10 de fev de 2010

A falta que a beleza faz...

Para Pena Branca, que foi encontrar o Xavantinho...
A papeleta fixada no quadro de avisos do supermercado dizia: precisamos de um violonista.
Muitos apareceram com seus instrumentos e uma fila se formou à frente da casa que o grupo usava para ensaiar.
Muitos foram testados.
-Quanto tempo cê toca? – perguntou um deles.
-Faz tempo... – respondeu o candidato.
-Toca ai pra gente então. – pediu o outro.
-Ce quer ouvir o que? – quis saber o violonista.
-Fica a vontade... – disseram os dois.
-Bom... Sendo esta uma audiência com dois jovens, vou tocar um rock...
E tocou bem – diga-se de passagem – mas os dois examinadores pareciam incomodados.
-Valeu... Seu nome é? – perguntou um deles.
E o candidato disse o nome ainda que ninguém prestasse atenção.
-Vamos testar mais alguns e decidir. A gente te liga... – disse o outro.
O rapaz pegou seu violão e saiu. Nem percebeu que nenhum dos dois havia lhe pedido um numero de telefone que fosse.
-Não é este... – disse um deles.
-Não emocionou, faltou algo. – disse o outro.
E assim foram sendo ouvidos, um a um, todos os vinte que apareceram.
Um melhor que outro. Cada qual mais técnico e preciso em seus estilos.
-Algo ainda não tá bom... Vamos tomar umas pingas no bar. – disse um deles.
-Para clarear as idéias e a urina... – disse o outro.
E foram os dois ao boteco mais próximo.
-Vai levar o violão? – perguntou um deles.
-Vou... Não existe companheiro melhor para uma pinga num boteco. – respondeu o outro.

Ao entrarem no bar, que todos ali conheciam como “venda”, o vendeiro logo destampou uma garrafa com ervas dentro e serviu dela para os dois, que tomaram suas doses em um só trago.
À porta da venda um senhor que estava sentado fumando um cigarro sossegadamente ergue os olhos.
-É uma viola isto que ocê tem ai? - perguntou.
-É um primo.... Um violão. – lhe sorriu um deles.
-Eu posso toca? – lhe sorriu de volta o homem que fumava. E o sorriso foi tão sincero e agradável que o outro lhe cedeu o violão.
Ao pegar sopesou o instrumento, pousou sobre o joelho e suavemente tangeu as cordas enchendo o ar, o ambiente de uma luz que não se vê sempre. Uma luz resplandecente que muitos chamam simplesmente de beleza.
E cantou:

A tua saudade corta
Como aço de navaia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
Os óio se enche d`água
Que até a vista se atrapaia, ai, ai, ai

Ao terminar, após haver encantado todos em volta devolveu o violão ao outro.
-Viola boa... Brigado. – e levantou-se indo embora.
-Um destes não nos aparece. – disse um deles.
-Um destes não aparece sempre, um a cada cem anos se muito! – disse o outro.
Tomaram uma dose a mais cada e voltaram para a lida, que infelizmente prossegue.

6 comentários:

oliver disse...

Pois é, Ron.

Uma partida que não é só física.

Com ela vai um pouco da nossa cultura, da nossa terra.

Mesmo quem não gosta do estilo há de perceber que as baixas são irrecuperáveis.

Só falta agora o McDonalds vender pão de queijo com queijo cheddar.

Edson Sibila disse...

Groo, tudo bem....Parece mentira, mas.....

Ainda ontem estava comentando com um colega aqui da redação sobre a morte do Pena Branca.

Lembrei que dois anos atras estava baixando musicas na net quando pedi Cuitelinho, pois lebrava do Milton cantando.

Apareceu uma versão do Pena Branca e Xavantinho. Na hora estranhei, pois jamais imaginaria que uma dupla "caipira" pudesse cantar essa musica de forma que fosse apenas aceitável.....

Assim que começei a ouvir, meus olhos se encheram dàgua. Coisa que voltou a acontecer agora ao ouvir de novo no seu blog, onde entrei procurando as fotos do novo RB6 (Coisa que vc ainda não fez).

SIMPLESMENTE BELO

Parabéns

Edson Sibila


Simplesmento "BELO"

Felipão disse...

dizer o que depois de um texto como esse???

so me resta aplaudir...

Marcelonso disse...

Groo,

Lá se vai um pedaço da cultura brasileira.

Anselmo Coyote disse...

Groo,

- Alô
- Alô, é o Sérgio (Reis)?
- Sim, pois não
- Bão demais, mano véio? Aqui é o Pena
- Ôooo... Pena, como vai sô
- Um caquinho, mas levando
- Ô Sérgio,
- Fala
- Me ligaram aqui falando que eu ganhei um tal de grames... cê sabe o que é isso? isso é bom?
- Pelo amor de Deus, passo-preto... isso é fantástico!...

Um grande amigo me disse que foi assim que o Pena soube da importância do Grammy da música que ganhou.

Abs.

Maximo disse...

Belo texto. Grande figura.