16 de fev de 2017

Futuro do Passado

Havia publicado este conto no antigo blog do IG, mas, sei lá porque,  nunca o coloquei neste... foi um dos meus primeiros textos. Espero que apreciem.
Naquele dia dez de outubro de 2006, Ayrton acordou mais cedo do que costumava acordar aos domingos. Afinal era dia de Gp Brasil de F1!
Acompanhava sempre.
Estava aposentado desde 1995 quando, desiludido com a fragilidade dos carros Williams, resolveu que era hora de parar.
Havia perdido dois campeonatos, 94 e 95 para um alemão até então desconhecido que pilotava um carro com nome de grife de roupas, mas que se revelara um excepcional piloto ganhando o mundial sete vezes, sendo cinco seguidas.
Na verdade, já se sentia deslocado no circo...
Os rivais já não eram tão desafiantes. Já não havia mais Prost ou Mansell, e pior: Piquet já havia parado, o que o impossibilitava de dar o troco daquela ultrapassagem humilhante que tomara na Hungria em,1986.
Em suma já não tinha tanta graça.

Mas acompanhava a F1 de sua casa em Tatuí onde também ficava a sede de suas auto-escolas que se espalhavam em filiais e franquias por quase todo o estado de São Paulo.
Dos antigos amigos mantinha contato com Berger e Barrichello.
Atendia sempre que podia ao Reginaldo Leme e até quando não podia a Luiz Fernando Ramos, o Ico.
Respondia aos e-mails de Eduardo Correa e vez por outra mandava suas colaborações ao site GPtotal.
Só guiar é que não fazia mais.
Escapara ileso do acidente na Tamburello em 94 e continuou o campeonato com garra e coragem e até ouviu de Prost um sincero: “-Se fosse comigo eu parava no dia seguinte e nunca mais entrava num carro na minha vida...”.
E de Piquet um irônico:
“-Porra.… tinha de ser na mesma curva que eu? ”.

Naquela manhã sentou-se em frente ao enorme aparelho de TV de sua sala de estar e se abasteceu de muitos quilos de salgadinhos, batatas fritas e outros venenos comestíveis; um punhado de latas de cerveja, afinal ele também era filho de Deus - e não o próprio como queriam crer alguns fãs - e gritou para sua esposa que estava por perto.
“–Benhê, não me incomoda agora não que vai começar a transmissão da corrida...! ”
E ela respondeu meio que alienadamente:
“-Mas de novo Ayrton.... Você vê corrida todos os fins de semana.... É formula 1, é stock, é formula Indy; é Nascar.... Até kart você assiste! Assim não aguento...”.
“-Mas amor, a velocidade está no sangue...”.
“-Ayrton.... Você vive chamando os pilotos da Nascar de taxistas...
“-Benzinho... mas tem uns acidentes tão bacanas...”.
“-Desisto, fica aí com este ronco de motor na orelha, vai...”.
E ele assiste tudo...
Desde os boletins antes da prova, matérias especiais que não acrescentam nada no programa de esportes da transmissora oficial até que finalmente vem a largada.

Então vê Felipe Massa disparar na frente tomando a ponta e não mais perdendo até a bandeirada final, como ele mesmo cansou de fazer quando corria pelo mundo afora.
A briga principal era entre o alemão que o derrotara e um espanhol que era então atual campeão mundial que lutava pelo bi.
O alemão vencera em Monza e lá mesmo anunciara sua aposentadoria e agora precisava vencer o GP Brasil e torcer para que o espanhol não pontuasse para garantir o que seria seu oitavo título
O carro do espanhol era um foguete!
Mas, o alemão era o alemão. Então...
 Largou em décimo, em poucas voltas o germânico já era o quinto quando furou um pneu durante uma ultrapassagem sobre um italiano que era companheiro de equipe do espanhol. Caiu para último, mas veio se recuperando.... Passando um por um.
Ayrton não piscava quando o alemão passou por Barrichello.
Mais um pouco e já não mais mastigava.
Mais uma ultrapassagem e Ayrton dava outro gole na cerveja com os olhos arregalados.
No fim da reta de largada na entrada do ‘s’ que leva seu nome, vê o alemão encostar no muro e também se espreme todo.
O come que o alemão deu em um finlandês fez Ayrton jogar salgadinhos e cerveja para o alto e gritar. “-É gênio, troca o nome deste ‘s’ pra “S de Schumacher! ”.

Quando acabou corrida e o hino nacional foi ouvido pela vitória de Felipe Massa, o alemão não estava no pódio.
Mas nem precisava estar.
Chegou em quarto, ofuscando o inevitável título do espanhol.
No sofá, emocionado, ainda ouviu o alemão dizer que estava feliz por ter sido Felipe Massa o primeiro brasileiro a vencer no Brasil depois dele.
Então Senna ergueu sua lata de cerveja em tom solene e saudou o alemão:

 “-Este é do caralho! ”

7 comentários:

Anônimo disse...

. Parece o Fagner...

. Não acredito que Senna não abiscoitasse mais um título sequer. Vivo fosse, Damon seria o campeão ? Ou Villeneuve ? Sonho da Ferrari era ter Senna na Sculhambaderia. Ruimlliams já aparecia no retrovisor, Ferrada, ainda, não. E, lá, é paixão. E FIAT ganharia mais aqui. Se esqueceu do maior amigo dele, num acredito ! Gagál... Gal... Gagálvão ! Caramba. Não. Esse conto ficção está virando científico ! Um Senna comendo quilos de salgadinhos ? Um realismo fantástico passado num outro planeta após viagem com dobra espacial dupla( essa eu inventei) ! Um cara que era vaidoso pacas. Cerveja. Cerveja ? Cerveeeeeja ? No mínimo, a esposa era uma Xuxa. Gorda. É, é realismo mágico. É só ver como se ganha dindin depois da aposentadoria desses caras famosos. Senna foi parar no Boqueirão. Na favela. Nas quebradas. Como ele se perdeu assim ? Paulista e paulistano ! Se ainda fosse carioca...
Meu Deus ? A batida. Sim. Vivo ficou mas o cérebro foi parar na bunda e a merda toda foi para a cabeça. Só pode. Achar pilotos de Nascar, taxistas... coisa de pobre mesmo mas, caramba, já era rico antes de correr. Que queda... tv com antenas e bombril nas pontas. Cerveja Skol. Baiconzitos. Cruzes. Xuxa gorda. Pior. Não entendia mais nada de corridas ! Vamos continuar.
. Não estou dizendo ?
. Que ? Quê ? Zacarias ? Ganhou ? Realismo ultra hiper fantástico ! Senhor Groo, acho que acabas de criar o Irrealismo Hiperfanático !
Não dá.
.Aê, criaram um 'S' do Schumacher em algum lugar da Alemanha ? Só uma curiosidade que surgiu.
. Nota 8. Quando Zacarias vence, o senhor acaba de vez com a possibilidade de tirar 8.5. Escolhesse o Barrilnoscornebello e tiraria 8.3. O sobrinho do Senna, ganhando, sua nota subiria para 9.5 porque aí, sim, seria sua dona redonda. Nobel estaria ao seu alcance. E mandaria o senhor para um hospício bacana aqui. Pinel. Visitaria o senhor duas vezes por mês. Uma vez.
Nota 8. O Senna tá parecendo o Fagner e esta nova corrente literária criada pelo senhor não está com nada.


M.C.L.

Ron Groo disse...

Mas é mala...
A descrição é a da corrida de 2006 no Brasil, tal como foi.

Marcelonso disse...

Groo,


Apesar de acreditar que Senna chegaria aos cinco titulos se vivo fosse, gostei do texto. Nunca havia pensado por essa perspectiva, interessante!


abs

Fábio Andrade disse...

Migo, acho que o Ayrton estaria até hoje na cabine da Globo. E acho que ele e o Michael teriam uma relação difícil nos primeiros anos. Pela personalidade do Senna, creio que ele relutaria em reconhecer Schumacher de início. Mas a primeira despedida do alemão é impossível de ser ignorado.

Parabéns pelos 10 anos!

Cristiano Matheus disse...

Olá Groo!

Depois de tantos documentário sobre Senna, creio que ele morreu jovem como um herói. Se tivesse sobrevivido, estaria como o Schumacher depois do acidente de Ski.
Ou teria se tornado um 'vilão', ou um personagem de si mesmo como Pelé.

Até mais...

Felipe Maciel disse...

Fala, Ron!

Lembro vagamente deste texto. É bem antigo mas memorável. Legal como algumas crônicas marcam um espaço na mente mesmo depois de tanto tempo.

Parabéns pela garra de manter o blog por tanto tempo, a ponto de chegar aos 10 anos de existência. Se fosse juntar a quantidade de blogs bons que ficaram no caminho, dava pra comparar com uma corrida dos anos de antigamente, com o grid cheio em que cada hora um motor abria o bico, mas você é dos raros que continua aí firme e forte, dando volta atrás de volta a cada ano que passa.

Vida longa... Pisa com tudo!

Anônimo disse...

. 2006 ? E eu lá me lembro como foi a corrida em 2015 ? Só me lembro daquele aguaceiro com o Vettelino. Dele, no aguaceiro. Só. E da ultrapassagem de quando GH-3 era só GH-0. E do GP do Brasil de 1978 ! 2° lugar pro Cospeaçúcar do Fittirato !
. E 'mala' é o Marcelonso. Vou visitá-lo em Itajaí. Tomara tenha 'rapidinhas Agora. Tchau.
. Ia me esquecendo... Vi a Ruimlliams nova ! Estalando de nova ! Tá bonita.

M.C.L.