17 de out de 2016

Feliz foi Adão

-Despachante e corretora bom dia.
-Alô...  Cês já estão trabalhando?
-Bem... atendi ao telefone, então quer dizer que já estou aqui né?
-Não sei...
-Bom... Pois não?
Não eram nem nove horas da manhã ainda e o dia prometia. Já haviam sido feitos oito processos para transferência de propriedade de veiculo e nada mais, nada menos que sete estavam errados. Dois telefonemas haviam sido enganos. Um foi trote e outro era cobrança da telefônica por uma conta paga de seis meses atrás.
A luz dentro do aquário onde trabalhávamos - quem leu as outras crônicas sabe – é bem pouca, o que nos ajudava era um pouco da luz solar refletida no vidro canelado.  Não que trabalhássemos nas trevas, mas se procurássemos bem nos cantos do imóvel acharíamos alguns morcegos parentes do Batman.
De repente a luz solar se foi. Não era eclipse, nem tampouco o céu escurecendo para uma tempestade.
O cheiro da fumaça de diesel impregna o ar e as roupas.
Na porta surge um sujeito baixinho, forte para caramba. Chapéu de boiadeiro, botas de cano longuíssimo, as mãos sujas de graxa ou algo que o valha.
Sua voz encheu o escritório como água, sem deixar espaço. Alta, grossa e aparentemente feliz:
-Feliz foi Adão, que não teve sogra e nem caminhão! Bom dia aí gente que trabalha...
-Bom dia... – Respondem todos entendendo agora o sumiço da luz do sol.
O caminhão tapara sua entrada ao bloquear nossa porta. Completamente.
-Eu trouxe o bruto aí para fazer a vistoria, vou passar ele pro nome da minha menina. Legado pra ela, não é? É tudo que tenho, e vai ser dela. Pra morrer, basta está vivo, não é?
-Quantos anos têm sua filha? Ela dirige caminhão? – Quis saber o chefe.
-Não... ela é uma flor de delicadeza. Não conseguiria nem virar o volante do bruto, mas se eu morrer (já disse que pra morrer basta estar vivo) ela pode vender o caminhão mais facilmente.
O caminhão em questão era um Mercedes Benz L1313, azul, ano 1973, mas muito bem conservado.

A tarefa seria decalcar o numero do chassi para que fosse feita uma vistoria regular sobre ele. Saber se a numeração tinha ou não sido alterada.
Para quem não sabe, ou não conhece, a numeração de chassi neste modelo de caminhão fica na longarina, mas na ponta dela quase na junção com o para choque dianteiro. Embaixo do feixe de molas, com o acesso um tanto difícil.
É necessário abrir a tampa do motor e se esticar para dentro do cofre para alcançar a numeração, tarefa esta que coube ao menor de todos os funcionários. O único que estava desocupado.
Pela via normal ele não alcançou. Quase cai dentro do capô com os pés balançando para fora, mas percebe nesta manobra que se esterçassem as rodas dianteiras inteiramente para a esquerda seria possível alcançar a numeração entrando por baixo. Pelo vão da roda.
O local era apertado, mas era possível fazer.
O dono do caminhão se oferece para entrar naquele espaço dizendo que ali havia graxa e que o funcionário baixinho poderia se sujar.
Sugestão aceita.
O funcionário então dá a ele o bastão de grafite e um pedaço de fita adesiva tipo etiqueta para que ele faça o decalque e sobe até a cabine para esterçar as rodas.
Lá de baixo o caminhoneiro verifica que há pouca luz e que daquela forma não consegue encontrar a numeração gravada. Pede então para que mais uma vez se abra o capô do caminhão.
-Mas como abre?
-Tem uma correntinha aí em cima não tem?
Ele procurou e procurou. Olhou para todos os lados e só havia uma corrente que pendia do teto: “-Deve ser esta! ” – Pensou.
Puxou a corda com toda a força, afinal a tampa do motor de um caminhão deve ser pesada, ou não?
FUUUUÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓ!
O violento esporro da buzina atrai todos para fora do escritório a tempo de ver o dono do caminhão sair de baixo dele atordoado, com um corte no supercílio. Provavelmente por ter batido a cabeça no chassi.
-Desculpa aê! Foi sem querer, mas não tem outra cordinha...
-O que? Embaixo do painel...
-Eu puxei aquela que pende do teto, desculpa...
-Ahã? Debaixo do painel... Tá embaixo do painel...
-O que tá embaixo do painel?
O caminhoneiro não responde. Não ouvia mais nada. Se bobear nem sabia mais onde estava.
Feliz foi Adão, não teve sogra nem caminhão. E nem precisou decalcar o chassi...

2 comentários:

Anônimo disse...

Adorei o conto. Taí... Mas, me perdoe, senhor Groo, a imagem me chama muito a atenção. O 1313 ! O azulzinho que satisfaz ! O viagra das estradas do anos 1970 e 1980 ! A caminhoneirada ficou doida com ele ! O engenheiro Fritz da Mercedoca, avô do Penélope, deve ter dito pros chucrutes: ' Vamos acabarrrrr com oktoberfest escandinava em Pindorrama ! Prááááááá darrrr glück !, zwei 13 '! E o Lullalibabá trabalhou, lá, não ? O 13 deve ter surgido lá.
Satisfazia porque o arqui-rival era o narigudo laranja ! O 111S ! Que, acredito, mais caro. Tar da manutenção... Falo a verdade verdadeira, pravda mermo, era o meu herói das estradas, o narigudo ! Se eu fosse colecionador de caminhões - eles existem, sim, eles existem - no meu 'armazém' ou hangar( imagine uma coleção de caminhões... O cara tem que ser rico e ter um avião para carregá-los... Um Jumbo, HA ! Um Hércules 130 já ajudava) teria os dois bacanas !

http://www.caminhoesecarretas.com.br/PortalVeiculos/Fotos/577815_img-20160321-wa0017_big.jpg

Bonitinho, tinha até sobrancelhas ! Meu pai conseguiu escapar de um, saiu mal de um posto de gasolina na Dutra, e eu só vi um 111S chegando, chegando... meu pai acelerando, acelerando... a buzina ! Não me esqueço da buzina ! FUUUUÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓ! Isso mesmo ! Peguei do conto, perfeita onomatopeia ! Minha mãe dando um baita esporro em papai... E as lindas sobrancelhas do 111S ! Do lado dos dois, 111S e 1313, colocaria o FNM, voltando ao sonho de colecionador de caminhões ! Que a fábrica era em Duque de Caxias, no pé da serra( em alguns lugares 'raiz' da serra). Perto de Pau Grande do saudoso Garrincha... A Fábrica Nacional de Motores. Era um ALFA Romeo... predominantemente, verdes. Verde, verde burro quando foge, aquele, que parece verde piscina, clarinho..., verde escuro, como o da foto...

http://flaviogomes.grandepremio.uol.com.br/wp-content/uploads/2010/02/fnm-009.jpg

E muito mais ! Do lado dos caminhões, de cada caminhão, colocaria fotos em tamanho natural das periguetes das estradas ! A maioria tribufus de responsa mas uma singela homenagem. Caminhoneiro adora tribufu. Sei lá por quê... Se for bonita, meu chapa, é assalto ou fantasma... Num pára, não !

HA !

E o Bob esnobou o Nobel. Bem feito pro prêmio ! Daria eu, se fosse um velhinho do Nobel, para a Johanna Basford ! Secret Garden....

´Pelo bem que fez à Humanidade...'



M.C.

Marcelonso disse...

Groo,

Como sempre é muito prazeroso viajar nesses contos. A vida está corrida, com pouco tempo para postar e visitar os amigos.


abs