17 de abr de 2015

Fiúque?

E o fim da tarde chega encontrando toda a fauna que frequenta o boteco do Canário reunida em torno de mesas devidamente cobertas de cervejas.
Andrade, Dito, o ex-prefeito, Márvio e até Anízio, o homem das funerárias. 
As conversas variavam do tradicional futebol e política municipal até os também tradicionais pitacos sobre a mulherada que por ventura passa-se pela porta do boteco.
-Cê viu o jogo?
-Vi... Foi impedimento. O gol não valeu.
-Que gol? To falando do jogo de basquete...
-Basquete? Eu não assisto basquete... Não gosto de nada que põe as mãos na bola...
-Isto explica porque se divorciou...
-O que?
-Nada, nada... Deixa pra lá.

Então Derico, o fiscal da natureza – segundo as más línguas – adentra o bar e puxa uma cadeira...
-Ô Canário, seu safado... Trás uma coca-cola ai e uma porção de salame... Eu falei salame, heim? Vem com porcaria de mortadela não... - e virando-se para os amigos - E ai bando de desocupados? Que manda de novo?
-Mandar de novo em qual sentido? – diz Andrade, professor de português aposentado e chegado nos meandros da língua.
-Como assim em que sentido? – ficou curioso Derico.
-De novo no sentido de “novidade”, ou de novo no sentido de “outra vez”? – explica.
-Bom... Nos dois... – e ri amarelo.
-De novidade, nada... 
-E se fosse “outra vez”? O que vocês mandam?
-Você ir tomar naquele lugar... – define o professor aposentado causando risos na turma.

Derico sabe da verve sacana de todos e nem liga.
-Márvio... Cê tem cachorro? – pergunta o ex-funcionario da ferrovia.
-Tenho... – responde - Por quê? 
-Nada... É que a cadela lá de casa deu cria... E tem uns filhotes bonitos... São de raça.
-Obrigado... Mas eu não posso criar cachorro. Tenho alergia.
-Sem problemas... Alguém ai quer?
-Que raça que é? – se interessa Canário.
-São Bernardo...
-Para, Derico... Sua cadela nem é tão grande assim pra você dizer que é um São Bernardo... – diz Andrade.
-E nem muito religiosa também... - debocha Lucas, o açougueiro.
-Engraçadinho... E você Lucas? Não quer?
-Não... Não quero não... Tem um em casa que tá dando trabalho já...  Por causa do nome...
-Do nome? – se interessa Andrade...
-É... Eu creio que seja... Levei para casa ainda filhotinho... Ficava lá, brincando com todo mundo... Bravinho até! E ninguém se preocupava em dar um nome para ele... Era cachorrinho para lá, cachorrinho para cá... E assim ia sendo... Até que alguém resolveu que ele tinha que ter um nome... E minha sobrinha foi lá em casa e escolheu um nome.. 
-E qual foi o nome que ela escolheu? – perguntou Dito, como verdadeiro porta voz da curiosidade de todos.
-Fiúque... Ela escolheu: Fiúque.
E todos riram.
-Mas qual o problema em batizar o cãozinho com o nome do filho do Fábio Junior? Ou de uma celebridade qualquer?  - comentou Andrade.
-Nenhuma... Mas...
-Mas nada... – interrompe Andrade - Eu mesmo tive uma cachorrinha que levava o nome de Audrey, em homenagem a uma das mulheres mais bonitas da minha época...
-Audrey Hepburn? – pergunta Canário.
-É... Conhece?
-Já li sobre... Mas faz tempo isto heim? Não sabia que você era tão velho...
-Ora... Vá se fu... Mas, conta ai Lucas, porque ele tá dando trabalho por conta do nome? – lembra-se Dito.
-É que enquanto a gente o chamava de cachorrinho, o bicho era invocadinho... Todo machinho... Mas foi só colocar este nome ai e pronto... Apareceu um monte de cachorro perto de casa e todos ficam cheirando o rabo dele... E ele nem liga...

O silêncio permeia o ambiente até que:
-Cadê a coca com o salame Canário, porra! Tá disfarçando a mortadela para parecer com salame? – grita Derico.
-Não... To escrevendo no prato para o garçom não se enganar: para o Fiúque da mesa quatro, a dos aposentados...

Um comentário:

Pedro Paulo disse...

Coitado do cachorro.
Mas assim, não tem medo dos patrulheiros não? Cuidado com o Jean Willys.