30 de out de 2016

F1 2016 - México: final agitado pelos motivos errados.

Louvam-se pistas pelos motivos errados.  Esta pista é bacana, tem trechos bonitos e este novo Estádio...  Este é o ponto baixo.
Bonito esteticamente e inútil efetivamente.
Trecho de baixa velocidade, sem ponto de ultrapassagem e o espectador que vê dali só vê poucos segundos da prova. Quase nada.
E o pior: para construir esta besteira matou-se a Peraltada.
Enfim...  Tem quem goste dos olhos e quem prefira a ramela.

Esta segunda corrida no México após a volta da categoria ao país tinha alguns pontos interessantes à serem observados logo na largada.
Com Lewis na ponta e uma reta gigantesca à frente, a dúvida de qual seria o comportamento de Nico Rosberg era tão grande quanto a própria reta.
Mas não tem muito o que fazer... pode pensar alguém, mas tem sim.
Nico não precisa mais vencer corridas para ser campeão este ano, basta não ficar muito longe do companheiro de equipe ao fim das provas.
Mas e a questão de orgulho? – Podem inquirir.
O orgulho de ser campeão é provavelmente maior que o no de vencer uma corrida no país do Speedy Gonzales.
Restava saber se a cabeça (fraca) dos dois cones da Mercedes tinham esta noção.
Talvez não, já que na largada, com pneus e freios frios, Lewis freou tarde e teve que cortar toda a primeira chicane.
Nico, com um toque foi jogado para fora e cortou apenas a segunda perna.
Se não fosse um acidente lá atrás com uma Sauber, certamente alguma investigação viria, mas um safety car juntou todo mundo e ninguém reclamou de nada.

Como era de se esperar, depois da tensão da largada, a corrida entrou em banho Maria e como na maioria das pistas mexidas pelo Tilke, a coisa ficou morna demais.
Vettel não parou para trocar pneus e assumiu a ponta.... Ignorou um pedido de parada e fez todo mundo lembrar que da última vez que fez isto teve um pneu estourado e não terminou a prova. Mas o ritmo do tetra campeão era bom e ele seguia monotonamente na ponta até a volta trinta e dois.
Hamilton voltou à liderança e Rosberg com o regulamento embaixo do braço não se preocupou em segui-lo. Também não foi atacado por ninguém.
De legal, apenas um rádio do Alonso mandando o engenheiro parar de encher o saco: “-Faça seu trabalho que eu faço o meu. ” – Disse.

No fim, uma briga entre Verstappen, Vettel e Ricciardo deu alguma graça à prova.
Vettel não conseguiu passar e iniciou um mimimi forte pelo corte de da chicane no fim da reta. Xingou muito, falou um monte de besteira, como aliás, vem fazendo na temporada e ficou com o terceiro lugar no grito.
Vettel no pódio
A manobra do Verstappen, aliás, foi igual a de Lewis Hamilton no início da corrida com a diferença que Verstappen foi punido ainda na sala de espera para ir ao pódio. Hamilton não.

Vitória do Hamilton e campeonato segue sem definição.
Corrida chata.

26 de out de 2016

Hot 5 do Groo: Pontos fora da curva

E mais um Hot 5 sem noção.
Desta vez com um tema esquisito, mas de fácil explicação: Músicas que são ponto fora da curva na carreira e no estilo do autor.
Ponto fora da curva neste caso especifico são aquelas obras que causam estranheza dentro da carreira da banda ou do artista.
Como se Tonico e Tinoco gravassem algo parecido com Igreja, dos Titãs.
Não covers, mas algo diferente do que se espera.
Para começar:

Pink Floyd tocando reggae.
No segundo disco sem Roger Waters, The Division Bell (1994) (o primeiro foi o tecnológico e meio gelado A Momentary Lapse of Reason, 1987) a banda criou um disco conceitual sobre a falta de comunicação.
As canções lembram o clima da banda em meados dos anos 70, mas com a pegada limpa os últimos anos da gestão Waters.
No meio do disco aparece “Come Back To Life”, canção que até começa viajante mas, antes da metade dá uma guinada e se transforma em algo parecido com um reggae. Mas um reggae mastodôntico, que se movimenta lentamente e que tem um (mais um, diga-se) solo maravilhoso.

Motorhead tocando valsa (!)
Quando se fala em Motorhead, o que vem à cabeça é uma música pesada, alta, suja e rápida, mas em 1991 a banda lançou o disco batizado de 1916.
Como sempre, todos os elementos característicos do som de Lemmy e companhia estavam lá, mas a última faixa...
“1916”, a faixa título, é uma valsa com letra tocante sobre a primeira guerra mundial, assunto que Lemmy gostava muito (as duas grandes guerras na verdade) e conhecia muito bem.

Ira! tocando samba.
O Ira! nasceu do amor de Edgard Scandurra ao pós punk, ao mood inglês e ao The Who.
Os primeiros discos da banda rezam por esta cartilha e tem como profissão de fé o rock and roll apesar da letra e dos scratches em Farto do Rock and Roll, do álbum Psicoacústica (1988).
Para o álbum seguinte, o ótimo Clandestino (1989) a receita era quase a mesma: guitarras em profusão, peso, blues, baladas, só que havia uma faixa estranha no ninho: “Cabeças Quentes” é um samba! Ainda que termine com um solo infernal de Edgard, transformando a música em um quase heavy metal.

 

Rolling Stones tocando funk.
A banda já estava estabelecida com a maior de todos os tempos (chupa bitus) e lançado seus discos mais importantes quando em 1974 pariu o disco It´s Only Rock and Roll, com a faixa título que iria figurar entre os maiores clássicos.
O disco também marca a estreia (de forma não oficial) de Ronnie Wood na banda.
Algum tempo depois seria oficializado no lugar do demissionário e magnifico Mick Taylor.
O disco é bom e vai muito bem até começar a última faixa: “Fingerprint File”
Não que a faixa seja ruim, só não está à altura do restante do disco (e muito menos das obras anteriores).
Não é das minhas favoritas, aliás, passa longe disto.

Genesis fazendo música boa.
Há quem goste... Claro, mas aqui para a casa, a única música boa dos caras é “The Carpet Crawlers”, do álbum clássico (hehehehe) The Lamb Lies Down on Broadway (1974)
Pode discordar, mas a piada ficou boa...

23 de out de 2016

F1 2016: EUA: chato como a pista que o sedia

Definitivamente não gosto desta pista americana.
O excesso de “citações” na obra do alemão do paintbrush chega a irritar: ali parece o S do Senna, aqui a Becket/Magots, outro lugar lembra Suzuka... Enche o saco.
Sem contar que estas curvas só funcionam em suas pistas originais porque estão dentro de um contexto e não aleatoriamente colocadas num plano qualquer.
E corre-se o risco de que se continuarem a elogiar este Frankenstein, logo o Tilke faz uma pista com onze curvas Parabólica, seis grampos, e uma reta aleatória.

Certo que o que importa é a corrida, mas dentro do contexto da pista (que dizem ser ótima para se pilotar, mas até aí, ter corrida e disputa é outra coisa) não dava para esperar grandes coisas.
A primeira fila formada (oh, que novidade!) pelos dois cones da Mercedes trazia, pelo menos, a inversão em relação as últimas etapas: Lewis era o pole.
A tensão pela tomada da primeira curva no alto do morro do alemão era esperada e bem-vinda.
Mas não veio...
Largada burocrática do Rosberg, com o regulamento debaixo do braço e fingindo que entende a máxima de que corridas não se ganham na largada, mas pode-se perde-las.
Ainda perdeu a segunda posição para Ricciardo, que largou (de novo) muito bem.
A posição durou até a primeira rodada de paradas, que para quem estava de pneu macio (vermelho) começou na volta nove.
Nico assumiu a segunda, mas não a manteve após a sua parada.
Na volta doze, Lewis fez a sua parada e voltou com os mesmos pneus médios (amarelos) com que largou. Sinal de distinção entre as duas estratégias dentro da Mercedes.

Neste meio tempo tivemos Vettel liderando a prova e curiosamente, não reclamou de ninguém na frente dele ou pediu bandeira azul...
Porém, daí em diante a corrida entrou em banho maria, morna até doer os ossos e dar sono.
Consequência desta mista medley supervalorizada.
O lance mais emocionante da prova acabou sendo o Kimi saindo precocemente dos pits e ficando com roda frouxa.
Parou na saída dos boxes e voltou de ré para deixar o carro em um lugar mais seguro.
A quinta série delirou falando sobre ejaculação precoce e roda frouxa...
Para não dizer que não houve lance emocionante na pista, Alonso forçou para cima de Felipe Massa e jogou duro para tomar a sexta posição no alto de morro do Alemão.
Para Massa, restou ir aos boxes trocar o pneu furado na disputa.
Alonso foi o piloto do dia em um GP sem brilho nenhum e para coroar comemorou no rádio com um grito típico dos cowboys estadunidenses: “Yyyyyhaaaa”
I´m old, but still a child
O vencedor acabou sendo Lewis, de ponta a ponta, mas seguido de pertinho por Nico Rosberg que com isto colocou mais um dedão na taça.
Grande prêmio monótono como a pista que o sedia.

21 de out de 2016

F1: 25 anos do último título brasileiro na F1

E lá se vão vinte e cinco anos do último título de um brasileiro na F1.
Um quarto de século que não há um conterrâneo no topo da tabela de pontos ao fim de uma temporada.... Se pensar bem, foi ontem se pensarmos no último argentino – nosso parâmetro na América do Sul -  que teve a honra.
Foi Fangio e também faz uma caralhada de tempo.

Só que Brasil e Argentina estão igualados em um ponto deste jejum de títulos.
Explico.
Fangio, assim como Ayrton, são as expressões máximas dos dois países quando se fala em F1.
Ainda que apareçam piquetistas (como eu sou) por aqui para contestar, a verdade é que o personagem criado pelo (genial) piloto Ayrton Senna transcende o esporte.
As histórias de Senna na pista ou com algum envolvimento com a categoria, são simplesmente fantásticas e inigualáveis.
Não que os títulos de Emerson ou Nelson não sejam, mas os de Ayrton são incontestáveis no que tange à emoção durante a disputa.
E alguns campeonatos que ele não ganhou foram tão épicos quanto!
Fangio também.

O azar dos fãs de F1, tanto brasileiros quanto argentinos, é tamanho que, infelizmente, nunca mais haverá ninguém nem parecido com os dois.
Foram os dois últimos da espécie nos dois países.
Após Senna, bons pilotos apareceram, sem dúvidas.
Rubens e Felipe não são gênios, mas foram ótimos.
Barrichello tem dois vice-campeonatos e Massa tem um, o que é muito mais que muito piloto dito melhor jamais teve ou terá e, desculpe Nelsão, mas o vice não é o primeiro dos últimos.... Em automobilismo, nunca vai ser.
E neste ponto levamos vantagem sobre os hermanos, já que após o auge ainda tivemos dois nomes de bom tamanho, eles tiveram Reutemman (pif!) e só.
Quem falar Gastón Mazzacane ganha uma gargalhada.

Outro país de tradição na F1 e que tem um jejum tão grande é a Itália, mas os italianos estão se lixando para pilotos, eles têm a Ferrari e isto é o máximo que um pais pode almejar na categoria.
Afinal, a Ferrari É a F1.
Mal comparando, Fangio e Ayrton são para brasileiros e argentinos o mesmo que a Ferrari é para os italianos.
Com a óbvia diferença da finitude dos dois e da – aparente – eternidade da scuderia.

Um dado curioso: em vinte e cinco anos de jejum, apenas seis países produziram campeões mundiais de F1 (Inglaterra, Canadá, Finlândia, Espanha, Alemanha e França).
É certo que a dificuldade em termos outro campeão é imensa por N fatores, mas não estamos tão ruins assim... E ainda temos a história para nos gabar.
Chupa mundo.

19 de out de 2016

F1 2016: Semana de GP dos EUA (e lá vem mau humor)

Semana de GP dos EUA em Austin e penso duas coisas distintas.
Primeiro: Circuit of the Américas já é feio para caramba, a abreviação COTA então fica mais feio ainda.
Mas está bom para um imenso crtl C crtl V daqueles.

Volto a repetir: com tanta pista boa nos EUA foram inventar de fazer uma copiando trechos bacanas de pistas legais se esquecendo que nos originais só funciona porque estão inseridas em um contexto. É para mim o traçado mais monótono e forçado de todo o calendário.
Segundo: É uma corrida que a Globo não transmite ao vivo por conta do futebol desde que foi criada.
O que me leva a pensar uma terceira coisa: foda-se, agora tenho Sportv em casa.

Nasr, o Felipe que restou, se disse a favor do uso de motores defasados pela Sauber no ano que vem.

Nasr ainda não renovou o contrato para o ano que vem, o que nos leva a entender porque disse isto.
E ainda que já tivesse renovado, bem... manda quem pode, obedece quem quer ficar no time.

E mais uma vez surge o papo da F1 sair de Interlagos.

Agora rumo à Brasília.
Tudo decorrente de uma consulta de um grupo financeiro disposto à tomar conta da gestão do autódromo por lá.
Vale lembrar que a pista está um lixo, o traçado é ultrapassado, o governo do DF está fodido desde a última gestão do PT etc., etc...
Ah, mas é iniciativa privada...
Claro, e já viu estes caras investirem dinheiro deles em algo que precise de reforma estrutural tão grande quanto a pista candanga?
Aí recomeça a choradeira:  se Jacarepaguá estivesse ativo...
Mas não está...
Se o Rio tivesse um autódromo.
Mas não tem...
Se...
Se o caralho, dane-se o Rio e sua falta de autódromo.
Deixa onde está que está dando lucro e está bom demais.
Mas o Dória...
Pau no cu do Dória, se está dando lucro, duvido que queria abrir mão.

Ah... E foi aniversário do Raikkonen. Uhú.

17 de out de 2016

Feliz foi Adão

-Despachante e corretora bom dia.
-Alô...  Cês já estão trabalhando?
-Bem... atendi ao telefone, então quer dizer que já estou aqui né?
-Não sei...
-Bom... Pois não?
Não eram nem nove horas da manhã ainda e o dia prometia. Já haviam sido feitos oito processos para transferência de propriedade de veiculo e nada mais, nada menos que sete estavam errados. Dois telefonemas haviam sido enganos. Um foi trote e outro era cobrança da telefônica por uma conta paga de seis meses atrás.
A luz dentro do aquário onde trabalhávamos - quem leu as outras crônicas sabe – é bem pouca, o que nos ajudava era um pouco da luz solar refletida no vidro canelado.  Não que trabalhássemos nas trevas, mas se procurássemos bem nos cantos do imóvel acharíamos alguns morcegos parentes do Batman.
De repente a luz solar se foi. Não era eclipse, nem tampouco o céu escurecendo para uma tempestade.
O cheiro da fumaça de diesel impregna o ar e as roupas.
Na porta surge um sujeito baixinho, forte para caramba. Chapéu de boiadeiro, botas de cano longuíssimo, as mãos sujas de graxa ou algo que o valha.
Sua voz encheu o escritório como água, sem deixar espaço. Alta, grossa e aparentemente feliz:
-Feliz foi Adão, que não teve sogra e nem caminhão! Bom dia aí gente que trabalha...
-Bom dia... – Respondem todos entendendo agora o sumiço da luz do sol.
O caminhão tapara sua entrada ao bloquear nossa porta. Completamente.
-Eu trouxe o bruto aí para fazer a vistoria, vou passar ele pro nome da minha menina. Legado pra ela, não é? É tudo que tenho, e vai ser dela. Pra morrer, basta está vivo, não é?
-Quantos anos têm sua filha? Ela dirige caminhão? – Quis saber o chefe.
-Não... ela é uma flor de delicadeza. Não conseguiria nem virar o volante do bruto, mas se eu morrer (já disse que pra morrer basta estar vivo) ela pode vender o caminhão mais facilmente.
O caminhão em questão era um Mercedes Benz L1313, azul, ano 1973, mas muito bem conservado.

A tarefa seria decalcar o numero do chassi para que fosse feita uma vistoria regular sobre ele. Saber se a numeração tinha ou não sido alterada.
Para quem não sabe, ou não conhece, a numeração de chassi neste modelo de caminhão fica na longarina, mas na ponta dela quase na junção com o para choque dianteiro. Embaixo do feixe de molas, com o acesso um tanto difícil.
É necessário abrir a tampa do motor e se esticar para dentro do cofre para alcançar a numeração, tarefa esta que coube ao menor de todos os funcionários. O único que estava desocupado.
Pela via normal ele não alcançou. Quase cai dentro do capô com os pés balançando para fora, mas percebe nesta manobra que se esterçassem as rodas dianteiras inteiramente para a esquerda seria possível alcançar a numeração entrando por baixo. Pelo vão da roda.
O local era apertado, mas era possível fazer.
O dono do caminhão se oferece para entrar naquele espaço dizendo que ali havia graxa e que o funcionário baixinho poderia se sujar.
Sugestão aceita.
O funcionário então dá a ele o bastão de grafite e um pedaço de fita adesiva tipo etiqueta para que ele faça o decalque e sobe até a cabine para esterçar as rodas.
Lá de baixo o caminhoneiro verifica que há pouca luz e que daquela forma não consegue encontrar a numeração gravada. Pede então para que mais uma vez se abra o capô do caminhão.
-Mas como abre?
-Tem uma correntinha aí em cima não tem?
Ele procurou e procurou. Olhou para todos os lados e só havia uma corrente que pendia do teto: “-Deve ser esta! ” – Pensou.
Puxou a corda com toda a força, afinal a tampa do motor de um caminhão deve ser pesada, ou não?
FUUUUÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓ!
O violento esporro da buzina atrai todos para fora do escritório a tempo de ver o dono do caminhão sair de baixo dele atordoado, com um corte no supercílio. Provavelmente por ter batido a cabeça no chassi.
-Desculpa aê! Foi sem querer, mas não tem outra cordinha...
-O que? Embaixo do painel...
-Eu puxei aquela que pende do teto, desculpa...
-Ahã? Debaixo do painel... Tá embaixo do painel...
-O que tá embaixo do painel?
O caminhoneiro não responde. Não ouvia mais nada. Se bobear nem sabia mais onde estava.
Feliz foi Adão, não teve sogra nem caminhão. E nem precisou decalcar o chassi...

14 de out de 2016

Judas is rising, Bob Dylan Nobel

No final da tarde daquele domingo 25 de junho de 1965, Robert Zimmermann subiu ao palco para se apresentar no prestigioso festival de Newport.
Diferente das apresentações – todas! – do cantor e compositor anteriormente, desta feita estava acompanhado com uma banda completa, guitarras e baixos elétricos inclusos, e aquilo causou estranheza aos fãs.
Não era para menos.
Todos esperavam aquele garoto com voz fanha, violão e gaita tocando suas canções fortemente calcadas no folk. Influência de Woody Guthrie e o que aparecia diante deles era a encarnação daquilo que eles mais desprezavam.
O Bob Dylan de camisa laranja, jaqueta de couro, uma Fender e banda dispararam uma versão elétrica de “Maggie´s farm” e a destruidora “Like a rolling Stone” redefinindo, a partir dali o rock – até então juvenil e pueril em suas letras – como estilo mais rico, lírico e profundo.
Como resposta, naquela tarde de domingo, ouviu da plateia vaias e um grito: “-Judas! ”.
Em contrapartida, devolveu àquela parte do público outro grito: “You´re a liar! ”.
E o que veio depois é história.

Ao receber a honraria do prêmio Nobel de Literatura faz-se justiça por um lado e cria-se injustiças por outro.
Há tempos as letras de mr. Zimmermann são mais do que apenas a parte cantada de suas melodias. Aliás, nunca foram.
Como disse a curadora do prêmio: “-Dylan criou novas expressões poéticas dentro da grande música tradicional americana. ”
Arrisco dizer que Bob fez pela literatura mundial muito mais que os três últimos escritores horados com o Nobel. E é, sem dúvida, muito mais popular que eles.
Só para citar um exemplo: seu disco Infidels (1983) que tem a faixa “Jokerman” é um relato fantástico sobre o fim de um relacionamento. No caso, dele mesmo.
A injustiça fica por conta de ter sido o primeiro “cantor pop” a levar o prêmio, deixando para trás outros nomes tão importantes e “literários” quanto o poeta Leonard Cohen, que antes de ser cantor já era escritor de sucesso.
De qualquer forma, a porta agora está aberta, mesmo que seja muito difícil que outro músico ganhe o prêmio nos próximos anos.

Será que os puristas da música também o chamarão de Judas por atravessar mais esta barreira e assim como saiu do folk acústico para o rock elétrico, ter ganho um prêmio destinado à escritores?
Mas a grande piada sobre a premiação veio pelo twitter e dizia que um repórter procurou Dylan para saber o que ele pensava sobre ter ganho o prêmio e ele teria respondido: “-The answer my friend, is blowin´ in the wind... “.

11 de out de 2016

F1 2016: Paçoca ilusória

A temporada, mesmo com o domínio da Mercedes, está agitada.
A luta pelo título é intensa e a ponta de campeonato mudou de mãos algumas vezes.
Contribui para isto a liberdade de disputa que a Mercedes – ineditamente – deu a seus pilotos, desde que – claro – não arruinassem o campeonato de construtores e suas próprias chances de saírem vencedores no mundial de pilotos.

A vantagem que começou com Rosberg vencendo as quatro primeiras, passou para Hamilton que venceu duas na sequência, teve um quinto lugar e emendou mais quatro vitórias seguidas para logo após voltar para Nico.
Fosse apenas questão de números e o equilíbrio estaria estabelecido, mas não.
Junto com cada mudança na ponta da tabela também vinha o momento de cada piloto.
Nico que havia começado on fire, a certo momento parecia impotente diante de um Hamilton confiante e afiado.
Só parecia.
Mas a verdade é que Nico, mesmo com a subida de produção de Lewis, nunca esteve muito longe da liderança. Em um campeonato tão longo, sua espiral descendente era apenas ilusória.
Nico foi, acima de tudo, regular.
A entrega de paçoca que parecia evidente não passava de ilusão de ótica.
Com exceção da Espanha – onde os dois pilotos da Mercedes se anularam – Nico teve como seus piores resultado um quinto lugar (Canadá) e ficando apenas mais duas vezes fora do pódio (quarto lugar na Áustria e Alemanha).
Enquanto Lewis obteve um sétimo lugar (China), um quinto (Baku) e não pontuou na Malásia, além da já citada Espanha.
E nas vitórias, a surra de Nico em Lewis é ainda mais evidente: nove do alemão contra "apenas" seis do inglês.

Com tudo isto, a vantagem a apenas quatro corridas do fim da temporada é de trinta e três pontos a favor do alemão.
Pouco mais de uma vitória, é verdade, mas se contarmos as últimas atuações dos dois pilotos prateados desde a Bélgica, podemos dizer que a liderança, assim como o título, ainda pode mudar de mãos mais uma vez: da mão esquerda para a direita de Nico Rosberg.

9 de out de 2016

F1 2016 - Japão: Suzuka surpreendente

A pista de Suzuka é tal qual os monstros que o Ultraman, Ultraseven ou o Spectreman enfrentavam...
Não tem estas referências? Azar o seu... Power ranger não dá.
Dizia dos monstros porque apensar de enormes e agressivos – assim como Suzuka – eram no fim das contas monótonos na forma de serem vencidos.
Eram ótimos até os heróis resolverem agir e brigar para valer.
Suzuka idem.
Penso que a pista japonesa é maravilhosa para medir o quão rápido é cada piloto, mas na hora da disputa, à vera, costuma ser chata.
Ainda assim amamos aquele lugar.

Nico largou na ponta e logo atrás (13 milésimos) vinha Hamilton.
O circo para a largada estava armado, pena que não durou quase nada...
A partida esquisita, bem no estilo moonwalker do Hamilton garantiu – ao menos – emoção para a corrida. Caiu para oitavo e teve que remar.
Melhor para Rosberg que disparou na frente.

A corrida estava bastante animada.
Kimi fazendo ultrapassagem dupla, várias ultrapassagens no meio do pelotão.
Emoção como não se via na pista japonesa já a alguns anos só para contrariar a lide deste texto.
Até as Force Índia ultrapassavam ao fim da reta de largada.
Tudo bem que foram ultrapassagens sobre as Williams, mas ainda assim...
A ultrapassagem de Hulkemberg sobre Bottas na chicane logo após a 130R é daquelas para figurar em qualquer highlight da F1.
A redenção veio depois, com uma manobra ótima de Felipe Massa sobre Carlos Sainzinho.
Já Hamilton chegou a quarta posição após aplicar um glorioso undercut na primeira parada nos boxes.
Estava vivo na corrida o snapchateiro.

Do meio para a frente a corrida deu uma acalmada, mas não deixou de ser emocionante.
O jogo de xadrez entre Hamilton, Vettel era apenas uma das nuances da disputa enquanto Rosberg relaxava e voltava a ficar atento.
Vencido Vettel, o embate era com Verstapinho, mais difícil de ser batido e sem mais paradas de boxes para tentar o golpe.
Hamilton tirou a diferença, mas não conseguiu aproximação suficiente para fazer valer efetivamente o DRS aberto.
Na derradeira tentativa, saiu da 130R colado ao Verstappen e tentou a ultrapassagem na entrada da chicane.
Passar Verstappen definitivamente não é fácil e Hamilton aprendeu isto errando a freada e passando reto.
Ficou com a terceira posição, o que pela largada que fez, foi um lucro imenso.
Verstappen chegou em segundo enquanto Rosberg consolidava ainda mais a liderança com a vitória em um final de semana perfeito.

Mais uma vez o monstro foi vencido, mas agora não com a chatice de anos anteriores.
Obrigado Suzuka, nos vemos no ano que vem.

7 de out de 2016

O telefonema do além

O dia tinha começado muito bem, já eram dez da manhã e nada errado tinha acontecido e vale lembrar que o dia começa efetivamente às oito horas.
Cada qual cuidava de seus afazeres e todos estavam muito ocupados.
Para situar, o escritório é dividido em três ambientes: o balcão que fica de frente a porta de entrada onde trabalham sempre dois atendentes.
A área de trabalho efetivo, separada do balcão por uma divisória de vidros canelados e tem a aparência de um ‘aquário’. É onde ficam as mesas, os computadores.
E o mezanino onde funciona uma corretora de seguros.

Acabavam de chegar os primeiro clientes do dia: um casal que desembarcara de um fusca verde água e um senhor que viera a pé mesmo.
Dentro do aquário toca um dos telefones e um dos chefes que estava desocupado atende.

-Alô? Sim é daqui sim... – atende ao telefone sem usar o texto padrão: o nome do estabelecimento e a saudação que melhor cabe àquela parte do dia.
- Azul? Fusca? Sim... Tem sim quem quer falar com ele? (...) Um só minuto que vou levar o telefone até ele.

Ao que parecia uma mulher ligara para tentar falar com alguém - seu marido provavelmente - que estaria por lá naquela hora.
E tinha dado a sorte.

Ao chegar à porta do ‘aquário’ lembrou-se que tinha algo a fazer na capital, avisou que estava indo naquela hora e que não demoraria a voltar.
De passagem pelo balcão olhou para os clientes e como o casal estava de mãos dadas deduziu que seria então o outro senhor.
Nem perguntou, apenas virou-se para o cliente e disse: “-Sua esposa esta ao telefone e quer falar com o senhor.” - e para o funcionário que estava atendendo: “-Vou até o bairro da Lapa, não demoro.”.
Entrou em seu carro, manobrou e sumiu em poucos segundos.

O atendente então notou que o senhor que recebera o telefone sem fio ainda não tinha atendido, nem dito um simples alô. Estava pálido e com a respiração ofegante.
-O senhor está bem?  - perguntou de forma retórica já que visivelmente ele não estava. Pega o telefone das mãos do cliente ao mesmo tempo em que o ajuda a se sentar.
O ocorrido chamou a atenção de todo mundo.
Correram para lhe pegar um copo com água, outro trouxe o ventilador para perto e a mulher que havia descido do fusca quis saber o que acontecera.

O funcionário que ainda estava com o aparelho nas mãos, ouvindo os chamados insistentes da pessoa do outro lado resolveu atender:
-Alô? Quem fala? – disse a voz ao telefone - Meu marido está ai ainda? Disseram que ele ia atender ao telefone e ta demorando, vai acabar os créditos...
-Mas senhora quem é seu marido? – pergunta ele.
-É Joaquim. Deve estar ai já, foi num fusca azul bem clarinho...
Então ele olhou para fora e viu que o fusca era verde e não azul e que o seu chefe havia se confundido.
-Olha, sinto muito, mas seu esposo ainda não chegou aqui não... Foi engano da parte do outro rapaz, desculpe.
-Tudo bem... Se ele chegar, é Joaquim o nome, pede pra ele ligar pra mulher dele, no celular. Tá bom?
-Peço sim... - e desliga o telefone voltando sua atenção para o senhor que já se recuperava.
-Menino! Fiquei realmente assustado agora... – diz ele - Minha esposa faleceu já pra mais de cinco anos. Que brincadeira mais sem graça.

Depois, bem mais tarde todos ficaram pensando em uma forma de sacanear o chefe.
Rir um pouco dele quando soubesse da situação que causou.
Eis que ele chega cansado e com cara de poucos amigos.
- Estes trens estão cada dia piores. Atrasados e sempre cheios!
- Ué, mas porque você voltou de trem? Quebrou o carro?
-Carro? Como assim? Eu fui de carro?
-Foi...
-Vixe... Danou-se! Deixei o carro no estacionamento e esqueci dele... Voltei de trem.
Todos acharam melhor nem tocar no outro assunto.
Agora era melhor rir deste novo...

5 de out de 2016

Andrea Moda

-Se o carro não estiver montado e funcionando até abrirmos os pits, estão fora do GP da Espanha. – disse o comissário de pista.
-Estamos trabalhando duro, logo vamos andar forte, você vai ver! – respondeu o mecânico.

O comissário se afastou contendo o riso, afinal, andar forte não era algo que se esperava de um carro da Andrea Moda.
Andar já seria um espanto.

Eis que se dá o milagre: o carro pilotado por Roberto Puppo Moreno funciona e sai para a pré-qualificação, mas o motor falha muito e, mesmo sendo um dos pilotos que mais consegue extrair leite de rochedo em termos de pilotar carros ruins, não consegue nada.
Enquanto Moreno tentava a sorte na pista, os mecânicos trabalhavam sobre o carro do inglês Perry McCarthy.
Ao darem o trabalho por terminado, os polegares subiram em sinal característico:
-Ok Perry! Acelera!
Então o inglês afivela o cinto, fecha a viseira do capacete e, finalmente, sente o carro se movimentar por exatos dezoito metros e parar novamente.
Desconsolado, ele sai do bólido – se é que se pode chamar assim – olha-o por longos minutos e volta para os boxes.

-Não deu... – diz Moreno.
-Not. – diz o inglês.
Mas o mais curioso era o aspecto cansado dos mecânicos do time, como se tivessem empurrado algo pesado, ou travado, com muita força por algum tempo.
Alguns maldosos da época disseram que empurrar não foi nada, o que cansou mesmo foi gritar o mais alto possível tentando emular o barulho do motor...

3 de out de 2016

F1 2016: Daqui pra frente

O campeonato está polarizado sim.
Apenas os motoristas da Mercedes podem levar o título ao fim da temporada, mas ainda assim, está aberto.

Nico tem vinte e três pontos de vantagem e o melhor momento do campeonato a seu favor.
 E isto não é pouco.
Até a etapa malaia, Nico vinha de três vitórias seguidas – em um total de oito na temporada - demolindo a vantagem em pontos que Lewis havia aberto e mesmo não vencendo na Malásia, Nico abriu quase uma vitória de vantagem ao chegar em terceiro.
Melhor ainda, viu Lewis sair zerado após um estouro de motor.
Para coroar, viu a cabecinha de vento do tri campeão entrar em colapso jogando no ventilador da imprensa sua versão da “teoria da conspiração” em favor do alemão.

Mas Lewis não está morto.

É bom lembrar quem é o queridinho da equipe e que – por mais que eu tripudie – não chegou a um tri campeonato por acaso.
Inglês campeão sem mérito, de fato é o outro, mas não vem ao caso...
Não seria nada estranho se no Japão – ou no máximo nos EUA – a equipe trocasse o motor ou o câmbio de Nico.
Isto manteria as chances de Lewis acesas e o interesse do público no campeonato.
Hollywoodiano demais?
Nada... E vale lembrar que a nova gestão da F1 é americana, e ninguém gosta mais de um dramalhão esportivo decidido nos últimos instantes que eles.

A sorte está lançada e até certo ponto a briga é equilibrada.
Quem vence?

2 de out de 2016

F1 2016 - Malásia: o vencedor chegou em terceiro

Como já escrevi, não tenho problemas em dizer que gosto da pista e das corridas malaias.
Tirando o horário da madrugada, o resto é bem ok.
O retão da largada é sempre algo bonito de se ver vencido assim que as luzes se apagam.
E esta edição não decepcionou.
Logo na tomada da primeira curva Vettel tenta passar uma Red Bull e acaba acertando Nico Rosberg.
Fim de prova para o alemão ferrarista e última posição para o alemão cone.
O virtual safety car (expressão que lembra título de música do Jamiroquai até na chatice) foi acionado e quebrou o galho do motorista da Mercedes.

A zica de Felipe Massa em seu último ano deu as caras antes mesmo das luzes vermelhas se apagarem. O carro não saiu para a volta de apresentação junto com todo mundo e fez que com o atraso o colocasse ao lado de Fernando Alonso na última posição do grid. Felipe se despedirá da categoria sem nunca ter ido ao pódio na Malásia, entre tantas outras pistas também...

Azar de uns, sorte de outro. Com dois safety car virtual acionados, Rosberg veio tirando a diferença e na volta treze já estava na zona de pontuação.
Mas a verdade é que a corrida entrou em modo cruzeiro e ficou na expectativa das paradas obrigatórias e mesmo depois dela a coisa parecia já encaminhada para um final previsível e monótono.
Ainda que a tensão gerada pela incerteza de que Hamilton fizesse mais uma parada e perdesse a vitória para um dos carros da Red Bull estivesse no ar.

Mas é Malásia, as coisas acontecem por lá de forma diferente, seja pelo calor ou por qualquer outro fator.
E desta vez o fator foi o improvável estouro do motor (trocado faz pouco tempo) do conne#44.
A vitória caiu no colo dos pilotos da Red Bull, só faltava decidir qual.
E para deixar a coisa mais equilibrada, o time do xixi de boi em lata levou os dois para trocar pneu ao mesmo tempo e os devolveu à pista em igualdade de condições.
Quem pudesse mais choraria menos.

E o que era alegria para Rosberg, que à esta altura já era o terceiro na prova virou tensão.
Depois de forçar de forma bem bonita e arrojada uma ultrapassagem para cima do aposentado Kimi (e tocar o carro da Ferrari), foi punido com dez segundos em seu tempo total de prova.
Tem horas que dá vontade de abandonar as coisas pela metade. Punição ridícula que por sorte, não teve maiores efeitos.
Nico conseguiu colocar a diferença acima dos dez segundos e confirmou a terceira posição e uma vantagem de vinte e três pontos sobre o cone#44.
Campeonato afunilando e o alemão à frente.
Teremos uma disputa?
A felicidade de Nico Rosberg após a prova
E nas dez voltas finais os Res Bull duelaram. A pena é que foi um duelo de xadrez e não um corpo a corpo.
A melhor dupla de pilotos desta temporada estava livre para decidir na pista quem é que subiria ao lugar mais alto do pódio. Coisa raríssima nesta F1 engessada.
E no xadrez, melhor para o Ricciardo, se bem que num corpo a corpo também poderia vencer.
É um grande piloto e mereceu a vitória sem dúvida (apesar de como ela chegou).