22 de jul de 2016

F1 2016 - Hungria: A kind of magic

O sol sempre escaldante do mês de agosto fustiga a cabeça do jovem Mika.
Sentado em uma arquibancada bem no fim da reta de largada, já quase dentro da curva ‘um’,  vai assistir o GP da Hungria de formula um acompanhado de seu indefectível walkman e uma fita cassete do último álbum do seu grupo preferido  A kind of magic, do Queen.

Será o primeiro GP de fórmula um daquele país.
A pista é estreita, as freadas são fortes e a única reta do circuito - onde Mika está sentado - não é grande o suficiente para que um motor se sobressaia à outro pela força de seus cavalos.
Poucos teriam coragem – ou loucura - suficiente para tentar, em condições normais, uma ultrapassagem.
Mika, entediado, já ouviu a fita cassete inteira ao menos umas três vezes. Não se preocupa muito com a corrida. Não há ídolos locais neste esporte, e ainda por cima a primeira fila é formada por dois representantes de um longínquo país: o Brasil.
Mika entende pouco, quase nada de Fórmula um, está ali por ser exatamente o primeiro grande prêmio em seu país que aos poucos vai saindo de trás da cortina de ferro e isto já garante que será histórico.
Os personagens – para Mika – são: Um carro preto com piloto de capacete amarelo na pole position e um carro de bico azul com um “6” pintado nele na segunda posição do grid.
Mika assiste a largada e vê o carro preto manter a ponta enquanto o de bico azul perde a posição para outro carro de bico azul, este, porém enfeitado com um “5” vermelho..
O “5” vermelho não resiste às estocadas do numero “6”, e poucas voltas depois devolve a segunda posição e o que se segue é uma perseguição monstruosa ao carro preto com piloto de capacete amarelo.

Mika procura em seu programa da corrida onde estão os nomes e os números dos carros e identifica: Preto, capacete amarelo: Senna.
Amarelo com bico azul e numero 6”branco: Piquet.
Amarelo com bico azul e numero 5 vermelho: Mansell.
Estes três e mais um francês narigudo de nome Alain Prost que pilotava um carro pintado em vermelho e branco são - segundo o programa da corrida - os quatro principais pilotos em atividade neste ano e tudo indica que o título de 1986 não escapará a um deles.
Voltando a corrida que já vai pela décima terceira volta, o carro numero 6 ultrapassa o carro preto e abre uma pequena vantagem. Não suficiente para que continue em primeiro depois da parada para troca de pneus que todos são obrigados a fazer.
Logo o carro do piloto de capacete amarelo volta à primeira posição tendo em seu encalço novamente o bico azul numero 6.
Já na volta cinqüenta e quatro, meio que sem querer Mika levanta a cabeça e olha para a pista.
Vê o carro de bico azul numero 6 ultrapassando de forma forçada o carro preto. O piloto pega o traçado de dentro, entre o carro a ser ultrapassado e o muro.
Ele - Mika - se levanta na arquibancada e prende a respiração por alguns instantes.
O carro numero 6 ultrapassa o carro preto, mas não consegue fazer a curva da forma correta.
Perde o ponto de tangência e, completamente desequilibrado, perde novamente a posição para o piloto de capacete amarelo.

Dentro do carro de bico azul numero 6 o piloto pensa: “-Pqp! Ele deve estar rindo muito de mim agora. Arrisquei à toa. Não vai ficar assim!”.
Já de dentro do carro preto o piloto (que realmente ria) diz para si mesmo: “Aqui não farroupilha! Que não nasci para ser ultrapassado sem lutar... Vem de novo se for homem!”.
Mika do alto da arquibancada pensa: ”-São loucos estes homens!”.
Duas voltas se seguem sem que o piloto do carro número 6 tente passar.
Mika já se sente frustrado.
O piloto de capacete amarelo já se sente confiante o bastante para achar que não será mais incomodado.
Já o piloto do carro 6 já não pensa mais. Age.
Na mesma reta, no mesmo ponto ele investe. Mas desta vez põe o carro no lugar menos provável: O lado de fora. Entre o carro preto e a grama encaixotando o piloto do carro preto entre ele e o muro.
Mika vê aquilo sem acreditar, sem respirar. O momento parecia suspenso.
O carro numero 6 completa a ultrapassagem no último milímetro da pequena reta. Não tem como sustentar a posição. Não tem espaço para contornar a curva de maneira correta.
O carro preto certamente vai tomar a posição novamente.
Só que desta vez é diferente...

No walkman, Freddie Mercury canta com sua voz inconfundível... “It’s a kind of magic, magic... MAGIC “...
O carro de bico azul e numero 6 retarda a freada até o limite do suportável, pra lá do “Deus me livre” e com um golpe no volante e extremo controle do carro ele desliza. Derrapa nas quatro rodas. Milímetros à frente do carro preto, que freia e se recolhe, humildemente...

“ -It’s a king of magic”. - Pensa Mika.
“-Oh! Meu Deus...” – Pensa Senna.
”-Sifú! Te peguei, ri agora!”. – Grita de dentro carro Nelson Piquet.
Um silencio monstruoso no autódromo, coisa rara. Só se ouve os motores dos carros.
Tudo parecia nem existir, só a imagem dos dois carros no fim da reta.
“-It’s a kind of magic...” Continua cantando Freddie Mercury.
Mika se levanta e vai rumo à saída do autódromo. Já não importa quem vai ganhar a corrida. Seja qual for o resultado ao fim das 76 voltas, o grande vencedor daquela tarde foi o piloto do carro amarelo de bico azul e com um numero 6.
Foi uma espécie de magia...

4 comentários:

Anônimo disse...

Bom, para entender a ultrapassagem é necessário escrever sobre estratégia.
30 anos atrás - sim o 'tempo paaaaassa, o tempo voooooa e a poupança Bamerindus foi pro saco numa boaaa !' -, o Hungahorroring era a mesma porcaria de hoje, com uma, me parece, pequena modificação: aumentaram uma retinha no miolo do circuito tirando uma curvinha que tinha no meio. Algo assim. Saudoso tiozão, malandro paulistano, da Mooca, tinha o potente Renozão para acelerar, tão bom quanto o Hondão do superLimãoAzedo, malandro carioca, da Tijuca, mas morando em Brasília( então, um super malandro ! Um brasioca !). A diferença estava nos carangos muito melhor projetado por Grovewonderland porque a Lotus já estava caidinha, caidinha. Sim, já era o Senna mostrando as garrinhas que fazia aquela porcaria andar.
Grove me lembra... 'Dance ! Grovewonderland ! Ra ! Ra ! Dance '!
Earth, Wind and Fire ! Senhor Groo chora a morte do líder de sua banda preferida de R&B até hoje.
Voltando, dois belos mortorzões turbos, um bólido bom de reta e outro carro super bem projetado para qualquer tipo de pista e terreno( foi testado no frio do Alasca e no inferno do vale da morte pelo Sir e Professor Xavier da F1). Piquet pilotava a Mercedoca da época. Saudoso Tiozão fez o certo ! Passava descansando naquele monte de curvas após o retão e depois só se preocupava em acelerar tudo no retão novamente. Bem, exagerei. Após o retão e a curva do Limão Azedo, a (1), uma curva pentelha e fechada(2) para a esquerda seguida de uma curveta(3) para a direita. Tô vendo o mapa do circuito. Uuuuurggggh ! Uma reta que não dá para fazer nada e aí começa a sequência tremendamente chata de curvinhas e retinhas na curva (4) até o retão. Volto a repetir. Usou de estratégia nosso querido tricampeão que se foi. Mas, atrás dele, vinha o também futuro tricampeão da categoria, com iate gostosa ancorado no paraíso fiscal mas delicioso do planeta( onde a igualdade na Terra deu certo ! Todo mundo tem de Mercedes V6 para cima !), e rei da mulherada de Mônaco, o genial Jiló brasioca ! Que se irritou e passou do jeito mais audacioso possível e, dito por ele mesmo, 'mostrei o dedo médio para ele'. Na curva, com o carro saindo nas quatro ? ' Sim, porquê, não ' ?
Ai, ai... meu ídolo.

http://flaviogomes.grandepremio.uol.com.br/wp-content/uploads/2014/11/dompiquetlauda.jpg

https://bandverde.files.wordpress.com/2014/04/piquetmansell.jpg

http://4.bp.blogspot.com/-fqQIHJKJiWw/T51bu8pZ1TI/AAAAAAAAHWg/yLB5M4bB_S4/s1600/lemyr+-+foto+15.jpg

A primeira, com a malvado favorito de GH-3 ! O maior dos maiores, para mim( êpa! Sem duplo sentado. Quer dizer, sentido )! Liki Nauda ! As duas últimas, no melhor autódromo destruído do mundo para o pão e circo populista que todo terrorista a espreita adooooora ! Aquele morro atrás das feras, o nome dele é em minha homenagem. Morro do M.C. ! Ninguém canta de galo, lá. Tá livre de comunidades...


M.C.

Anônimo disse...

e os 100 milhões de euros, senhor Groo ? Trace uma reta entre Rio de Lameiro e Franco da Rocha, acerte um ponto médio e lá será o nosso autódromo, com museu e restaurante temático ! Se cair num morrão, a gente tira !Se for num lago, a gente chama a Marina e faz ela beber tudinho com os cumpanhero do Rede ! Ou faz ao redor do lago...


M.C.

Marcelonso disse...

Groo,

Foi uma manobra antológica! Como disse Stewart: "foi como fazer um looping com um Boeing"

abs

Rubs disse...

Uma homenagem. Comparar Piquet com Queen.
Era um piloto que não via anjos.
Mas aquela manobra, sendo impossível, só foi possível com a ajuda de "A Little Wing".
Abs