10 de jul de 2015

A umpla

Sandro sempre foi um sujeito surpreendente. Suas atitudes eram tão imprevisíveis quanto suas letras. Tinha rompantes geniais, e momentos de pasmaceira completa. Podia tanto ser uma besta como ser bestial. Tudo dependia do estimulo. Estivesse sua platéia a fim de por fogo e ele se incendiava. Mas se a recepção fosse morna, não precisava nem ser frívola, ele ia esfriando até se tornar um bloco de gelo. Geralmente queimava.

Os pais de seus amigos, não todos, mas uns e outros tinham o habito de assistir no domingo pela manhã o programa ‘Som Brasil’ do compositor e contador de causos Rolando Boldrin, o Sr. Brasil, e justamente neste dia um destes amigos estava na sala e viu de relance, enquanto Sr. Boldrin anunciava as atrações do dia, a figura do Sandro em cima do palco. Ligou pra um; que ligou pra outro; que ligou pra mais um e foi-se formando uma cadeia. Logo quase todos na Vila Bela e em parte de Franco da Rocha estavam sintonizados no Som Brasil.
Na volta dos comerciais aparece logo em cena o apresentador. Plano fechado da cintura pra cima e Sr. Boldrin conta um causo:
-Então o homem manda chamar o fiscal de bilhetes do trem e lhe diz: ”-O Senhor me acorde na estação de Limeira, que lá vou fechar negocio numa partida de laranja para suco. Lhe dou $500, adiantado, mas não deixe de me acordar em Limeira...” O fiscal aceita o encargo, embolsa o dinheiro e volta a sua ronda. O homem põe-se a dormir e ronca sono alto, dos justos. Passado os quilômetros o homem acorda com o fiscal gritando a plenos pulmões: “-São Carlos, São Carlos”. O Comerciante de laranjas que dormia acordou sobressaltado e com os olhos embaçados de sono, vê que sua estação passou e que seu negocio tinha sido arruinado. Levantou-se e pegou o fiscal pelo colarinho enquanto gritava: “- Vosmece arruinou meu negocio, eu lhe pedi, eu lhe paguei, tinha que descer em Limeira e nós já estamos à altura de São Carlos! Estas horas já não chego a tempo na fazenda, não compro mais a partida de laranja pra suco, estou arruinado comercialmente... O que foi que o senhor me fez? Hã?” Nisto duas velhinhas que estavam sentadas umas poltronas atrás do comerciante de laranjas comentam entre si: “-Como ficou bravo este senhor...” No que a outra responde: “-É porque você não viu como xingava o homem que ele jogou pra fora do trem em Limeira...” 

Os aplausos romperam o silencio e a admiração com que a platéia ouvia o apresentador e logo na seqüência um conjunto regional ataca tocando ‘O trem das Onze’do compositor paulista Adoniran Barbosa: “-Não posso ficar mais nem um minuto com você/sinto muito amor, mas, não pode ser/moro em Jaçanã, se eu perder este trem que parte agora às onze horas/só amanhã de manhã...”.
Enquanto a musica ia sendo tocada, as câmeras davam close nos cantores, nos instrumentistas, passeavam pelo palco, mostrando ora um, ora outro violeiro; percussionista; os cantores. As pessoas que assistiam ao programa perceberam que Sandro estava sentado entre os violeiros, com a viola no colo, fazendo os movimentos com a mão direita, mas sem mover um dedo da mão esquerda. Ou seja, não estava tocando absolutamente nada!
O Sr. Brasil também percebeu e ao fim da apresentação, como sempre fazia foi trocar um dedo de prosa com os convidados: “... tenho minha casa pra cuidar, eu não posso ficar”. – Aplausos.
-Parabéns ocês são muito bão! Parabéns... – Disse o Sr. Brasil.
-Obrigado Sr. Boldrin, pra nós é muito gratificante estar aqui! – Disse um dos cantores.
Nisto Rolando Boldrin, se vira para Sandro e emenda um dialogo rápido:
-Ocê deve de ser de uma família tradicionar de violeros, num é?
-Sou sim! – Mentiu Sandro. E continuou: - Meu pai tinha uma dupla com um amigo...
-E quem eram eles? – Quis saber Boldrin.
-Laurito e Loreto. – Continuou mentindo.
-E qual deles era o senhor seu pai?
-Até hoje eu não sei... – E a platéia explodiu em risos enquanto o apresentador olhava para a câmera com cara de espanto.
-Não, não... Não é que eu não saiba quem é meu pai, eu sei sim. Só não sei quem era quem na dupla...
- Ah bão! Assim, sim! – Aliviado o Sr. Brasil continuou. – Eu me lembro apenas de um, do Loreto...
- Pois é, esse ai era meu pai... – Continuou a mentira na maior cara de pau.
-Mas este cantava suzinho...
- Pois é... Meu pai foi um dos pioneiros. Foi cantar solo.
- Desmontou a dupra?
-É ele que começou com isto, de cantar sozinho... Desmontou a dupla e montou uma umpla!

Rolando Boldrin balançou a cabeça negativamente, a platéia riu e entraram os comerciais. Em um movimento como o da queda de dominós quase todos os televisores da Vila Bela e parte dos de Franco da Rocha foram sendo desligados ou mudados de sintonia. Exalando um aroma de decepção profunda no ar.

4 comentários:

Anônimo disse...

Bom texto... E li a parte do Rolando Boldrin imitando mentalmente a voz dele.
Parabéns.
Gustavo

regi nat rock disse...

Merece livro de cronicas Groo. Vivo escrevendo isso.

Ron Groo disse...

Obrigado Regi.

Marcelonso disse...

Groo,

Faço minhas as palavras do Regi. Parabéns;


abs