Cinema para os ouvidos - ou - Valeu Lou

A RCA estava exultante com os resultados de Transformer e não via a hora de poder colocar nas lojas um novo trabalho de Lou Reed.
Para Lou, o sucesso comercial era algo quase inédito, já que sua banda original – Velvet Underground – influenciara muita gente, mas vendera bem pouco.
Só que Reed era inquieto demais para se acomodar com o sucesso e com o estrelato e a obra que engendrou depois de Transformer era algo perturbador: Berlin.

Denso, brutal, difícil de digerir e definido tanto por Lou quando pelo produtor Bob Erzin como “cinema para os ouvidos”, o disco era a crônica do fim do relacionamento de um casal americano, Caroline e Jim, que vive na cidade alemã dividida.
As canções – todas interligadas - falam de infidelidade, drogas, violência e por fim o suicídio de Caroline que Jim, indiferente, se recusa a chorar na última faixa, a sombria, triste e bela Sad Song.

Bob, que logo após terminar o disco viajou para o Canadá para – segundo ele – “exorcizar o peso triste do disco”, montou um roteiro para as faixas com orquestrações a fim de que se assemelhassem a movimentos sinfônicos.
Porém o publico, principalmente o que havia consumido Transformers, não estava preparado para tudo aquilo que Berlin trazia e representava.
O disco foi um retumbante fracasso, mas assim como a banda seminal de Lou, influenciou um tempo depois toda uma cena de bandas com trabalhos depressivos que tem como expoente máximo o Joy Division de Ian Curtis.

Só por este trabalho, Lou já merece seu lugar no panteão dos grandes do rock, mas há muito mais. Quem procurar e ouvir com atenção, vai se apaixonar.
Lou Reed se foi, mas fica sua obra, o que não é pouco: New York; Songs For Drella feito em homenagem a Andy Warhol; o também sombrio Magic and Loss; Coney Island Baby e os discos com o Velvet são só uma amostra.
Valeu Lou, valeu.

Comentários

Rubs Cascata disse…
Ele representam mais a cultura da 'heroína' (a qual é uma cultura mais sinistra, neurótica e niilista) do que a cultura do LSD (que é bucólica, sonhadora, utopista). Velvet Underground escarafunchou as vielas estreitas das piores partes da cidade e vasculhou o subconsciente do garoto urbano em busca de migalhas que eram sub-produto bárbaro do original espírito do rock'n'roll. A sua reprodução sonora da experiência psicodelica foi somente um objetivo marginal. Seu propósito foi promover um documentário do humor decadente, rebelde e cínico que se esparramava pela intelligentsia. Eles não foram hippies: foram músicos elitistas que estavam conscientes da vanguarda dos movimentos. Começaram tocando em 1965 como parte do show multimídia de Andy Warhol: "The Exploding Plastic Inevitable".
Eles (Velvet Underground & Lou Reed) originaram a corrente "pessimista" da música psicodélica (em oposição à vertente otimista de São Francisco). Velvet Underground provavelmente permanece sendo a banda mais influente da história do rock. Acima de todo o restante, eles originaram um espírito de fazer música (independente, niilista, subversiva) que, dez anos mais tarde, seria rotulado "punk". O rock atual nasceu no dia em que Velvet Underground entrou pela primeira vez num estúdio de gravação."
Piero Scarouff, "History of Rock Music".

Diante daquilo que diz tudo, é melhor calar.
Abs.
Ron Groo disse…
Sensacional Rubs. Se puder, procura um outro texto aqui no blog chamado: Os vermes da grande maçã. sobre o Velvet.