7 de out de 2016

O telefonema do além

O dia tinha começado muito bem, já eram dez da manhã e nada errado tinha acontecido e vale lembrar que o dia começa efetivamente às oito horas.
Cada qual cuidava de seus afazeres e todos estavam muito ocupados.
Para situar, o escritório é dividido em três ambientes: o balcão que fica de frente a porta de entrada onde trabalham sempre dois atendentes.
A área de trabalho efetivo, separada do balcão por uma divisória de vidros canelados e tem a aparência de um ‘aquário’. É onde ficam as mesas, os computadores.
E o mezanino onde funciona uma corretora de seguros.

Acabavam de chegar os primeiro clientes do dia: um casal que desembarcara de um fusca verde água e um senhor que viera a pé mesmo.
Dentro do aquário toca um dos telefones e um dos chefes que estava desocupado atende.

-Alô? Sim é daqui sim... – atende ao telefone sem usar o texto padrão: o nome do estabelecimento e a saudação que melhor cabe àquela parte do dia.
- Azul? Fusca? Sim... Tem sim quem quer falar com ele? (...) Um só minuto que vou levar o telefone até ele.

Ao que parecia uma mulher ligara para tentar falar com alguém - seu marido provavelmente - que estaria por lá naquela hora.
E tinha dado a sorte.

Ao chegar à porta do ‘aquário’ lembrou-se que tinha algo a fazer na capital, avisou que estava indo naquela hora e que não demoraria a voltar.
De passagem pelo balcão olhou para os clientes e como o casal estava de mãos dadas deduziu que seria então o outro senhor.
Nem perguntou, apenas virou-se para o cliente e disse: “-Sua esposa esta ao telefone e quer falar com o senhor.” - e para o funcionário que estava atendendo: “-Vou até o bairro da Lapa, não demoro.”.
Entrou em seu carro, manobrou e sumiu em poucos segundos.

O atendente então notou que o senhor que recebera o telefone sem fio ainda não tinha atendido, nem dito um simples alô. Estava pálido e com a respiração ofegante.
-O senhor está bem?  - perguntou de forma retórica já que visivelmente ele não estava. Pega o telefone das mãos do cliente ao mesmo tempo em que o ajuda a se sentar.
O ocorrido chamou a atenção de todo mundo.
Correram para lhe pegar um copo com água, outro trouxe o ventilador para perto e a mulher que havia descido do fusca quis saber o que acontecera.

O funcionário que ainda estava com o aparelho nas mãos, ouvindo os chamados insistentes da pessoa do outro lado resolveu atender:
-Alô? Quem fala? – disse a voz ao telefone - Meu marido está ai ainda? Disseram que ele ia atender ao telefone e ta demorando, vai acabar os créditos...
-Mas senhora quem é seu marido? – pergunta ele.
-É Joaquim. Deve estar ai já, foi num fusca azul bem clarinho...
Então ele olhou para fora e viu que o fusca era verde e não azul e que o seu chefe havia se confundido.
-Olha, sinto muito, mas seu esposo ainda não chegou aqui não... Foi engano da parte do outro rapaz, desculpe.
-Tudo bem... Se ele chegar, é Joaquim o nome, pede pra ele ligar pra mulher dele, no celular. Tá bom?
-Peço sim... - e desliga o telefone voltando sua atenção para o senhor que já se recuperava.
-Menino! Fiquei realmente assustado agora... – diz ele - Minha esposa faleceu já pra mais de cinco anos. Que brincadeira mais sem graça.

Depois, bem mais tarde todos ficaram pensando em uma forma de sacanear o chefe.
Rir um pouco dele quando soubesse da situação que causou.
Eis que ele chega cansado e com cara de poucos amigos.
- Estes trens estão cada dia piores. Atrasados e sempre cheios!
- Ué, mas porque você voltou de trem? Quebrou o carro?
-Carro? Como assim? Eu fui de carro?
-Foi...
-Vixe... Danou-se! Deixei o carro no estacionamento e esqueci dele... Voltei de trem.
Todos acharam melhor nem tocar no outro assunto.
Agora era melhor rir deste novo...

Um comentário:

Anônimo disse...

Eu acho que conheço este cara...
Nardo.