1 de mai de 2015

Criatividade: a melhor forma de se apresentar um trabalho autoral

Em 1992 o cenário musical brasileiro já acenava com mais uma mudança de direção. O rock cantado em português ia discretamente saindo da cena mainstream e já dividia – pau a pau – a programação das rádios com o samba de novos grupos como Exaltassamba, Katinguelê e Negritude Jr. que acabavam trazendo para as luzes grupos mais veteranos (Raça Negra, Fundo de Quintal entre outros) formando uma nova onda do gênero e criando uma cena muito forte.
O nome escolhido para batizar esta nova geração de sambistas foi “pagode”, que mesmo sendo um termo antigo e repleto de significados desde os tempos de “Pelo Telefone” de Donga, acabou pegando como novidade.

O estilo que dominaria o cenário musical nas rádios e programas de TV muito em breve e como com qualquer outro movimento musical despertaria a vontade de ser músico em milhares de jovens por todo o país.
Fosse pela glamorização da imagem do “sambista profissional" aparentemente bem sucedido (ainda não eram os “sambistas ostentação” com jatinhos, carrões e ternos italianos), seja pelo desejo real de se expressar usando como linguagem algo que fala mais próximo aos próprios sentidos e sentimentos.
E foi neste contexto que quatro amigos, Jorge Martins, Lucivan Medeiros, Joel Conceição, Everaldo Gomes, também conhecido como: “Jão Diabo” ou simplesmente “Jão” tiveram a ideia de também montar seu grupo de pagode só para “ver no que dava”.
Os dois últimos eram amigos desde a infância e trabalhavam juntos como pedreiros em uma obra no centro da cidade de Franco da Rocha à qual algum tempo depois viria a ser uma farmácia de manipulação.
Jão e Joel convidaram os dois primeiros para ensaiar nos fins de semana e depois de algumas reuniões decidiram que o melhor seria investir em canções próprias se quisessem ter alguma relevância no cenário já que em qualquer esquina era possível ouvir um “ajuntamento de batuqueiros” tocando os grandes sucessos de todo mundo.

Com a recusa dos diversos bares da cidade que tinham música ao vivo em aceitar grupos que tocassem músicas próprias (a onda cover também ganhava corpo em 92) a solução encontrada pelo grupo foi montar seu próprio estabelecimento e ser assim o grupo da casa.
A ideia que não era de todo mal esbarrava em um pequeno detalhe: “a gente não tinha grana nem para comprar instrumentos decentes, quanto mais para montar um bar”.
E foi quando Jão sugeriu que tocassem na obra da farmácia que já estava na fase do acabamento.
 “-Acabamento bem dizer não... Mas estava rebocada, pintada e com o piso colocado” – disse.
Os outros três, apesar da desconfiança que podia acabar dando problema aceitaram.
Joel convenceu os patrões de que era necessário ter uma geladeira por lá, para que eles tivessem água gelada para consumir nas tardes quentes de trabalho e trouxe de casa uma bem antiga que sequer ficava de porta fechada, sendo preciso escorá-la com um bloco.
Nas sextas feiras, após as cinco da tarde – que era quando os patrões geralmente sumiam do mapa indo para o litoral ou para chácaras no interior – a “gelada” como chamavam a geladeira era abastecida com cerveja, a “de qualidade, mas bem barata” que seria vendida durante a apresentação.
Às nove da noite, a porta de aço era aberta e o grupo começava a tocar suas músicas em uma roda no meio do salão.
O público ia aparecendo aos poucos e a eles era oferecida a cerveja da geladeira a um preço “ligeiramente menor” que os dos bares no entorno.
Em pouco tempo as noticias correram e o espaço se tornou bastante concorrido, mesmo não havendo por lá sequer cadeiras e mesas para que o público consumisse a cerveja e o samba.

Aos poucos também apareceram outros grupos que, assim como eles, não tinham onde apresentar o trabalho que vinham desenvolvendo e “por uma pequena quantia” tinham o direito de formar sua roda de samba no centro do salão da futura farmácia.
O empreendimento só terminou quando a obra ficou finalmente pronta para que fosse mobiliada e começasse a funcionar para os fins a que se destinava.
“-A gente devia ter atrasado um pouquinho o trabalho lá.” - diz hoje um divertido Jão que diz não sentir saudades.
Hoje, formado em administração de empresas cuida do próprio negócio onde agencia pedreiros por empreitada.
Hoje não tem contato com os amigos da época que restaram da ideia original.
Joel foi morar em Bragança, onde era dono de um mercadinho de bairro; Lucivan sumiu sem deixar rastros e Jorge foi assassinado em 1998 em situação até hoje obscura.
Perguntado se acha que em outras condições  a arte deles poderia tê-los levado a um lugar diferente, Jão sorri e responde: “-Rapaz... A gente era bem ruim! Éramos melhores como pedreiros mesmo.”.

3 comentários:

Rafael Schelb disse...

Que história fantástica!!

Marcelonso disse...

Groo,

Faço minhas as palavras do Schelb.


abs

Magnum disse...

Faço minhas as palavras do Marcelonso.