28 de fev de 2017

A escola de samba de um homem só

Legitima expressão da cultura brasileira, o samba já produziu tantas pérolas quanto qualquer outro estilo musical.
Uma delas – pasmem – é algo que se aproxima de um dos marcos do rock progressivo: o disco conceitual.
A grosso modo, discos conceituais são aqueles em que o conjunto das músicas formam e passam uma ideia. Dark side of the moon e Animals do Pink Floyd; The Who Sell Out do The Who, Sgt. Peppers dos Beatles, entre tantos outros são exemplos – às vezes bons outras tenebrosos – desta vertente.
Notou que são todos de rock? Pois bem, aqui agora um de samba. Samba e com S maiúsculo.
E o autor da proeza é Jorge Ben, muito antes de ser Ben Jor ou voltar a ser Ben...
Jorge já definiu o som da batida de seu violão como: “...a batida de uma escola de samba em retirada.” e quando perguntado se o que faz é samba-rock (sic) ele responde que é simplesmente música. E quando pedem para que dê um nome ele diz: “-É sacundim sacundem...”.
Em 1974, no século passado, portanto, fez aquele que pode ser considerado o mais estranho e belo disco de sua carreira: A tabua de esmeraldas.

Curioso, estudioso e entusiasta da alquimia, Jorge construiu neste disco uma aula sobre o tema, homenageando seus cânones e passando suas principais idéias. Como num desfile de escola de samba pela avenida.

Os trabalhos são abertos com Jorge brincando com uma de suas backing vocal, provavelmente Evinha do trio Esperança, dizendo: “-Tem que dançar, dançando” ao que ela responde: “-E tem que gravar, gravando.”. 
É a senha para o violão de Jorge marcar o inicio de “Os alquimistas estão chegando”, uma ode ao trabalho dos cientistas descrevendo seus laboratórios, utensílios e o próprio trabalho embalado em um samba poderoso.
É a alquimia dando o ar da graça transmutando ciência em ouro para dançar...

Na sequência vem o “Homem da gravata florida” que ao contrário do que se pode pensar, também é uma homenagem a um nobre desta ciência: Paracelso, o criador da homeopatia e da chamada “agricultura celestial” que é plantar e colher ervas de acordo com o favorecimento planetário.
Como licença poética Jorge transmutou a echarpe colorida usada por Paracelso ao longo da vida em uma “linda gravata colorida”.

“Errare humanun est” é o que mais se aproxima de um “samba progressivo” cheio de efeitos e citando “Eram desuses astronautas? ”, livro do suíço Erich Von Daniken de muito sucesso na época e que defendia sermos fruto do cruzamento de seres extraterrenos com espécies primatas... O tema do livro é horrível, mas o samba é sensacional.

“Menina mulher da pele preta” é uma ode a miscigenação (alquimia?) com o agora poeta Jorge cantando sobre uma linda mulher de pele preta e olhos azuis que não o deixam dormir sossegado. O suingue da canção é de enlouquecer.

“Eu vou torcer” lança uma energia positiva e contagiante tirada dos valores incutidos no hinduísmo. Esta canção faz cantar junto até quem não gosta do Gato Barbieri ou não torce pelo Mengão.

“Magnólia” volta ao tema da agricultura celestial e volta a citar Paracelso que dizia ser a magnólia a primeira flor a surgir em nosso planeta.

A próxima faixa é uma das únicas que não evocam temas místicos ou científicos, é um descanso conceitual, uma pausa para respirar e se apaixonar: “Minha teimosia é uma arma para te conquistar” foi um dos grandes sucessos radiofônicos do disco e tem um contraponto sensacional no coro masculino que acompanha a voz de Jorge.  Os Golden Boys arrasam

“Zumbi” é uma aula sobre a história da escravidão listando os lugares de onde negros eram tirados à força e as práticas da venda de seres humanos, mas avisa: quando Zumbi chegar o bicho vai pegar, afinal: “...Zumbi é o senhor das guerras/o senhor das demandas/ quando Zumbi chega/ Zumbi é quem manda.”.

“Brother” é um gospel que não faria feio em qualquer igreja americana. “-Jesus Christ is my lord/Jesus Christ is my friend”.
Embalada pelo violão e as batidas dos pés do cantor para marcar ritmo. Serve também como forma de afastar a alquimia – na visão popular brasileira – das ciências ocultas e liga-la a uma ação evolutiva de luz, não de trevas.

O que pode parecer apenas uma piada engraçadinha “O namorado da viúva” é na verdade uma homenagem ao alquimista mor Nicolas Flamel, que teve a “coragem” de se casar com Perrenele, uma viúva muito rica – e segundo a canção, boazuda – que já havia enterrado três maridos. A musica é um dos pontos altos da obra.
Aliás, são de Flamel também as ilustrações que compõe a capa do disco e estão incrustadas na cripta onde descansam os restos mortais do alquimista na igreja dos Santos Inocentes em Paris.

“Hermes Trismegisto e sua celeste tábua de esmeraldas” é uma homenagem a Toth, sumo sacerdote da comunidade Khen, que teria se salvado do afundamento de Atlântida e teria sido confiado a ele a guarda da Tábua de Esmeraldas que contem a sabedoria de todas as eras.
Em tempo: Trismegisto quer dizer “três vezes grande”.

“Cinco Minutos”, que parece – só parece – uma cena do cotidiano de um desencontro em que a amada se recusa e esperar por mais cinco minutos o seu par é na verdade uma mensagem do autor que frisa “você não sabe quanto valem cinco minutos” lançando luz sobre o valor do tempo para a realização da obra de cada um.
Jorge voltaria a falar de alquimia em pelo menos mais dois discos posteriores, os ótimos: Solta o Pavão e África Brasil, mas pedra fundamental (e filosofal – para não sair do tema) é este Tábua de Esmeraldas.

27 de fev de 2017

Lançamentos 2017: The good, the pretty and the bad, as três últimas

Em sua segunda temporada na F1 a Haas vem com um carro tão agressivo quanto sua estreia na categoria.
A melhor surpresa desde a Brawn GP (guardando as devidas proporções) o time norte-americano quer continuar fora do fim do grid e se possível marcando pontos importantes.
Foi a primeira equipe a dizer publicamente que estava deixando o desenvolvimento do carro de 2016 para focar no projeto desta temporada.

O esquema de distribuição de cores é o mesmo, com o vermelho e preto no bico e o cinza substituindo o branco.
Apesar do cinza, o carro ainda assim é muito bonito.
A tendência do bico piroquinha está presente, assim como a tampa de motor com barbatana.
O motor ainda é o Ferrari, o que pode ser problema.
Um dos pontos fortes do time é sua dupla de pilotos: Romain Grosjean, medicado e controlado é um grande piloto e Kevin Magnussen, outra das boas promessas.
Particularmente, o time seguirá no meio do pelotão, mas a torcida é para que evolua rápido.

A Toro Rosso também está de pintura nova no novo carro.
A nova identidade visual do lado B da Red Bull vem para tentar dissociar o time da irmã rica, mas não da marca de enlatadores de açúcar.
E acertaram na mão.
O carro ficou lindo com um bico tradicional (sem a escrotice da piroquinha) longo e delgado.
A barbatana também está neste carro, mas é discreto e ainda ajuda na composição da pintura do boi, que agora é branco.
Na verdade, a pintura faz alusão à latinha de outro produto da empresa: a red bull cola.

Se for tão bom quanto é bonito, o carro vai ser a melhor coisa do ano, mas se for tão ruim quanto o energético sabor cola da marca.... Vão ter muitos problemas.
O motor é o Renault, que infelizmente já deu xabú na sessão de filmagens, o que não é um bom sinal.
A dupla de pilotos conta com o russo fio virado Danil Kvyat, que vai tentar não ser demitido neste ano e Carlos Sainz Jr., que corre mais com o nome do pai do que com o talento propriamente dito.
Não tem particularmente neste time... Só espero que seja realmente competitivo.

E para fechar a temporada de lançamentos vem a Red Bull.
E os carros que venciam tudo antes da Mercedes não decepcionaram!
Como fez a McLaren durante anos e anos, mudaram um ou outro detalhe na pintura, desta vez um azul um pouco mais claro, mas ainda fosco.
A percepção fica prejudicada nas fotos, já que a equipe fez uma apresentação um tanto sombria, mas uma das fotos laterais do carro deu a impressão, talvez errada, de que parece ser pesado.
O motor é o Renault rebatizado de Tag Hauer, que ano passado até deu uma melhorada em relação a 2015, mas para vencer os potentes Mercedes de fato, ainda parece pouco.
Ao menos continuam tendo a melhor dupla de pilotos do grid.
Daniel Ricciardo, o boa praça e Max Verstappen, que incomoda mais gente do que se pensa, com um carro minimamente competitivo em 2016 já deram mostras que se a Mercedes vacilar, tomam de assalto a categoria e com carros realmente de ponta, dominam a porra toda com muito mais competência do que os cones do time alemão conseguiram fazer.

25 de fev de 2017

F1 2017 - Lançamentos: MCL32 e SF70H, as apostas de dois pilares da F1

Todo ano os fãs dizem a mesma coisa: “-Ia ser legal se a McLaren viesse laranja...”
Afinal, laranja é a cor oficial do time de Woking.
Também tem aqueles que querem a pintura dos anos 80, aqueles que.... Deixa pra lá.
Mas o fetiche da rapaziada é mesmo o laranja... O papaya Orange, como dizem os puristas
E neste ano, sem Ron Dennis no comando, cederam: a jabiraca veio laranja e preto.
Não é o tom certo do papaya Orange, para ser exato, é algo que em fotos e video, dependendo do ângulo, estará bem perto de um vermelho.

E a combinação com o preto, o esquema das cores distribuídas no carro faz lembrar mais uma Manor que uma McLaren. Também já disseram que parece com um das Arrows.
Fico com a Manor.
Até porque, nas últimas temporadas, pouco fez a mais que a coirmã falida.
Mas é um time tradicional, e assim sendo, quem sabe não surpreendem?
Pintura à parte, o carro é bonito.
O bico elegante termina em uma asa dianteira aparentemente muito complexa, cheia de pequenas aletas e degraus.

A tampa do motor tem a barbatana, mas surpreendentemente, no carro da McLaren ela faz muito sentido. Se é útil ou funcional é outra coisa.

O motor é o contestado Honda, mas é bom frisar: é Honda!
Os nicômicos dominaram o mundo da F1 por muito tempo e pode até demorar um pouco, mas se realmente quiserem, voltarão a dominar.
Como dizia aquela música do Ultraje a Rigor: “.... Japonês estuda/ japonês trabalha/Japonês não falha, também não avacalha. /O mundo vai ser deles, já estão quase lá. ”
Os pilotos são: Alonso, que dispensa apresentação e que agora também é simpático. E Vandoorme, uma das promessas da nova geração.

Particularmente penso que é o ano do começo da recuperação.
A F1 precisa da McLaren forte.

Também os carcamanos mafiosos da Scuderia Ferrari lançaram seu novo Fiat.
A pintura tem um pouco menos de branco, mas é praticamente igual desde aquele bordô lindo e chique que Felipe Massa dirigiu em 2008. Depois dele, só derrota.
O bico parece com o bico de todas as outras (tirando a McLaren e o horror da Force Índia).
Também tem a “barbatana” na tampa do motor, tipo mais do mesmo, mas com uma “asinha” antes do aerofólio.
Se é perfumaria ou funcional, só as corridas dirão.

Sebastian Vettel (que deve estar bem arrependido...) e Kimi Raikkonen (que não deve estar nem aí...) terão a missão de guiar.
Eles torcem para que o motor não seja o ponto fraco deste ano e que tenha evoluído pelo menos um pouquinho.

Particularmente penso que também deva reagir e voltar a incomodar brigando por pódios e vitórias com frequência.
Afinal, a Ferrari (por mais que a gente zoe) é a personificação da F1.
Uma Ferrari demasiado fraca equivale à uma F1 sem muita personalidade.

24 de fev de 2017

F1 2017 - Lançamento: W08 a miss F1 (ao menos por enquanto)

Barbatanas?
Não... A Mercedes nunca teve.
Bico com piroca?
Também não.... Nem grande e nem pequena.
Degrau? Não me lembro...
O máximo de esquisitice concedido foi o bico estranho (e muito feio) do W03 de 2012, quando o time ainda não era a potência dominante que é hoje.
Assim que se aprumou e começou a vencer regularmente, nunca mais fez algo vergonhoso em seus carros e coincidentemente, nunca mais perdeu.
Com o W08 não foi diferente.
A pintura é praticamente a mesma, sem sustos e sem invencionices.
Sóbria, bem balanceada, com uma paleta de cores de bom gosto e... Chata.
Sim... O maior (e talvez único) defeito deste carro é sua pintura.  O mesmo prateado visto em tantos corsas classic nas ruas por aí.
Mas isto não é suficiente para desgostar do carro.

O bico é elegante e em seu fim apenas uma suave curva onde repousa estrela que é símbolo da montadora.

Assim como no Renault, a pequena asa traseira é bem notada e forma um conjunto elegante com as rodas e pneus mais largos.
Sob a tampa do motor apenas um aparato esquisito.... Algo como uma pequena e fina asa que ainda não se sabe se é apenas um sensor para os testes ou um apêndice aerodinâmico.

Com a responsabilidade de manter o time no topo, os motoristas da vez são o queridinho da casa Lewis Hamilton e tapa buraco Valteri Bottas.
Curiosamente, a sessão de fotos do lançamento do carro mostra Hamilton sentado sobre o pneu dianteiro do carro enquanto Bottas está no traseiro.

Se o carro seguir dominante, será que há alguma chance de Bottas desafiar Hamilton?
Nunca vi Valteri como um fenômeno, aliás, nem mesmo como alguém melhor que Nico Rosberg.
O que por um lado é bom para Hamilton, por outro é muito ruim.... Se perder para Valteri logo após ter sido derrotado por Nico, ficará patente que não é necessário ser um fora de série para derrota-lo. Bastaria ter um carro bom ou igual e aproveitar as chances.

Particularmente, torço contra.
Apesar da beleza do carro, não curto montadoras e muito menos as fuças do Toto Wolf.
Que percam bonito.
Bonito como o carro que fizeram.

23 de fev de 2017

F1 2017 - Lançamento: A coisa da Force Índia

Falou em carro feio? Falou Force Índia.
Desde que foi fundada, em 2008, os indianos levam a sério a máxima que diz que: o primeiro requisito para ser indiano é ser feio.
Nunca fizeram um carro bonito que fosse.
As pinturas – aqui sempre chamadas de samba do indiano doido – sempre foram confusas: branco, laranja, preto, tudo junto, misturado...  Era mais poluição visual que pintura.
Nas últimas temporadas a predominância do prateado junto com a miscelânea de cores prevaleceu.
Neste ano sobressaiu.
O carro tem um tom de prata horroroso, como alumínio velho não bem areado. Talvez um Bombril desse jeito de brilhar, mas nem isto ajudaria.

E não ajudaria porque o carro é plasticamente horroroso.
O bico trás o que de mais horrendo a F1 produziu nos últimos anos: o degrau.
Não bastasse, termina em um treco fálico destacado sobre o fim da peça.
A barbatana parece (talvez pela cor) exageradamente grande.
Nem a pequena asa traseira se salvou, fazendo com que o carro pareça largo demais no meio e fino nas extremidades.

Se há algo que o time indiano já tem é o título de coisa mais feia do ano.

A equipe do bilionário Vjay Malya, que aliás, não pode pisar em seu país por conta de um pedido de prisão, vai ter o motor Mercedes para continuar a sua trajetória ascendente na categoria (foi quarta colocada na temporada passada, o que pode atrapalhar um pouco é a dupla de pilotos.
Sérgio Perez nem é ruim na verdade, só imprevisível.
Pode ir de besta a bestial na mesma corrida com a mesma velocidade do carro que dirige.
Já Esteban Ocon.... É só Esteban Ocon mesmo.
Ao menos uma coisa Sérgio possa realmente ajudar: quem sabe com algumas boas pancadas o problema estético do carro não se resolve?

Particularmente torço para que continue subindo de produção: a categoria precisa.
E como carro bonito é o que ganha corridas, quem sabe este trambolho rococó estrumbicado não nos surpreenda?
É só o Malya ficar fora da cadeia...

22 de fev de 2017

F1 2017 - Lançamentos: O tratorzinho fitness da Renault

E a Renault lançou seu carro.
Carro? Sim.... Ao que parece, este ano com a pintura trazendo um pouco mais de preto junto do amarelo (tradicional?) do time, o tratorzinho da Carterpillar passou da categoria de máquina agrícola para bólido de corrida.
Ficou charmoso.

A combinação preto/amarelo é capaz de deixar qualquer coisa simpática.
Desde o roupão de Rock Balboa no último filme da série, até um carro de uma equipe francesa que não prima pelo bom gosto...
De qualquer forma, quem olhar de frente ainda vai ter a sensação estranha de estar vendo um trator da Carterpillar.

As linhas seguem a tendência deste novo regulamento de formato para os carros, porém o Renault RS17 parece mais esguio que o carro gorducho da Sauber.
O bico é elegante, mesmo terminando com o maldito pingulim/piroquinha.
A barbatana de tubarão também está lá e, se não me engano, a equipe foi a primeira a usar a tal peça alguns anos atrás, embora naquele tempo tivesse mais o aspecto de uma bigorna que de uma barbatana.

Os carros serão, obviamente, equipados com o motor da montadora francesa que no ano passado até deu uma boa evoluída, mas ainda não é dos mais potentes.
Ou seja, não é dos times que se espera ver na ponta do grid a não ser que tenham feito um ótimo trabalho com o chassi do carro (e os outros times fizerem algo pior).
Fala-se na equipe que é um projeto para dar frutos (vitórias e títulos) em três anos.
Se não caírem fora da categoria antes, claro...

Pilotarão o tratorzinho fitness a eterna promessa Nico Hulkemberg, o nico que sobrou para a F1 e Jolyon Palmer, que não é nada, não é nada.... Não é nada mesmo. Disparado o pior piloto do ano passado.
Particularmente penso que o time (em se mantendo na categoria sem chiliques) está no caminho certo, mas para ter ainda mais velocidade no retorno ao topo, só trazendo o torresmo de sunga Flávio Briattore, seu escudeiro Pat Simonds e Nelsinho Piquet. Só para ficar na maldade...

21 de fev de 2017

F1 2017 - lançamentos: C36, o caminhãozinho da Sauber

Não é feio, mas está longe de ser bonito.
Assim é o carro da Sauber, o C36, que se não surpreender de forma muito positiva, é sério candidato a fechar os grids durante o ano.
Esteticamente falando (assim como no caso da Williams, é só o que dá para analisar) o carro parece meio “gordinho”.
A faixa dourada na lateral do bico deixa a impressão que a peça é quadrada, achatada ou algo assim.
A curva descendente do bico é acentuada e tem um início bem abrupto e – infelizmente – também termina em um pequeno pingulim (ou piroquinha, se desejarem).
Com a saída de Felipe Nasr do time, a cor amarela foi devidamente limada já que se referia ao patrocinador máster do piloto brasileiro.
Em seu lugar, o branco e detalhes dourados.
A pequena asa traseira, muito elegante, parece dívida em duas peças e o carro traz de volta o famigerado (e feio) acessório aerodinâmico “barbatana de tubarão”.
O carro vai ser equipado com uma versão mais barata do motor Ferrari, que já não é lá estas coisas nem no carro da própria scuderia.

Os motoristas do pequeno tratorzinho da Sauber serão o bom Pascal Wehrlein e pelo nem fede e nem cheira Marcus Ericson. Porém, por melhores que fossem os pilotos, se o carro não corresponder de nada vai adiantar.
O carro vai à pista logo no primeiro treino coletivo em Barcelona ainda neste mês de fevereiro, mas contará com o italiano Antonio Giovinazzi (quem?) já que Pascal está lesionado.
Particularmente, não acredito em uma recuperação total do time, mas pior que ano passado é muito difícil que seja.
A aposta fica por conta da embaralhada que o novo regulamento para construção dos carros deu.
Neste caso, a incógnita é a melhor aliada da Sauber.

20 de fev de 2017

F1 2017 - Lançamentos: Williams, the first

A Williams foi a primeira equipe a mostrar (ainda que não oficialmente) seu carro para a temporada de 2017.
Obviamente não dá para dizer nada além da estética. Nem o ronco do motor Mercedes que vai empurrar o carro.
Aliás, do motor, só se sabe ser novo e alinhado com o que vai equipar o carro do time titular da montadora alemã. O que já é muito bom e garante que se o time tiver feito um bom trabalho no chassi, o ano pode ser bom.
Mas este é um ano de transição e é melhor que as expectativas estejam baixas. A decepção pode ser bem menos dolorida.

Das fotos divulgadas, talvez pelo ângulo, não deu para ter grandes impressões e nem fez tanta diferença o largo pneu traseiro adotado para esta temporada.

Com novas fotos em novos ângulos talvez fique melhor, mas o aerofólio traseiro, mais baixo e menor deixou o carro muito elegante.
Assim como o bico mais baixo e sem degrau.
Desapontou ainda ter aquela piroquinha na ponta.
A pintura, que aparentemente pouco mudou, continua o ponto alto.
Porém, é uma Williams, e se é assim: é linda.

O time, como todos sabem, vai com um novato (Lance Stroll) que só é citado por aqui por ter pai rico (acham que ter grana é feio, é errado.... Vai entender?) e um aposentado em atividade (gosto do Massa, mas não ia perder a piada).
Lance promete, pelo que fez nas categorias de base, ser um dos bons nomes da categoria nos próximos anos.
Já Felipe disse que começa a repensar se fica ou não na categoria ao final desta temporada. A própria equipe já disse estar confiando nele para reerguer o time.
Porém, enquanto Stroll tem um futuro pela frente, Massa tem um passado e é este que pode detona-lo. Se for pior do que foi ano passado, cairão em sua alma dizendo que foi um desserviço voltar. Por outro lado, se for bem e resolver ficar, as cobranças ficarão mais fortes. E todos sabem como são as cobranças de uma torcida que teve Emerson, Piquet e Senna.
Barrichello deve ter pesadelos até hoje com isto.

Em simulador, Massa disse ter sentido que o FW40 (nome oficial do carro) é muito rápido nas curvas.
Treino é treino e jogo é jogo.
Particularmente, penso que se conseguir ser terceira ou quarta força do ano, já estará em um lucro muito grande.

16 de fev de 2017

Futuro do Passado

Havia publicado este conto no antigo blog do IG, mas, sei lá porque,  nunca o coloquei neste... foi um dos meus primeiros textos. Espero que apreciem.
Naquele dia dez de outubro de 2006, Ayrton acordou mais cedo do que costumava acordar aos domingos. Afinal era dia de Gp Brasil de F1!
Acompanhava sempre.
Estava aposentado desde 1995 quando, desiludido com a fragilidade dos carros Williams, resolveu que era hora de parar.
Havia perdido dois campeonatos, 94 e 95 para um alemão até então desconhecido que pilotava um carro com nome de grife de roupas, mas que se revelara um excepcional piloto ganhando o mundial sete vezes, sendo cinco seguidas.
Na verdade, já se sentia deslocado no circo...
Os rivais já não eram tão desafiantes. Já não havia mais Prost ou Mansell, e pior: Piquet já havia parado, o que o impossibilitava de dar o troco daquela ultrapassagem humilhante que tomara na Hungria em,1986.
Em suma já não tinha tanta graça.

Mas acompanhava a F1 de sua casa em Tatuí onde também ficava a sede de suas auto-escolas que se espalhavam em filiais e franquias por quase todo o estado de São Paulo.
Dos antigos amigos mantinha contato com Berger e Barrichello.
Atendia sempre que podia ao Reginaldo Leme e até quando não podia a Luiz Fernando Ramos, o Ico.
Respondia aos e-mails de Eduardo Correa e vez por outra mandava suas colaborações ao site GPtotal.
Só guiar é que não fazia mais.
Escapara ileso do acidente na Tamburello em 94 e continuou o campeonato com garra e coragem e até ouviu de Prost um sincero: “-Se fosse comigo eu parava no dia seguinte e nunca mais entrava num carro na minha vida...”.
E de Piquet um irônico:
“-Porra.… tinha de ser na mesma curva que eu? ”.

Naquela manhã sentou-se em frente ao enorme aparelho de TV de sua sala de estar e se abasteceu de muitos quilos de salgadinhos, batatas fritas e outros venenos comestíveis; um punhado de latas de cerveja, afinal ele também era filho de Deus - e não o próprio como queriam crer alguns fãs - e gritou para sua esposa que estava por perto.
“–Benhê, não me incomoda agora não que vai começar a transmissão da corrida...! ”
E ela respondeu meio que alienadamente:
“-Mas de novo Ayrton.... Você vê corrida todos os fins de semana.... É formula 1, é stock, é formula Indy; é Nascar.... Até kart você assiste! Assim não aguento...”.
“-Mas amor, a velocidade está no sangue...”.
“-Ayrton.... Você vive chamando os pilotos da Nascar de taxistas...
“-Benzinho... mas tem uns acidentes tão bacanas...”.
“-Desisto, fica aí com este ronco de motor na orelha, vai...”.
E ele assiste tudo...
Desde os boletins antes da prova, matérias especiais que não acrescentam nada no programa de esportes da transmissora oficial até que finalmente vem a largada.

Então vê Felipe Massa disparar na frente tomando a ponta e não mais perdendo até a bandeirada final, como ele mesmo cansou de fazer quando corria pelo mundo afora.
A briga principal era entre o alemão que o derrotara e um espanhol que era então atual campeão mundial que lutava pelo bi.
O alemão vencera em Monza e lá mesmo anunciara sua aposentadoria e agora precisava vencer o GP Brasil e torcer para que o espanhol não pontuasse para garantir o que seria seu oitavo título
O carro do espanhol era um foguete!
Mas, o alemão era o alemão. Então...
 Largou em décimo, em poucas voltas o germânico já era o quinto quando furou um pneu durante uma ultrapassagem sobre um italiano que era companheiro de equipe do espanhol. Caiu para último, mas veio se recuperando.... Passando um por um.
Ayrton não piscava quando o alemão passou por Barrichello.
Mais um pouco e já não mais mastigava.
Mais uma ultrapassagem e Ayrton dava outro gole na cerveja com os olhos arregalados.
No fim da reta de largada na entrada do ‘s’ que leva seu nome, vê o alemão encostar no muro e também se espreme todo.
O come que o alemão deu em um finlandês fez Ayrton jogar salgadinhos e cerveja para o alto e gritar. “-É gênio, troca o nome deste ‘s’ pra “S de Schumacher! ”.

Quando acabou corrida e o hino nacional foi ouvido pela vitória de Felipe Massa, o alemão não estava no pódio.
Mas nem precisava estar.
Chegou em quarto, ofuscando o inevitável título do espanhol.
No sofá, emocionado, ainda ouviu o alemão dizer que estava feliz por ter sido Felipe Massa o primeiro brasileiro a vencer no Brasil depois dele.
Então Senna ergueu sua lata de cerveja em tom solene e saudou o alemão:

 “-Este é do caralho! ”

13 de fev de 2017

F1 2017: Talvez o início de um novo reinado

Em 1984, na quinta feira anterior ao GP de Mônaco que daria o pontapé inicial ao mito Ayrton Senna, um caso chamou a atenção.
O jovem Senna havia atrapalhado uma volta rápida do campeão mundial Niki Lauda e este foi tomar satisfações.
Além da mais olímpica indiferença, Lauda recebeu também um dedo do meio em riste.
Mais do que uma mostra de má educação desportiva, o episódio pode ser encarado – muito – tempo depois como uma espécie de passagem do bastão, entrega de faixas ou que quiserem para ilustrar a queda de um rei para o coroamento de outro.
A história com Lauda ainda teve um desdobramento naquele mesmo ano em Nurburgring.
Lauda deu passagem a dois carros, mas fez questão de travar Senna não o deixando passar de forma alguma.
Nos boxes, o brasileiro veio louco da vida tomar satisfação e ouviu do austríaco: “-Isto é para você ver o que me fez (em Mônaco), e vê se aprende.”.
O que veio depois é história e até onde se sabe, se tornaram bons amigos e Lauda sempre se referiu a Senna como um dos melhores da história.

Ok, Senna não foi o piloto dominante nos moldes como nos acostumaríamos a ver.
Durante seu “reinado” que vai de 1985 até 1993 (em 1984 o rei Lauda manteve sua coroa e 1994 não pode ser contado) foi contestado por postulantes ao trono como Prost, Piquet e até pelo bufão Mansell. Mas durante sua passagem pela categoria, ninguém chamou mais a atenção ou encantou tanto até torcedores de outros países como ele.
Anos depois, a passagem do bastão – ou coroa – começou a se dar com o mesmo Ayrton indo aos boxes cobrar de Michael Schumacher por uma atitude em pista.
Durante um teste em Hockenheim em 1992, após um acidente, Senna chegou mesmo a pegar o então moleque Michael pelos colarinhos e só não lhe deu uns tapas porque a turma do “deixa disso” agiu rapidamente.

Schumacher, assim como Ayrton, acumulou reclamações pela forma agressiva com que se portava em seus primeiros anos na categoria e ambos fizeram a história da F1.
Curiosamente, só falta alguém que tente bater em Max Verstappen dentro de algum paddock em algum lugar do mundo para que possamos ver a roda da história em movimento mais uma vez.
Ao menos é esta a minha aposta para os próximos anos...

10 de fev de 2017

Just keeps walking spreading his magic

No fim de semana passado, o grupo seminal do heavy metal fez o seu último show.
O Black Sabbath se aposentou dos palcos (até que Tony Iommi resolva voltar) com três quartos de sua formação original já que Bill Ward não estava no palco e nem participou do que eram então os últimos discos de estúdio da banda, o álbum 13 (2013) e o EP The End (2016).
A aposentadoria é algo bom.
Tony vai cuidar da saúde, Geezer Butler vai continuar compondo suas trilhas e Ozzy seguirá sendo Ozzy.
Aliás, o fim dos shows poupará bastante a imagem do Madman, porque, apesar da potência técnica da banda e de uma qualidade de performance absurda como instrumentistas, Ozzy era uma caricatura do vocalista que já foi.
Para se ter uma ideia, a apresentação de uma de suas mais icônicas canções, “Snowblind”, do disco Paranoid (1970), chegava a constranger com os berros apatetados de “cocaine” quando na gravação original a palavra não passava de um sussurro soterrado pela mixagem.
Além de, claro, não ter mais o mesmo folego e já não alcançar as notas necessárias à uma penca de clássicos, forçando a banda tocar mais lento ou mais baixo.
Mas era Ozzy, o cara que criava um clima de terror apenas abrindo a boca e erguendo os braços e é muito difícil pensar em Black Sabbath sem ele.
Dio até foi legal, mas...

Falar da importância dos caras é chover no molhado.
Se hoje existe N bandas com temáticas soturnas, guitarras ultra pesadas e riffs poderosos, deve-se tudo aos quatro cavaleiros do apocalipse de Birmingham.
Se há Slayer, Ghost, as bandas de black metal (fakes e trues), a culpa é daquele disco com uma figura sinistra em frente a uma casa não menos sinistra na capa.
Mas na modesta opinião deste escriba, a maior contribuição da banda ao gênero que criou nem foram as inúmeras bandas que influenciou, mas a injeção de humor.
Basta ler as biografias de Tony e Ozzy para se ter a exata noção de que tudo não passava de uma grande piada.
E se tiver preguiça de ler, preste atenção nos detalhes.
Mesmo cantando coisas como: “My name is Lucifer, please take my hand.” (“N.I.B”, do primeiro disco, 1970), sempre terminava os shows com: “-God bless you! ”.
E como os compositores de música clássica que já não estão mais por aqui há séculos, mas todos conhecem e sua obra ainda é tocada, assim será o Black Sabbath.
Exatamente como na letra da música que é o ring tone do meu celular (“The Wizard” Black Sabbath, 1970): Never talking, just keeps walking, spreading his magic...

8 de fev de 2017

F1 2017: Hora de se valer da segurança conquistada?

Depois daquele maio tenebroso em 1994 a F1 passou por uma corrida desenfreada em busca da segurança.
Caçaram-se bruxas, é verdade... Curvas foram transformadas em retas; retas ganharam chicanes; autódromos foram modificados, desfigurados e alguns até riscados do mapa.
O símbolo mor desta caça às bruxas nem foi a plástica feita em Imola onde se extinguiu a curva Tamburello, visto por muitos (erroneamente) como a principal vilã naquele primeiro de maio, mas uma estúpida chicane instalada em plena Eau Rouge em Spa-Francorchamps.

Mas coisas boas foram feitas também.
Desde 1994 o número de óbitos na F1 se reduziu a – infelizmente doloroso – um caso.
E nem foi pela insegurança do carro ou dos equipamentos.
As pesquisas de materiais que resultaram em capacetes mais resistentes (e leves), as células de sobrevivência que protegem o piloto mesmo com os carros se desmanchando inteiros nas pancadas entre outras coisas...
O hans para a proteção do pescoço e cabeça contra o efeito chicote, a obrigação de que os cockpit fossem elevadas até acima dos ombros dos pilotos.
E diferente das mutilações, o asfaltamento das áreas de escape também faz parte do rol de coisas boas.
Brita é muito bom para “punir” piloto que ultrapassa os limites da pista, ou erra, no popular. Mas era inseguro para segurar carros desgovernados.
A punição fica por conta dos track limits, que só precisam sem melhor vigiados.
O asfalto se encarrega de diminuir a velocidade quando possível e claro, não deixar tratores extremamente mau posicionados também ajuda bastante.

Seria bom que agora, com toda esta segurança que sabemos ter sido conseguida, os pilotos fossem liberados para disputar e defender posições mais livremente.
Não de forma selvagem ou desonesta, mas a regra sobre mudança de direção na defesa bem que poderia ser relaxada um pouco.
Quem sabe com a Liberty e Ross Brawn no comando?

Mas voltando a segurança e ao baixo número de acidentes fatais na categoria desde 1994, creio que a maior contribuição para que acontecesse veio em 2011, quando Robert Kubica, de uma forma não muito ortodoxa, deu adeus às pistas de F1.

6 de fev de 2017

F1 2017: Coisas que não veremos

A McLaren com um carro chamado MP4 qualquer coisa.
Depois de aposentarem a força o chefão Ron Dennis, decidiram que o carro não vai ter mais a nomenclatura tradicional.
No lugar do MP4 entra o MCL... E este é o MCL32.
Mas ao que parece, a tradição no time de Woking não vai ser totalmente esquecida já que há fortes indícios de que o carro virá pintado de laranja, a cor oficial do time.
Sim... Laranja e não branco e vermelho...
Outras coisas bem prováveis de não serem vistas para os lados do time inglês são as vitórias, as poles...

Não veremos a Manor, mas nem por isto vamos deixar de ver um time fim de grid.
Só vamos precisar saber qual vai ser.
Aposta? Cravo forte na Sauber e arrisco, não alinha em 2018.

GP da Alemanha também não vai ter.
Este ano fará falta já que seria disputado em Nurburgring e não no asséptico e mutilado Hockenheim.
Vettel e Wehrlein não terão um GP para chamar de seu.

Não veremos as placas, banners e pinturas na grama como a frase: “Bernie says: think before you drive. ”
Como também não veremos o Bernie Ecclestone...

Tema da vitória?
Sinto muito.
A temporada será de grandes mudanças, mas não de milagres.

3 de fev de 2017

Garranchos

O cara chega em casa exatamente as cinco e meia da tarde, toma um banho e vai para frente da TV jogar vídeo game.
O dia tinha sido horrível.
Muitos ‘pepinos’ no trabalho, problemas com o transporte público que usa.
Mais que justo que pudesse ter algumas horas de diversão até que sua esposa chegasse do trabalho e ele fosse obrigado a deixar o controle que usava para dirigir carros de F1 por pistas do mundo todo. Esta era sua maior diversão.
Então toca o telefone: era ela.
- Alô?
- Alô! Amor? Já em casa que bom.... Pode me fazer um favor?
- Claro amor.... Tudo! – Disse ele sem muita convicção. Queria jogar.
Sua esposa era revendedora de uma marca de cosméticos e tinha um monte de clientes fiéis e às vezes pedia para que ele buscasse os pedidos e passa-los à consultora por e-mail. Era simples e este era o caso agora.
- Cê pode, por favor, pegar o pedido da nossa cliente do centro, juntar com os outros e fazer o pedido? Só falta o dela e é só até hoje.
- Claro... E onde está o pedido?
- Em cima do criado mudo...
- Ta bom... Beijos.
- Beijos...
Foi lá, pegou um envelope com um papelzinho dentro. Um envelope enorme com meia folha de caderno e só meia linha escrita. Já achou um desperdício.
Estava com a paciência curtinha e quando estava assim não era muito boa companhia.
Pegou o papelzinho, juntou com os pedidos que estavam no rack da sala, ligou o computador, acessou a pagina e começou a digitar o e-mail com os pedidos.
Até o item setenta e três tudo ia bem, mas o próximo e último era o item que estava no papelzinho dentro do envelope. Pegou, leu e releu, achou estranho, mas mandou assim mesmo: um ‘alargador de cútis’.
“-Mas que porcaria seria um ‘alargador de cútis’?” - pensou
De qualquer forma tem de tudo nestas revistinhas, logo deveria ser algo de uso feminino mesmo.
Escreveu o item lá fechou a planilha e tocou pela ultima vez no ‘enter’ terminando a tarefa. E-mail enviado, podia agora voltar ao vídeo game, aos carrinhos e as pistas...
Toca de novo o telefone.... Aí já se irrita um pouco.
- Alô!
- Amor? Já passou? Deu tudo certo?
- Deu! Já foi... Beijos.
- Tá ocupado?
- Tava... Beijos.
- Beijos então...
Sentou-se, pegou o controle, se acomodou e quando ia jogar: o telefone.
- ALÔ!
- Alô, por favor, a senhora – e disse o nome - está?
- NÃO!
- Sou eu – e disse o nome – a consultora e estou com problemas no pedido que ela acabou de passar.
- Ah! Não foi ela, fui eu... Então eu posso ajudar.
- Tudo bem.... Tenho um problema com o item setenta e quatro. Não tem código e eu não consigo entender o que foi pedido. Aqui diz um ‘alargador de cútis’. É isto mesmo? O que é um ‘alargador de cútis’?
- Eu não sei, só passei o que tinha aqui no papel e mandei... Só isto.
- Senhor, eu vou precisar que me diga onde está isto no catálogo e me dê o código.
- Eu não vou procurar nada, a senhora que ache ele no seu catálogo, que deve ser mais completo que estes que tem aqui... A senhora que ache que porcaria é esta. - já perdendo a o restinho de paciência.
- Senhor eu não quero ser rude nem deselegante com o senhor, mas foi o senhor quem fez o pedido, o senhor é quem deve saber do que se trata.
- Não sei que p.… é um ‘alargador de cútis’. Vocês vendem o treco, que nem sei como é, nem sei se existe e eu que tenho de procurar?
- Senhor, se não me disser o que é não posso fechar o pedido e vocês não vão receber os produtos.
- EU NÃO ESTOU NEM AÍ... O PROBLEMA É DE VOCÊS!
- O senhor está estressado...
- A SENHORA E ESTA M... DE ‘ALARGADOR DE CÚTIS’ É QUE ESTÃO ME DEIXANDO ESTRESSADO!
- O senhor está sendo grosso e eu não preciso disto! – e desliga o telefone.
O cara já estava muito bravo, já respirava até com certa dificuldade, senta novamente em frente à televisão, pega o controle e vai começar a jogar quando chega sua esposa e pergunta se tudo correu bem e recebe como resposta uma explicação exaltada sobre todo o episódio. Ele cada vez mais alterado.
Ela vai até a mesinha do computador, pega o envelope, lê o papelzinho e decifra:
Um ‘alongador de cílios’.
Melhor nem falar nada. Ao menos enquanto ele estiver rosnando e apertando os botões do controle com o videogame desligado.

1 de fev de 2017

Gildo

-Então é pra cá que a gente vem quando morre?
-Não, na verdade não... Você não morreu ainda, o paramédico está tentando te reanimar.
-Então?
-Bem... Deixa eu explicar...

Gildo tinha acordado pela manhã e como sempre nas Segundas-feiras estava atrasado.
Pegou a roupa em cima de uma pilha que estava dobrada, se vestiu às pressas e saiu correndo.
Ao chegar ao ponto de ônibus lembrou-se de checar algo que lhe amedrontava: que roupa íntima estava vestindo.
Em seus piores pesadelos era atropelado e quando chegava ao hospital, para que lhe fizessem curativos lhe tiravam as roupas e descobriam que ele estava de calcinha e não de cueca.
Geralmente acordava aos berros, transpirando litros e tinha de ser acalmado por sua esposa.
A paranoia era tanta que sua gaveta de cuecas ficava em uma cômoda separada do guarda roupas do casal.
Naquele dia, estava tudo em ordem. Até freada tinha.

-Quando se morre sem resolver algum assunto na Terra, vem para cá: o limbo.
-E como sai daqui?
-De duas, uma. Volta e resolve lá ou fica aqui pra sempre. Mas tem que decidir logo, se não o médico lá desiste e te dão por perdido.
-Então tem como voltar?
-Tem, mas esbarra nesta burocracia.
-Burocracia... Pensei que isso era coisa do inferno.
-Não pô... Pra ir pro inferno é direto. Sem escalas.
-Mas eu não tinha nada pra resolver.
-Tinha sim... Tinha que enfrentar seu medo.
-O que? Ser atropelado? Eu fui, oras...
-Mas não estava de calcinha. – e contém o riso.
-Mas nem! Eu sou muito macho.
-Bom... É o seguinte...
-Diz.
-Tem que decidir agora. Vai...
-Eu fico aqui.
- Pensa bem... Não vai ver ninguém, não vai falar com ninguém depois de eu sumir. Aqui não tem cerveja, não tem futebol, não tem mulher, não tem rock, não tem nada...
 -Hum... É. Bem chato.
-Pois é. Então volta e...
-Não.
-Deixa eu terminar... Você volta até a manhã antes do fato... Vai ser atropelado, tudo de novo, mas vai resistir e viver por mais algum tempo.
-E você pode fazer isto? Você é Deus?
-Chame como quiser... E então? O que decide?
-Quanto tempo?
-Se interessou heim? Mas o tempo eu não vou dizer.
-Hum... Não... Nem ferrando. Já disse, sou macho.
-Eu já te disse que todas as suas vontades e angustias vão continuar com você aqui?
-Ah é?
-É... Isto aqui pode ser pior que o inferno viu...
-Bem... Eu vou pensar e...
-Pensar nada... Tem que resolver agora, to vendo na tela do computador aqui que o paramédico ta quase desistindo.
-Tá bom, eu volto.
-Ok... Vai, vai, vai...

E então Gildo acorda. Como sempre nas segundas está atrasado.
Levanta-se às pressas, pega sua roupa em uma pilha que estava dobrada, para em frente à gaveta de roupas de sua esposa e sente uma vontade enorme de vestir uma de suas calcinhas.
Olha para os lados como se verificando se não há ninguém vendo e escolhe uma preta. Na verdade apenas dois fiozinhos. Um na cintura segurando o tapa-esfiha e outro atrás.
Veste e logo coloca a calça jeans por cima. Coloca a camisa, os sapatos e corre para o ponto de ônibus.
Nem sequer chega a atravessar a rua. Um Corcel amarelo o atinge e o arrasta por um bom trecho da rua.
Alguns minutos depois chega a ambulância e a primeira providencia do paramédico e lhe tirar os frangalhos de roupa que lhe cobriam os machucados e dificultava o atendimento.
Profissional, não comenta e nem sequer internamente ri, mas infelizmente, não consegue reanimar Gildo.
No velório não havia outra conversa que não fosse a calcinha. Se estivesse vivo, morreria de vergonha.

Então chega ao limbo e encontra o mesmo ser que lhe havia feito a proposta de volta e este, com um sorriso mofino e sacana diz:
-Com tanta calcinha enorme na gaveta você tinha que pegar logo aquela?
-Não vem não, você me enganou, disse que eu resistiria. Me enganou...
-Mas você também não foi sincero. Por isto está aqui.
-Como não? Sempre disse que morria de medo, tinha pesadelos até, de morrer e estar com uma calcinha.
-Disto eu não duvidei, nunca, mas ficou aqui se dizendo machão e tal... Fio dental Gildo? Logo fio dental?