11 de set de 2015

Um conto saudável

Ela é alta... Bem alta.
Ela é bonita...
E cubana. Me lembrou a primeira vista aquela jogadora de vôlei, a Mireya Luiz
E forte. Dá para ver sob o jaleco.
-Sua pressão arterial está alterada. – diz com forte sotaque, mas facilmente entendível.
-É que eu subi a rua do posto correndo e...
-O senhor está acima do peso.
-Confesso... Estou um pouco.
-Um pouco? Não... O senhor está muito acima do peso.
Sorrio sem graça.
-E é baixinho. O que piora tudo.
Já não sorrio mais.
O papel com as recomendações fica tomado daquela letra que a gente pouco entende, mas sabe que coisa boa não pode ser.
Cortar imediatamente: doces, refrigerantes, gorduras, frituras, açúcar...
Adicionar a rotina: exercícios físicos, caminhadas regulares, horários regrados de alimentação e sono.
-E cerveja? Pode tomar?
-O senhor toma muito?
-Não...
-Então corte...
E solicitou uma batelada de exames de todos os tipos...
Provavelmente não vá sorrir nunca mais.
-Mais uma coisa...
-Pois não?
-Leve isto a sério. Eu vou estar no seu pé. Se tomar refrigerante eu vou saber. Se comer doces eu vou saber, se ingerir gordura eu vou saber. Se sair da linha...
Voltei a pensar na jogadora de vôlei e no quão seria desagradável tomar uma cortada na orelha.
Levei a sério.

Tão a sério que duas semanas depois, aparentemente a via em todos os locais.
Na rua, no bar, nos mercados...
De frente a sorveteria, apenas pensando em entrar e ela passa na calçada do outro lado da rua. Desisto.
Ao parar para cumprimentar amigo em frente a uma barraquinha de churrasco grego, e ela passa. Faz questão de que a veja e ainda acenar.
Aos poucos fui ficando meio paranoico.
Já não conseguia nem pensar em algo da tal lista sem olhar em volta se ela estava por perto.
Curiosamente, nunca a via quando caminhava ou me exercitava. Se bem que isto, confesso, era bem pouco.
Em um dia qualquer, antes do retorno da consulta senti que tinha cumprido bem o recomendado.
Havia perdido peso com todos aqueles cortes, minha pressão arterial – que estava sendo monitorada – não havia mostrado mais nenhuma alteração e então resolvi comemorar comprando um pacotinho de bolinhos Ana Maria.
Parado em frente à gôndola escolho calmamente entre os sabores diferentes a disposição. Ignoro fortemente o de cenoura com chocolate... Escolho finalmente o de embalagem azul, bolinho branco com creme igualmente branco por dentro.
O sabor? Todos são iguais...
-Eu também prefiro este. – ela diz surgindo do nada.
-Não é pra mim... – sorrio amarelo, cumprimento e saio deixando o pacote na gôndola.
Ao chegar à ponta do corredor penso: “-Mas que catzo? Se eu quiser comer o bolinho, vou comer... Ela é médica, não da policia. Vou voltar lá e pegar o bolinho.”.
Me viro e olho pelo corredor procurando sua presença.
Tudo limpo.
Não que eu esteja com medo ou algo assim... Mas volto devagar e pensando em algo para dizer se ela voltar.
Quando pego o pacotinho, ela aparece: -Resolvi não levar, estou devolvendo. – digo com o mesmo sorriso amarelado.
Ela sorri de volta e caminha na direção oposta.
Observo para ver se ela não olha para trás. Nada, tudo limpo de novo.
Pego o pacote e jogo dentro da cesta, cubro com o pé de alface e corro para o caixa.
A atendente sorridente como sempre diz o bom dia mais longo da história e penso (mas não digo): “-Vai rápido, por favor!”.
Mas a menina não é telepata e nem a tecnologia quer ajudar: nenhum código de barra quer ser lido. Todos tem que ser digitados manualmente. E são enoooormes.

Eis que a doutora também se dirige ao caixa. Rezo para que entre em outra fila.
Ela vai. Algo resolveu dar certo. Já nem me preocupo em cobrir a Ana Maria com a alface. De onde ela está não vai ver.
Mas de repente...
 -Ih, não consigo ler o código desta embalagem, vou chamar o gerente...
-Não precisa... Olha, deixa pra lá...
-Não vai demorar, fique tranquilo... – ela sorri enquanto acende a luz e pega seu microfone. – Por favor, código para Ana Maria no caixa dois... Rápido que o cliente tem com pressa.
“-Fudeu!” – penso e já olho para a fila em que ela estava. Aparentemente não notou nada. Me tranquilizo e até consigo rir da minha paranoia boba.
Mesmo que ela tivesse visto, o que iria fazer? O que iria falar?
Saio do mercado e abro o pacote já sem culpa. Os bolinhos nunca tiveram um gosto tão doce.

Na manhã seguinte o retorno ao consultório.
Entro na sala. Pressão aferida: normal. Peso conferido: baixou.
-Está tudo bem? – pergunto.
-Está melhor... Bem ainda não. – responde enquanto enche outro papel com aquela letra...
-Mas... Todas as restrições estão aqui de novo!
-Sim... O senhor seguiu a risca tudo que recomendei da primeira vez?
-Claro... – minto.
-Ótimo... Então por que não continuar?
-Hum... – resmungo.
-Marque o retorno... – e antes que eu saia da sala – Dá próxima vez, ao menos escolha o de cenoura com chocolate...
Senti como se tivesse perdido o jogo com um ponto de ace sacado por ela.

3 comentários:

regi nat rock disse...

Realmente, vc está paranóico. Corte a cerveja, Aumente a audiencia em corridas e, não se esqueca. O campeonato da "oval" recomeçou. Doses nas quintas , domingos e segundas.... Que se dane o sono.....

regi nat rock disse...

esqueci. Se a Ana Maria piscar procê, não hesite; coma !!!!!

Marcelonso disse...

Groo,

Mais um conto para o livro. Muito bom.



abs