20 de mar de 2010

Senna, 50 anos neste domingo.

Quando comecei o blog, este foi um dos primeiros textos originais que publiquei, fica aqui re-publicado como homenagem aos cinquenta anos que Ayrton Senna faria neste dia 21, se estivesse vivo.

Naquele dia dez de Outubro de 2006, Senna acordou mais cedo do que costumava acordar aos domingos. Afinal era dia de Gp Brasil de F1, e mesmo aposentado desde 1995 quando desiludido com a fragilidade dos carros Williams resolveu que era hora de parar.

Havia perdido dois campeonatos, 94 e 95 para um alemão até então desconhecido que pilotava um carro com nome de grife de roupas, mas que se revelara um excepcional piloto ganhando o mundial sete vezes, sendo cinco seguidas, ele já se sentia deslocado no circo.

Os rivais já não eram tão desafiantes, já não havia mais Prost, Mansell, e pior: Piquet já havia parado, 0 que impossibilitava Senna de dar o troco daquela ultrapassagem que tomara na Hungria em 86.
Em suma já não tinha tanta graça.

Mas acompanhava a F1 de casa, em Tatuí onde ficava a sede de suas auto-escolas que se espalhavam em filiais e franquias por quase todo o estado de S. Paulo.
Dos antigos amigos mantinha contato com Berger, com Barrichello. Atendia sempre que podia ao Reginaldo Leme e até quando não podia a Luiz Fernando Ramos, o Ico.
Respondia aos e-mails de Eduardo Correa e vez por outra mandava suas colaborações ao site Gptotal.

Só guiar é que não fazia mais.
Escapara ileso do acidente na Tamburello em 94 e continuou o campeonato com garra e coragem. Ouviu de Prost um sincero:
“-Se fosse comigo eu parava no dia seguinte e nunca mais entrava num carro na minha vida...”.
E de Piquet um irônico:
“-P... tinha de ser na mesma curva que eu?”.

Naquela manha sentou-se em frente ao enorme aparelho de TV de sua sala de estar cercou-se de muitos quilos de salgadinhos, batatas fritas e outros venenos comestíveis; um punhado de latas de cerveja, afinal ele também era filho de Deus - e não Deus, como queriam crer alguns fãs - e gritou para sua esposa que estava por perto.
“–Benhê, não me incomoda agora não que vai começar a transmissão da corrida...!”
E ela respondeu meio que alienadamente:
“-Mas de novo Ayrton... Você vê corrida todos os fins de semana... É formula 1; é A1Gp; é formula Indy; é Formula mundial; é cart e até o super-classicos você assiste... Assim não agüento...”.
“-Mas amor, a velocidade está no sangue...”.
“-Ayrton... os super-classicos nem correm muito.”
“-Benzinho... mas tem uns carrinhos lindos e até alguns bons pilotos...”.
“-Desisto, fica ai com este ronco de motor na orelha, vai...”.
E ele assiste tudo...
Os treinos livres da manhã, o warm up, os especiais antes da prova, e finalmente a largada.
Viu Felipe Massa disparar na frente tomar a ponta e não mais perder até a bandeirada final, como ele mesmo cansou de fazer quando corria pelo mundo afora.
A briga principal era entre o alemão e um espanhol, então atual campeão mundial que lutava pelo bi.
O alemão vencera em Monza e lá mesmo anunciara sua aposentadoria e agora precisava vencer o GP Brasil e torcer para que o espanhol não pontuasse...
O carro do espanhol era um foguete, mas, o alemão era o alemão. Então...

Largou em décimo, em poucas voltas já era o quinto, furou um pneu quando ultrapassou o italiano companheiro de equipe do espanhol. Caiu pra ultimo... Veio se recuperando, passando um por um.
Senna não piscava, passou por Barrichello.
Senna não mais mastigava.
Mais uma ultrapassagem. Senna dava outro gole na cerveja de olhos arregalados.
No fim da reta de largada na entrada do ‘s’ que leva o nome do brasileiro o alemão encosta no muro, se espreme todo e da um come num finlandês que faz Senna jogar salgadinhos e cerveja para o alto e gritar. “-É gênio, troca o nome deste ‘s’ pra “S de Schumacher!”.

Quando acabou corrida e o hino nacional foi ouvido o alemão não estava no pódio, mas nem precisava estar.
Chegou em quarto, ofuscando o titulo do espanhol.
No sofá emocionado ainda ouviu o alemão dizer que estava feliz por ter sido Felipe Massa o primeiro brasileiro a vencer no Brasil depois de Senna.
Então Senna ergueu sua lata de cerveja em tom solene e saudou o alemão:
“-Este é do c...”.

20 comentários:

Marcelonso disse...

Groo,


Belo texto,um Ayrton bem diferente daquele imaginado por tantos.

abraço

Daniel Gomes disse...

Hehe, impossível imaginar o Senna entre cervejas e salgadinhos.

Mais impossível ainda é ver um texto de Ron Groo chamando Barrichello de... Barrichello?!?

Speeder_76 disse...

Esse já é um clássico, Ron. Que vale sempre a pena ler.

Remédios a bela disse...

Piquet sempre irreverente. Rsrsrs. Imaginar Sena assim é bom demais. Esta corrida relatada foi uma das melhores que pude assistir, lembrando que não sou do tempo do Senna e nem do Piquet, Schumacher é meu ídolo, por esta corrida e tantos feitos na F1 que não vi ninguém fazer igual ou parecido.
Que delicia de texto Groo. Parabéns...Vc tem talento de sobra. Acho até que você esta qrendo ser o Schumacher das penas.
ABRAÇOS....

Alysson Prado "Balo" disse...

Emocionante, o seu universo paralelo é convincente, embora em vida Senna seguia a linha "Boa Forma", mas vc soube escolher bem os elementos da narrativa e a estética final ficou primordiosa, tomara que descubram esse texto e ele seja divulgado pela grande mídia.

Parabéns ao SENNA e ao Groo por ter criads CENAS, das quais não imaginaríamos acontecerem com o SENNA!

abs.

Alysson Prado "Balo"

oliver disse...

QUE BELEZA, Ron.

Anselmo Coyote disse...

Remédios,
Assino embaixo, em cima... assino tudo.
Abs.

Francisco J.Pellegrino disse...

Ótimo como sempre...excelente texto.

Remédios a bela disse...

Que bom Coyote. Andei sentindo sua falta aqui no blog.
Falando nisto vc viu o Kobayote na corrida? Pena que ele não tem um carro decente.
Beijos...

Joel Marcos Cesetti disse...

Boa Groo, Ótimo e perfeito.

Amelhor forma de lembrar o nosso campeão.


abs

Anselmo Coyote disse...

Uau... Remédios!!!
Tb tava sentindo sua falta.
O Kobayote ainda vai decolar... mas com aquele chumbo no pé vai demorar um pouco. Mas, aguarde... qualquer dia desses ele nos surpreenderá.
Abs.

F-1 A.L.C. disse...

confeso que fiquei absorto na leitura, focado nesse pequeno mundo de batata frita controle remoto e cerveja que você desenhou

tá ahi um Senna humano, real, palpável (para de pensar sacanagem, groo!)que eu gostaria de ter conhecido. groo, este é o segundo melhor texto que já li neste blogs, depois daquele da primeira corrida, e entra para o teu top ten.

Anderson Nascimento disse...

Muito boa a história! Que bom se tudo isso fosse verdade! Abraço, Groo!

Gustavo disse...

Groo sempre com textos de qualidade primeira vez que leio este post e gostei bastante, parabens.
hoje Devia ser feriado no brasil, em homenagem ao ayrton.
eterno ayrton senna

Gustavo Coelho disse...

Uma homenagem bem ao seu estilo, Groo. Já conhecia o texto, mas foi divertido ler de novo. Grande abraço!

Marcos Antônio Filho disse...

grande texto, e faço coro ao Speeder, já é classico. Assim como seu texto da ultrapassagem do Piquet no Senna em Hungaroring...

Gil disse...

Acho que já comentei quando vc postou esse texto antes, mas acho que o fator que menos teria chance de acontecer aí era o casamento dele com essa que vc mencionou aí. Bjs

Teca disse...

Ah...que bacana... re-vivendo...

...saudade... :(

Beijos,Ron.

Gustavo disse...

Muito bacana, show!

Felipão disse...

Uma de suas obras primas, Ron...