20 de jan de 2015

O pior pesadelo

-Então é pra cá que a gente vem quando morre?
-Não, na verdade não... Você não morreu ainda, o paramédico está tentando te reanimar.
-Então?
-Bem... Deixa eu explicar...

Gildo tinha acordado pela manhã e como sempre nas Segundas-feiras estava atrasado.
Pegou a roupa em cima de uma pilha que estava dobrada, se vestiu às pressas e saiu correndo.
Ao chegar ao ponto de ônibus lembrou-se de checar algo que lhe amedrontava: que roupa íntima estava vestindo.
Em seus piores pesadelos era atropelado e quando chegava ao hospital, para que lhe fizessem curativos lhe tiravam as roupas e descobriam que ele estava de calcinha e não de cueca.
Geralmente acordava aos berros, transpirando litros e tinha de ser acalmado por sua esposa.
A paranoia era tanta que sua gaveta de cuecas ficava em uma cômoda separada do guarda roupas do casal.
Naquele dia, estava tudo em ordem. Até freada tinha.

-Quando se morre sem resolver algum assunto na Terra, vem para cá: o limbo.
-E como sai daqui?
-De duas, uma. Volta e resolve lá ou fica aqui pra sempre. Mas tem que decidir logo, se não o médico lá desiste e te dão por perdido.
-Então tem como voltar?
-Tem, mas esbarra nesta burocracia.
-Burocracia... Pensei que isso era coisa do inferno.
-Não pô... Pra ir pro inferno é direto. Sem escalas.
-Mas eu não tinha nada pra resolver.
-Tinha sim... Tinha que enfrentar seu medo.
-O que? Ser atropelado? Eu fui, oras...
-Mas não estava de calcinha. – e contém o riso.
-Mas nem! Eu sou muito macho.
-Bom... É o seguinte...
-Diz.
-Tem que decidir agora. Vai...
-Eu fico aqui.
- Pensa bem... Não vai ver ninguém, não vai falar com ninguém depois de eu sumir. Aqui não tem cerveja, não tem futebol, não tem mulher, não tem rock, não tem nada...
 -Hum... É. Bem chato.
-Pois é. Então volta e...
-Não.
-Deixa eu terminar... Você volta até a manhã antes do fato... Vai ser atropelado, tudo de novo, mas vai resistir e viver por mais algum tempo.
-E você pode fazer isto? Você é Deus?
-Chame como quiser... E então? O que decide?
-Quanto tempo?
-Se interessou heim? Mas o tempo eu não vou dizer.
-Hum... Não... Nem ferrando. Já disse, sou macho.
-Eu já te disse que todas as suas vontades e angustias vão continuar com você aqui?
-Ah é?
-É... Isto aqui pode ser pior que o inferno viu...
-Bem... Eu vou pensar e...
-Pensar nada... Tem que resolver agora, to vendo na tela do computador aqui que o paramédico ta quase desistindo.
-Tá bom, eu volto.
-Ok... Vai, vai, vai...

E então Gildo acorda. Como sempre nas segundas está atrasado.
Levanta-se às pressas, pega sua roupa em uma pilha que estava dobrada, para em frente à gaveta de roupas de sua esposa e sente uma vontade enorme de vestir uma de suas calcinhas.
Olha para os lados como se verificando se não há ninguém vendo e escolhe uma preta. Na verdade apenas dois fiozinhos. Um na cintura segurando o tapa-esfiha e outro atrás.
Veste e logo coloca a calça jeans por cima. Coloca a camisa, os sapatos e corre para o ponto de ônibus.
Nem sequer chega a atravessar a rua. Um Corcel amarelo o atinge e o arrasta por um bom trecho da rua.
Alguns minutos depois chega a ambulância e a primeira providencia do paramédico e lhe tirar os frangalhos de roupa que lhe cobriam os machucados e dificultava o atendimento.
Profissional, não comenta e nem sequer internamente ri, mas infelizmente, não consegue reanimar Gildo.
No velório não havia outra conversa que não fosse a calcinha. Se estivesse vivo, morreria de vergonha.

Então chega ao limbo e encontra o mesmo ser que lhe havia feito a proposta de volta e este, com um sorriso mofino e sacana diz:
-Com tanta calcinha enorme na gaveta você tinha que pegar logo aquela?
-Não vem não, você me enganou, disse que eu resistiria. Me enganou...
-Mas você também não foi sincero. Por isto está aqui.
-Como não? Sempre disse que morria de medo, tinha pesadelos até, de morrer e estar com uma calcinha.
-Disto eu não duvidei, nunca, mas ficou aqui se dizendo machão e tal... Fio dental Gildo? Logo fio dental?

6 comentários:

Rubs Cascata disse...

Uai, esse conto já foi postado? Li algo parecido?
Que coisa, Siô! O Gildo foi seu próprio juiz, não foi?
Muito sugestivo.
Mas escarnecer de coisa séria anda sendo perigoso hoje em dia. Eu evito. Experiência de quase-morte é algo bem documentado, embora as causas suscitem as mais encarniçadas disputas.
Eu mesmo já passei por uma experiência dessas, ao mesmo tempo, numinosa, esperançosa e terrível. Foi logo após ter caído de uma Yamaha 350 "matadora" a 140 p/h.
Despertei delirante e, após passar por um túnel escuro e ver algumas formas geométricas estroboscópicas, que giravam em espiral, vir luzes fortíssimas e seres brilhantes muito alvos.
Com dificuldade, discerni-lhes as silhuetas com mais nitidez e arrisquei informar-me, de vez, acerca de minha situação:
– Irmãos, em tudo vos vejo alvos e puros. Podeis me dizer em que plano eu estou???
Alguém que examinava minhas pupilas respondeu de pronto:
– O Sr. está no plano básico da Unimed e isso aqui é uma enfermaria. Se quiser migrar de plano, vai ter de pagar a diferença...
Bem, eu aprendi a lição e sei que cada um está no plano que quis ou que mereceu. E quem, merecendo ou não, não está em plano nenhum, não volta. Para esses, a experiência de quase-morte termina na morte.
Tomara que voltem para assombrar os culpados.
Abs.

regi nat rock disse...

ahahahahah
Pegou pesado hein Groo ? muito bom....

Ron Groo disse...

Foi postado sim Sô Rubs, faz bastante tempo já.

Magnum disse...

Já que é pra contar piada tem aquela do cara que morre e descobre que existem vários infernos. Um de cada país. E já que é pra ir pro inferno, então que seja pro melhor. Ele vai direto pro inferno dos Estados Unidos e estranha que não tem nem fila pra entrar. Acha que a coisa parece meio devagar por lá e dá uma olhadinha no inferno do Japão. Também nada, nenhuma fila, ninguém querendo entrar lá. Olha de vários países, todos assim. Daí vê o do Brasil. Fila de dar várias voltas no quarteirão. Ele pergunta pra alguém porque o inferno do Brasil faz esse sucesso todo e recebe a explicação: É que lá o forno tá com defeito, pau de arara está em falta e o torturador bate o cartão e vai embora pra casa descansar.

Anselmo Coyote disse...

Esse Rubs é um mentiroso contumaz. Nem ligo. Coisa de velhouco... Espia só... luzes estrombóticas, túnel, númen, espirais luminosas. E ele chama isso de quase morte. Ora, quase morte em Las Vegas né, depois de encher a cara com finlandesas peitudas.
Velhouco.
Abs.
PS. Pobre Gildo.

Marcelonso disse...

Groo,

Estamos com saudades dos Contos do Le Sanatéur.

abs