Não era de se espantar, sempre fez só o que quis mesmo...
Felizmente, bem em frente a um bar na beira da estrada. Ao menos não passariam o reveillon perdidos no meio do nada. Saltam do carro, parecem frustrados.
Entram no bar e Anselmo pede para usar o telefone enquanto Ron e as meninas vão até o balcão conseguir umas cervejas.
No balcão enormes bolos cobertos com creme e cerejas, como só ouviram falar que existia no Texas. Ainda duvidavam.
De repente um enorme cowboy entra no bar dando uma imensa gargalhada. Tão grande que parece ecoar por todo o deserto lá fora.
Espantados os três se entreolham e agora tinham a certeza: estão no Texas.
-E ai Anselmo? Ligou pra seguradora?
-Que seguradora? Liguei foi pro Frank, o mecânico. Ele vem buscar a gente. Vamos ter de voltar... E o pior: sem passar por Cadillac Ranch. -Fica triste não. A gente ao menos se divertiu vindo até aqui. Não foi Vall?
-Foi... Lembra daquele bêbado tentando fisgar uma azeitona com um palito de dentes, Remédios?
-Claro... O sujeito lá todo enrolado... Tentando por vários minutos e nada de conseguir.
-Hahahaha... Era a única azeitona do prato e toda vez que o cara tentava espetar ela escapava para o lado...
-Então o Ron foi até ele, pegou um palito e espetou na primeira... Ainda olhou pro cara e disse: “-Tá vendo? Sóbrio é mais fácil.”.
-E o cara olhando para ele com a cara mais séria do mundo: “-Agora estava fácil... Ela estava cansada já.”.
-E aquele outro falando numa língua estranha e pedindo uns trocados... A gente ficou pensando que ele era refugiado, sei lá...
-Mas quando o Anselmo deu a ele umas moedas ele agradeceu em bom e correto inglês.

Ao sair do bar, sem nada para fazer, Anselmo repara em um rapaz sentado à porta com um violão.
-Hei rapaz... Toca algo ai... – pede Anselmo.
-Sim, claro... – responde.
-Este sotaque, não me é estranho... Você é brasileiro? – observa Ron.
-Sou... Carioca.
-Bacana! Qual seu nome? E o que faz aqui? Além de tocar violão, claro.
-Marcos... Marcos Antonio. Sou poeta. Estou esperando uma carona para NY, mas nem sei pra que lado fica...
-Legal... Nós viemos de lá, mas nosso carro quebrou e vamos ter de voltar. Quando o nosso mecânico chegar pra nos levar de volta, quer ir junto? Trabalhamos em um jornal... Nada muito grande, mas um jornal.
-E eu posso?
-Mas é claro! Não pode Anselmo?
-Pode sim... No Sanatéur tem sempre lugar pra mais um louco... E, cara... Deixar o Brasil pra vir tocar violão na porta de um bar no meio do nada no Texas... Só louco.

Remédios e Vall saem do bar para encontrar Ron e Anselmo.
Cervejas nas mãos e erguem um brinde quando os ponteiros do relógio marcam exatamente meia noite.
Enquanto Anselmo e Remédios se abraçam ternamente desejando-se feliz ano novo, Ron e Vall trocam beijos apaixonados.
No céu não há fogos de artifício, nem lua, apenas estrelas iluminam aquela imensidão.
E quantas são! Nunca viram tantas.
Ao violão - um tanto desafinado - e puxando os “esses” na letra, o novo contratado do Le Sanatéur executa – literalmente – uma canção, que anos mais tarde Bob Dylan batizaria de Forever Young.


Conto feito à quatro mãos com meu parceiro nas aventuras da Tales of 45street: Anselmo Coyote.

Desejo a todos que acompanharam este humilde espaço um feliz ano novo, cheio de tudo aquilo que a gente sempre deseja a quem gostamos nesta época do ano. Mas com o diferencial de ser do fundo do coração. Até janeiro de 2010.

Comentários

Marcelonso disse…
Groo,

Eu sabia que tinha "caraço nesse angu",esse história de California...
Mas como diria Raulzito "Eu queria mesmo era ir com vocês..."

Excelente o conto,quando estou lendo sinto que estou vendo tudo,é como se estivesse lá com vcs!


Que o ano que aproxima seja pleno de realizações,com muita saúde e sempre com Deus no coração.

Grande abraço e um Feliz Ano Novo a todos!
Net Esportes disse…
Eu fico pensando, será que isso realmente aconteceu ou você queria muito que acontecesse ?? !!!!!!!!!!!!!!!!

Feliz Ano Novo pra vc tb Groo, grande abraço .....
Forest Groo Gump e suas estórias hahahahaha, maravilha de conto como sempre amigão um 2010 literalmenet feliz para você que tudo o que vc planejou e não deu certo possa ser realizado em 2010, e o ano novo vos traga saúde PEACE AND LOVE FOREVER \\ // ...

abs. e te vejo em 2010!
Manu disse…
Feliz ano novo Groo!
Que 2010 seja um bom ano p/ todos nós!^^

abs!
Unknown disse…
Groo,
Um ótimo 2010 para você, nem preciso falar ótimo conto e divertido.

Abraços
Teté M. Jorge disse…
AHAHAHAHA

Ron... e você conseguiu pegar mais alguma azeitona?

FELIZ 2010 pra você, pra Vall e pra todos que frequentam esse lugar espetacular.

Beijos e flores.
Remédios a bela disse…
Quanta honra foi a minha de ter participado desta maravilhosa aventura. Eu nem vou ao banheiro tanto assim....só de vez em quando para retocar a maquiagem. Rsrsrs...
Espero que no próximo ano possamos viajar por toda Paris e teremos que ir num carro que não quebre. rsrsrs
Que tenhamos um excelente 2010. Cheio de realizações. A todos que participam deste blog, desejo felicidades e muita saúde.
Groo, Val e pequenininos, que Deus os abençõe sempre.
Coyote, que neste ano de 2010, você aceite meu pedido de casamento. rsrsrs. Brincadeirinha.
Abraços a todos.
Unknown disse…
Obrigada amor pelo carinho...
Que sonho seria se fosse verdade e não só sua insuperável imaginação.
Te amo muito, e que este ano que se inicia seja o ano de nossas conquistas. Nossa família é linda e abençoada de amor. Estarei ao teu lado por pelo menos mais infinitos novos anos, te amando e te apoiando sempre. Vamos brindar o nascimento de 2010, e vamos começar o ano acreditando que nossos sonhos vão ser reais.
Te amo mais que para sempre.
quando crescer quero passear em sua pena...
que passeio!!!

que 2.010 dê de 10 em 09...
Anselmo Coyote disse…
Nossa, Remédios...
O charme de Paris tem tudo a ver com o Studebaker. Vou consertá-lo e a viagem vai ser maravilhosa desta vez.
Vou despachá-lo de navio na frente e nós vamos depois... rsrs.
Feliz Ano Novo a todos.
Abs.
Jonny'O disse…
Fantástico !

Grande 2010 groo!
Tohmé disse…
Aonde será que estes textos vão parar????

Acho que um dia entrega todo mundo....he,he

Grande 2010 para todos.
Felipão disse…
huahuahuahuha

Marcel'onça.... HHAHAHAHAHAHA

Ron, queria desejar a vc, a Vall, ao Coyote e a todos os leitores um feliz 2010, com muita saúde, paz, felicidade, sucesso...

Abração
Olha a galera do Le Sanatéur aí...hahahahhaa. Em 2010 os Loucos estarão na ativa novamente com mais aventuras...rsrsrs.

Groo, um Feliz 2010 para você e toda sua família. Muita saúde, paz e bençãos neste novo ano que inicia.

Abração!
Marcos Antônio disse…
hahahahaha ótimo cara! fiquei muito feliz em estar no conto de ano novo! e tocando bob dylan com violão desafinado e puxando muito o "S"...rsrsrsrs

excepcional cara, td de bom pra vc em 2010!
Anselmo Coyote disse…
Obrigado, Remédios e Felipão.
Feliz Ano Novo a todos os tripulantes desta nave, digo, blog maluco mas tão criativamente pilotado pelo mestre Groo.
Abraços.