19 de jan de 2010

Um conto funesto

Ah! A morte...
Mão pesada que tudo perdoa e a todos iguala, para o bem e para o mal dependendo do ponto de vista.
Para ela não há jeito.

Para a corriola de puxa sacos o morto era um semi-deus.
-Grande homem!-Bom coração!-Generoso...
-Diz que era bom marido, bom pai...

Para o valhacouto de desafetos era um mequetrefe de marca maior.
-Pulha.
-Canalha! Mão de vaca...
-Até a mãe dele o odiava.
-Ouvi dizer até que era viado...

E os indiferentes.
-Bem... Morreu que há de se fazer.
-Que vá em paz. Ou não.
-Já contei a vocês aquela piada do defunto que não aceitava que morreu?
-Não... Conta ai!

Os grupos cochichavam entre si sem, no entanto ouvirem um ao outro.

O fato é que Miguel tinha morrido devido a um enfarte naquela noite e foi encontrado em condições muito estranhas: nu na casinha do cachorro às duas e vinte da manhã.
Estes detalhes chegaram, para o espanto de todos, aos jornais que os presentes a seu velório já haviam lido.
Embora não comentassem, olhavam para o caixão com um grande ponto de interrogação sobre suas cabeças:
"-Na casinha do cachorro? E pelado?"

Quem contou aos jornais? E por quê?
A principio os únicos que viram foram: sua esposa; a empregada da casa, que foi quem o encontrou lá; seu filho, que foi o que o tirou de lá e claro: o cachorro que, óbvio, morava lá.
Embora este nunca conte nada a ninguém.

Já os outros...
Sua mulher o traía, há muito tempo e com muita gente.
Porém era apenas o troco...
O odiava, talvez não o quisesse morto.
Realmente não queria, mas já que morreu... Que se danasse!

Seu filho só vinha para casa uma vez por ano, não tinham contato e nem relação de pai e filho. Desde moleque só o chamava pelo nome e às vezes de coroa.
tanto fazia se morto ou vivo desde que ainda houvesse dinheiro em sua carteira.

A empregada era apenas isto mesmo, e como se sabe dificilmente uma empregada guarda segredo sobre as coisas dos patrões.
Nem que seja para ter o que falar em rodas de fofoca entre domesticas.
Com ele morto talvez não ficasse na casa.
Que seja, vida que segue – a dela, claro! – arrumaria outro emprego.

Até onde se sabe era mesmo um sem vergonha, safado, mas nunca foi zoófilo e ao que se sabe seu cachorro também não gostava dele.
Curiosamente era o único que aparentava alguma tristeza.
Não balançava o rabo.

De onde se encontra - não se sabe se céu ou inferno - olhava tudo com certo desprezo.
O mesmo desprezo que tinha por todos em vida: puxa sacos, desafetos, familiares, indiferentes e até o cachorro.
E mais, além de dividas e alguns bens que com certeza não as pagarão, deixa a dúvida: porque nu e na casinha do cachorro?

Ah a morte... Que tudo perdoa e a todos iguala, para o bem e para o mal, depende do ponto de vista.
Para ela não há jeito.
E pelo visto, nem respostas...

9 comentários:

F-1 A.L.C. disse...

mestre groo, duas coisas na vida não tem solução, a morte e muito sal na comida

e acho que o cachorro tava feliz sim, mais não mechia o rabo por outros motivos....

Maximo disse...

cada vez mais velho, cada vez mais ácido...

coitado do Miguel...

Marcelonso disse...

Groo,

Uma triste história de vida.


abraço

Carlos Cezar disse...

Acho que foi um dos contos mais tristes que já li aqui. Fiquei com pena... do cachorro é claro!


Heuiheihuiehaiheihuea

Alysson Prado "Balo" disse...

Era uma vez um morto-vivo...
... quem sabe morto ele voltara a ser?

Anselmo Coyote disse...

Putz... escrevi um coment quilométrico e não foi. Desisti.
Abs.

Felipão disse...

valeu a pena ler de novo, Groo...

aquimesmo disse...

valeu a pena ler de novo, Groo...(2)

Não sei por que, mas esse conto me transmite paz.
Vai entender.

-|T|-

Anselmo Coyote disse...

Groo,
O cara estava sozinho em casa e, já despido, teve um mal súbito no banheiro, antes do banho (isso é importante).

O cão, atento, ouviu quando seu coração falhou duas vezes e na sequência o baque surdo do choque do corpo com o chão.

Fiel escudeiro, o cão arrastou-o até sua casinha, onde tentou ressucitá-lo, inclusive um boca-a-boca ou focinho-a-boca, tanto faz a esta altura, tendo em vista o desfecho verificado.

O fato é que o cara foi pra não voltar, não voltou nem levou o cão, deixando-o profundamente decepcionado, a ponto de não balancer o rabo durante todo o velório e funeral propriamente dito.

O banheiro, ah.. o banheiro. Como o
cara não teve tempo de se banhar e assim livrar-se da inhaca em que estava, o cão achou por bem não levá-lo de volta à casa, ainda mais depois de morto.

Abs.